terça-feira, 13 de abril de 2010

Escrever demais

Escrever


















Posso estar totalmente errado e equivocado. Mas não acredito em autores que escrevem demais.
Quem faz mais de um trabalho por dia, salvo se for coisa fácil, está irremediavelmente comprometido. Posso citar uma centena de autores que escreviam mais de quatro horas por dia. Todos eram romancistas, nunca contistas, cronistas ou poetas.
No romance, o autor constrói o tema e desenvolve à vontade. Pode passar horas escrevendo, a linha é uma só. Os excessos são cortados, as falhas são preenchidas.
Não se dá o mesmo com a poesia, por exemplo. Após ter feito um trabalho, o autor pode e deve trabalhar em cima dele, aparando arestas, burilando o texto. Este trabalho é demorado. Todos os grandes autores falam sobre o assunto.
É simples. Uma crônica seguida da outra, um conto ou um poema, exigem pensamentos distintos. Devem ser trabalhados também. Ora, isto é muito difícil. Quase impossível, para quem quer obter bons resultados.
O que acontece, afinal? Prejudica-se todo o trabalho excessivo, e é muita sorte do autor quando um se salva.
Não é questão de achismos. Basta conferir.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Imitador

Nelson Rodrigues


















Acabo de ver no Leia Livro, uma seção literária da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, para onde envio somente contos e crônicas, o comentário de um leitor dizendo que eu imito Nelson Rodrigues...
Quem me dera ter o talento do velho Nelson! Que foi, inclusive, nosso maior teatrólogo, além de cronista invejável e jornalista de extrema experiência.
É verdade que gosto de imitar certos autores famosos, quando me dá na veneta. Imito Nelson, Sérgio Porto, Jorge Amado e João Ubaldo. Mas mal, muito mal! Ah! João Saldanha. Não posso esquecer o magricela de voz grave e destemperado gênio. Saldanha era muito brigão.
Este fato de escrever traz sempre comparações inevitáveis, se quem escreve está sempre lendo. Lembro que no colégio lia diariamente na “Última Hora”, de Samuel Wainer, os famosos textos de Nelson Rodrigues, “A vida como ela é.” São antológicos; quem não os conhece deve procurar ler, pois foram reeditados, preenchendo uma lacuna que existia na memória nacional. Tão bom era ele que a sua “À sombra das chuteiras imortais”, esta sobre futebol e publicada no “Globo” passou a ser leitura de intelectuais da época, que pouco entendiam ou até mesmo não gostavam de futebol.
Sérgio Porto, o famoso Stanislaw Ponte Preta, com suas personagens famosas, a maior delas a Tia Zulmira, a terrível gozação que fazia com Niterói – “Niterói é terra onde galinha cisca para frente e urubu voa de costas” – só era perdoada pelos niteroienses porque ele morou aqui alguns anos. Publicava todo final de ano a lista das “Dez mais certinhas”, onde apareciam as mulheres mais bonitas e certinhas do ano. Mulher que saísse nesta lista estava feita! Eram quase todas atrizes, não me lembro de exceção.
Jorge Amado e João Ubaldo, além de diferentes entre si, pouco ou nada tinham em comum com os dois gozadores citados. Ou melhor, talvez tenham. A profunda irreverência.
Ler Hemingway. O maior escritor do século XX, e talvez comparado a Shakespeare, só o tempo vai dizer, foi um profundo conhecedor da alma humana. “O Velho e o Mar” é obra não suplantada por nenhuma outra.
Qual a razão de estar escrevendo tudo isto? Não sei não. Deu na telha!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Ousada

Abraço

















Jovem ainda. Fosse burra, o fato seria normal. Mas não era.
Têm muitas coisas que incomodam. Esta invade nossos poros. Estudante superior, e não digo qual a área, foi abandonada pelo namorado que tanto amava.
Um fato comum, que acontece todos os dias. Não com a bela de cabelos negros, rosto anguloso, boca sensual e olhos implorando amor. Amor carnal. O namorado que sumiu não aguentou tanta exigência. Gostava de futebol, e toda quarta-feira estava firme no Maracanã. Torcia pelo Botafogo, mas o que gostava mesmo era ver os jogadores correndo no gramado, tentando o máximo, botafoguenses ou não.
A mulher julgava-se uma abandonada, imaginava que talvez era uma amante, futebol era desculpa. Mas nunca o seguiu. Caso fizesse, comprovaria que o marido estava na geral, botando os diabos para fora, berrando, xingando o juiz em altos brados. Fazia ali o que era incapaz, tanto no trabalho, como em casa.
Não era um moleque. Apenas, como muitos, extravasava suas frustrações e angústias.
Voltava para casa suado, com cheiro de multidão. Tomava um longo banho, e contava alguma coisa para mulher, olhos fixos na televisão.
Certo dia foi à praia. Biquíni provocante e desceu no elevador junto com um garoto morador do prédio. A camisa longa, do marido, escondia muito seu corpo.
Na areia, quando tirou a camuflagem, o guri ficou doido. Seu estado piorou muito, quando ela pediu com voz melosa e safada, que ele passasse óleo no seu corpo.
Sim, aquele era o homem ideal, completamente apaixonado, incapaz de deixar a sua amada sozinha, fazendo-lhe toda espécie de carinhos.
Puta? Em absoluto que não! Apenas uma mulher “moderna”, que acabou perdendo a guerra quando o seu queridinho começou a namorar uma garota da sua idade.
Chorou rios de lágrimas.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Equinócio de outono

Quaresma













Não sei a opinião de vocês, mas a palavra equinócio é bastante sonora aos meus ouvidos. Significa igualdade entre dia e noite, o que ocorre na entrada da primavera e do outono.
Normalmente, o equinócio de outono no hemisfério Sul, ocorre no dia 21 de março. Estamos vivendo o primeiro dia da bela estação, com suas características próprias. Passamos um dos piores verões este ano de 2010. Só um pais foi mais quente: Guiné. No Brasil, a temperatura foi bem mais alta do que no deserto de Saara, e daí todos podem imaginar o que sofremos.
Mas chega para resgatar nosso bom-humor, saúde e alegria a estação que amarelece as folhas, traz bons frutos, tem clima mais seco e temperatura agradável, convidando às caminhadas, a ver e sentir a natureza e perceber um céu mais transparente. A flor que tão bem caracteriza a estação é a quaresma, que religiosamente no Cristianismo é prenúncio da sua festa máxima, a Páscoa. Os dias são mais alegres, o Sol tem outro brilho e nosso organismo agradece. Maio está próximo, e sem dúvida é o mês mais bonito do ano.
Bem-vindo seja, equinócio da temperança! Os amores vão florescer, os que já existem vão aumentar e poderemos aproveitar melhor nossos dias.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Apaixonada

Trilha


















Estava apaixonada, não poderia negar. Muito bonita, suas paixões eram fortes.
Corpo esbelto, trabalhado pela natação e ginástica pesada. Como se não bastasse, corria no calçadão da praia, todos os dias, dois quilômetros.
Este fato é bem mais comum do que parece. Tanto homens, como mulheres são aconselhadas pelos médicos a desenvolverem algum tipo de exercício físico. Se possuírem taxas elevadas de colesterol e triglicerídeos, o exercício aumenta, como no portador de diabetes.
Foi assim que se conheceram, o já experimentado guia de montanhismo e a mulher que não queria perder a juventude. Um absurdo, bem pensando.
Correndo no calçadão. Ela, dois quilômetros, como já se disse. Ele, cinco. Era normal cruzarem-se enquanto corriam. Sorriam sempre, um para o outro. E mais nada, embora ele já tivesse notado no corpo esbelto e forte da companheira, cintura fina, quadris largos, coxas grossas e belo rosto.
Ele, no tamanho dos ombros fortes e na musculatura do braço e da perna. Montanhistas dependem muito da força que possuem, tanto nos membros superiores, como inferiores. Em escaladas, principalmente, caso não tenham força e agilidade, estão expondo-se a um tombo. A segurança no montanhismo é grande, embora muitos duvidem.
Determinada manhã, ele parou e estava tomando água de coco, quando viu a colega aproximar-se. Conversaram, riram, deram um beijinho de despedida bem moleque. Fizeram trilhas juntos, caminhadas fáceis, e os filhos dela, já em idade de suportarem o esforço sem problemas, adoraram o tio que fazia sanduíches de carne assada com mozarela e salame.
Ganharam ambos, do simpático rapaz, facas do tipo combate e uso na mata, com bainha forte de couro e lanternas com pilhas sobressalentes. Tudo acondicionado num forte bornal. Aprenderam a beber água saída da pedra, gelada e puríssima, e adoram a irmãzinha linda que nasceu, depois de um ano caminhando e acampando por estas montanhas afora.

sábado, 13 de março de 2010

Lágrimas na rosa (tanca)

Rosa














Gota de sereno
que brilhando esplendorosa
lágrima na rosa!
Pois todo o campo chora
é quando desperta a aurora...

terça-feira, 9 de março de 2010

Crônica de domingo

Brincando no parque/Google
















As ruas estão quase vazias, comparadas com os outros dias da semana.
Falam baixo; a obra da esquina, um bruto edifício de vinte andares, só tem o vigia com o seu rádio que toca música sertaneja. Baixa, não dá para incomodar, desde que um sargento paraquedista, morador no local há pouco tempo, resolveu dar um ultimato ao ouvinte.
- Você me acorda outra vez com esta merda de música alta e vai engolir o rádio. Sem água!
Discutir com o tal sargento? Nem pensar, parece um tanque de guerra e não um soldado. Deve estar dormindo, ainda é cedo.
Dia com pouco Sol e os pais levam a pirralhada para um grande e bem cuidado parque próximo. Criança também costuma aborrecer, falam alto, discutem, brigam. Hoje não. Os pais acompanham e elas não estão em grupo.
Tem a sinfonia das bombas que puxam água da rua, estão ligadas, os edifícios têm que manter suas cisternas cheias. Essa de lavar com mangueira está proibida. Que coisa, lavar o passeio com água tratada! Falta de educação de uma gente que já não é lá muito educada.
A lanchonete está preparando seus pratos, o cheiro chega aqui. Não é nenhum restaurante francês, mas os pratos são apetitosos, sem falar na deliciosa pizza feita no forno de pedra. Acho que estou com fome. Que tal uma banana madurinha, beleza de cor! Não, banana agora não. Meu chardonnay já está na geladeira, não custa e tomo uma taça mal-educada, cheia até quase a boca.
Vale tudo; afinal hoje é domingo, e para não ser sacrílego, paro de escrever. Vou dar uma saída para comprar o jornal, uma bela desculpa para ficar olhando as mulheres que gostam de flanar nas manhãs de domingo, calmas como esta.