segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Eleições

                                              Eleições

 

            Meu blog silenciou.  Mas eu não o matei.

            Em primeiro lugar, presto minha mais sincera homenagem à Rainha Elizabeth II, que sempre admirei com o máximo respeito.

            Talvez não deveria constar de crônica política local, mas se minha mão não parou, respeito.  A gente começa a escrever com uma ideia, os pensamentos fluem e o resultado fica bastante diferente.  As eleições presidenciais, o sistema republicano democrata mais retrógrado que os estudiosos políticos ainda aplaudem,  dão poder a alguém de ser ditador com mandato certo durante um espaço de tempo, ainda existe.  E temos com isso os mais completos disparates.

                        Quase todos justificam com o regime político norte-americano, que não é nenhuma perfeição, mas a força descomunal do legislativo garante um bom equilíbrio, o que não se vê em outros países, Brasil incluído.  Um homem não pode representar um povo!  Só vários, em congresso, num gabinete determinado, cujo Primeiro-ministro comanda, é legal e democrata.  Falhou, vai a julgamento parlamentar. Vencido, nova eleição é feita pelos representantes do povo, até que logo a maioria declare, por voto, quem será o novo dirigente, que vai organizar o seu gabinete. 

            É a forma de poder mais honesta, racional e democrata que existe, hoje praticada pela maioria das nações.

           

            Envergonhado, volto a falar no Brasil.  Os candidatos que se destacam são Bolsonaro e Lula.  Um, completamente insano; outro, desonesto. 

 

            A imagem é homenagem a mais simpática, doce e honesta dirigente que já tivemos!  Obrigado, Lilibeth.    

 

sábado, 4 de junho de 2022


 

                                      O crime do século

 

            Sim, é o maior crime praticado no século vinte e um.

            Uma molecagem comunista, parida do czar Putin, o soberano de todas as Rússias.  Exatamente assim, contra uma nação bem menor, muito menos armada, agressão covarde, desumana e cruel.

            Putin está destruindo toda uma nação, um povo, uma república vizinha, e existe gente que ache normal tal fato, por ser um ‘negócio interno’.  O que está fazendo na Ucrânia é uma covardia sem limites.  Interessante.  Desde a revolução comunista, a Rússia moveu todos os ataques e massacres, tanto internos quanto externos.  Simplesmente, uma covardia nojenta, suja e covarde.

            Falam de Hitler, o grande canalha, como o grande safado de todos os tempos.  Um inocente, comparado com Stálin.  A vala de sangue aberta pelo comunismo soviético é a mais tenebrosa que o mundo conhece

Não sou direitista.  Nunca o capitalismo me envolveu.  Mas a democracia, soberana e honesta, é apaixonante!  Sem mandantes autoritários, ou donos da verdade.  Eles não existem.  O regime político livre não os suporta.  Em qualquer lugar desta terra.  Ideologias extremadas?  Danem-se!

Não só na Rússia, poderosa militarmente.  Também em outros lugares, onde os exércitos ainda utilizam fuzis enferrujados.

Vá para longe, Putin e não retorne.  Leve seus admiradores e muitos que se dizem contra.  Estamos precisando de ar!  Ar puro!


imagem: o jornal Pravda, ou Verdade....

sexta-feira, 27 de maio de 2022

"À sobra das chuteiras imortais"


 


“À sombra das chuteiras imortais”

 

 

 

Quando uso o título, que era uma coluna de Nelson Rodrigues, quero prestar uma homenagem ao nosso teatrólogo maior, a Newton Santos e a Garrincha.

Quem contou esta história, na coluna que me apoderei do nome, foi Nelson.

O Brasil jogava a Copa de 1958, na Suécia, onde após luta feroz sagrou-se campeão do mundo pela primeira vez.  Invicto!

Eram os áureos tempos de Didi, Newton Santos, Garrincha e um menino que aparecia, chamado Edson e apelidado Pelé.

Deixo o futebol de lado e passo aos fatos.  Garrincha era um cidadão que nunca ninguém conseguiu definir; se um pouco retardado ou incrivelmente ingênuo.

O fato é que viu numa loja em Estocolmo uma raridade com que todos sonhavam: um pequeno rádio de pilha. Desejo de qualquer um no Brasil possuir a cobiçada peça.

Não duvidou.  Comprou o rádio e chegou feliz com ele na concentração.

Ligou o rádio, mas as estações suecas não paravam de falar, e ele ficou muito decepcionado.  Quis trocar o rádio, mas o velho Newton Santos, seu protetor até a morte, prontificou-se.  Comprou o radinho.  Fez questão.

Newton pagou a mesma quantia que Garrincha e ficou com o rádio.

Foi o que bastou para o homem das pernas tortas, terror das defesas inimigas, sair contando que “o compadre Newton deve estar doido. Fez questão de comprar um rádio meu que só fala uma língua que ninguém entende.”

A Copa foi ganha, o Brasil vibrou e apareceu no futebol o tal garoto genial, o Pelé.  Encantou o mundo, e em pouco tempo o apelido de “Rei” foi dado e dura até hoje, merecidamente.

Chegando ao Brasil, mesmo no avião, Newton Santos ligou o famoso radinho que comprara de Garrincha.  Falava um português perfeito, captando as emissoras locais.  Garrincha não entendeu nada!  Rindo, seu velho amigo devolveu o aparelho ao antigo dono.  Não quis de forma nenhuma receber o dinheiro, embora Garrincha insistisse.  O pobre Mané não sabia que na Suécia o rádio só iria pegar ondas locais mesmo.

Ficou numa alegria de menino, coisa que ele nunca deixou de ser, e contava para todos sobre a bondade do amigo.

São coisas do futebol; coisas da vida.


imagem:  Newton Santos, ainda jovem

sexta-feira, 25 de março de 2022

Antero do sino




 

                                                     Antero do Sino

 

 

 

 

            Vindo ainda pequeno de Feira de Santana com pai, mãe e irmãos, Antero Siqueira desfrutou da calma e da camaradagem dos seus novos amigos que moravam na cidade onde o pai tinha escolhido para sair da Bahia.

            Não existiam motivos para a saída da cidade baiana, até que o pai de Antero, Honorato Siqueira, meteu a faca num adversário maldoso e antigo  que tinha.  Cupelo morreu na hora, não resistiu aos golpes recebidos.  Azar o dele, não tinha nada que se meter com Glorinha, filha mais velha de Honorato.  Descaradamente, Cupelo havia passado a mão nas pernas da moça, na feira, quando ela fazia compras para a mãe.  Embora vistosa e com cara muito bonita, a moça de apenas 16 anos não merecia a gracinha de Cupelo, visto e revisto na cidade como um conquistador audacioso e barato.

            Quando Honorato interrompeu os goles de pinga que o safado estava calmamente bebendo, e pediu satisfações ao namorador ordinário conhecido, este não teve dúvidas.  Abriu o paletó e mostrou a garrucha que sempre o acompanhava.  Esqueceu, porém que quando um pai vai tomar satisfação de mal feito a filho seu, não costuma ir desarmado.  E aconteceu o inevitável.  Honorato já não estava calmo, nem razões havia para isto.  A faca que carregava, desta do tipo de escoteiro, não muito comprida, mas amolada e guardada na bainha de couro, apareceu rápida nas mãos do pai injuriado – era como ele via o fato.  Os médicos que examinaram Cupelo constataram três ferimentos, mas ninguém presente, nem mesmo Honorato, contou os golpes desferidos no debochado que deveria saber que mais cedo, mais tarde, iria terminar desta forma nas mãos de um pai, noivo ou marido.

            Até resolver direito o que faria, Honorato ficou sob a proteção do coronel Elias, proprietário de um mundão de terras na região.  Podia continuar na fazenda, mas não queria viver como bicho coitado.

            O coronel, homem de conhecimentos, sugeriu a cidade no interior de São Paulo.  Tinha um irmão que morava lá, vivia da lavoura e proclamava a pequena cidade como sendo o próprio paraíso.  Honorato mais mulher e três filhos rumou para a cidade, onde já o aguardava o irmão do coronel Elias, que também era conhecido seu.

            Enquanto não arranjou onde ficar, morou na fazendola do Quincas, que o conhecia muito bem, trabalharam juntos numa pequena fundição em Salvador, quando jovens.  Faziam muitas peças, praticamente todas sob encomenda.  O negócio pequeno não era nada ingrato; rendia uns bons trocados.

            E foi exatamente uma pequena fundição, em sociedade com o velho amigo e ainda saudoso de ver o metal líquido ganhando forma, que Honorato começou vida nova.  Quincas arranjou um empréstimo com o irmão, o investimento não era de monta, mas também não era de assustar ninguém.

            A fundição foi inaugurada e os moradores da pequena e calma cidade ficaram orgulhosos de existir naquela pacífica terra um negócio de cidade grande, segundo eles pensavam.

            A cidade era toda arborizada, clima ameno, gente tranqüila jogando cartas ou dominó nas praças onde não faltavam canteiros floridos.

            O tempo passou, Glorinha casou, Honorato foi avô de uma linda menina com os olhos claros, pois sobravam italianos e descendentes na cidade.

            Antero foi bom aluno, podia ter estudado para ser doutor, mas preferiu trabalhar com o pai, na fundição.  Em pouco tempo, dominava a arte de construir moldes, conhecer a exata temperatura do forno para derreter metais e compor ligas que faziam a parte final do que executavam.  As encomendas eram quase todas de fora da cidade.

            Têm fatos que não se explicam.  Num temporal furioso, um raio destruiu a torre da igreja da cidade, e o sino veio abaixo, rachando não muito, mas o suficiente para soar muito mal, quando tocado.

            Cidade do interior sem igreja não é cidade.  Tão logo moradores que tinham por ofício a construção, repararam a torre.  Deu trabalho, mas valeu a pena.  Ficou faltando o sino, guardado nos fundos da igreja, num pequeno pátio.

            Lembraram logo de Antero, que agora dirigia a pequena fundição, para reparar o sinaleiro das horas e instrumento indispensável nas festas.

            Antero examinou, pensou, mediu.  O sino no pátio tinha conserto e cabia no seu forno.  Depois de cuidadosamente reparado, tendo atenção especial para quando soasse não dar a impressão que tinham batucado numa lata velha, mas num instrumento de respeito, o sino voltou ao seu lugar original.

            Para encantamento dos moradores e do próprio Antero e os homens que conseguiram recuperar a peça, seu som ficou mais bonito.

            Comemoração geral, agradecimentos até do bispo!

            E o já não moço fundidor ganhou o apelido de Antero do Sino.  Nunca havia desejado fama ou riqueza, mas ficou conhecido, comprou um forno maior e contratou novos empregados, que ele mesmo se encarregou de ensinar o ofício e trabalhar observando sempre o cuidado, o amor pelo que se faz.

            O tempo passa célere, e assim aconteceu com Antero e outros moradores.  Antero do Sino já havia completado 40 anos.

            O filho mais velho do Cupelo tinha um pouco menos idade.  Mas guardava o rancor ainda dentro do peito, esta coisa amaldiçoada que destrói gente e o mundo.  Descobrira onde estava o homem que matara seu pai, e havia jurado vingança.  Honorato estava muito velho, quase não fazia mais do que comer e dormir.  Permitia-se, e que ninguém se metesse, a tomar um trago de pinga antes do almoço, e só.  Nem cartas ia jogar mais com os velhos amigos, só aos sábados comparecia.

            Canalhas não merecem nomes para a posteridade.  O filho de Cupelo, na tocaia, atirou quatro vezes contra Antero.  Não vai pai, vai filho, pensou a cabeça imunda.

            Antero tombou mortalmente.  A antiga história de Feira de Santana permaneceu desconhecida.

            No seu enterro, o sino da igreja tocou todo o tempo. Som triste, choroso, despedindo-se de quem lhe havia dado alma.  

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A verdade do Joca


 

                                   A verdade do Joca

 

 

            Joca é o apelido familiar de um cidadão sui generis.  Seu nome é João Carlos.

            Nascido com dificuldade, até hoje conseguiu suplantar todo o empecilho que encontra pela frente, ninguém sabe direito como consegue.  Mora sozinho numa casa grande, e de lá não sai de forma alguma.  Por mais que tentem, com todas as suas pseudo dificuldades, ele é taxativo:  “a casa é minha, gosto dela e ninguém me tira daqui.”

            — Mas Joca, esta casa é muito grande para você.

            — É nada.  Dou conta dela muito bem.  É minha, não saio daqui.

            — Mas uma casa menor seria mais fácil de morar, Joca!

            — Não quero saber.  Eu gosto dessa, entendeu? – e era muito difícil tentar convencer o eremita dentro da casa grande.

            Algumas pessoas, nunca sabemos determinar o motivo, são assim.  Não é nada fácil, ou melhor, é impossível tentar convencê-las.  O problema seria bem mais fácil de ser entendido a partir do momento que passamos a respeitar a vontade alheia, quando ela é autêntica e não vai de encontro a nenhuma norma estabelecida.

            — E para comer, Joca?

            — Tenho telefone, basta ligar para onde eu quero e pedir.

            — Uma pensão talvez fosse bem mais fácil.

            — Eu como na hora que quero, e não gosto de lavagem – era como ele se referia à comida de pensão, por melhor que fosse.

            — Prefere esta comida gordurosa de padarias, que só servem para engordar.

            — Prefiro, e você não tem nada com isto. – Ficava irritado quando alguém queria impor sua vontade sobre ele.  Fora disso, é uma pessoa agradável, conhecedora de assuntos que o cidadão normal não se interessa muito.

            Houve época, quando era mais moço, que conhecia de cabeça pelo menos cem telefones de amigos do pai, lojas de ferragem, pontos de táxi, casas que vendem disco.  Freguês antigo do “Rei da Voz” e da sua principal concorrente, as “Lojas Palermo”, encomendava os discos de sua preferência.

            Encomenda do Joca é coisa séria!  Os vendedores cuidavam de procurar os discos de ópera, sua preferência, e outros gêneros requintados.  Joca sempre teve créditos, créditos altos, diga-se de passagem, nas lojas de disco.  Jamais deixou de honrar um compromisso.  Freguês assim, todo vendedor gosta!

            Hoje não sai mais de casa.  Tendo tudo o que necessita, só em casos especiais desce a escada que chega ao portão.  Aniversários e festas, não perdoa.  Comparece a todas, com um belo apetite para os salgadinhos que só não arrebentam com sua pressão porque está sob controle de anti-hipertensivo, e o pequeno aumento na pressão que tinha simplesmente desapareceu com o remédio.

            Liga pouco, na verdade não liga nada na maneira de se vestir.  Morando sozinho, não tem explicações a dar a terceiros, e não aparece para estranhos, salvo o irmão e a cunhada, sua anja da guarda.  Aliás, o Joca tem esta característica.  Sem fazer a menor força, nem pagando dinheiro, tem o poder de angariar com facilidade anjos da guarda.  Não fossem eles, estaria comprometido, pois seu estado não permite mais fazer as estripulias.  Quando mais novo, era um problema sério, mas que nunca praticou uma ofensa a quem quer que fosse.

            Joca tem casos famosos.  Nunca enxergou direito.  No entanto, durante uma época que faltava açúcar no Rio, e ele tinha uma tia moradora em Santa Teresa, não duvidou em prestar auxílio.  Era época de chuvas fortes, e o bonde estava em greve.  Bonde não faz greve, mas como todos falam assim, quando os trabalhadores param de trabalhar, bonde, banco, correio e até hospital – imaginem o absurdo – fazem greve.

            Como chegar a Santa Teresa?  Subindo a pé pelas ruas?  Seria o normal.

            O normal para Joca não existe.  Foi a pé mesmo, pela linha do bonde, no alto dos Arcos de Santa Teresa.

            Estava literalmente como um burro de carga.  No braço esquerdo, uma mala com roupas e um guarda-chuva.  Na mão direita, um saco reforçado que continha cinco quilos de açúcar.  Mercadoria entregue, a tia ligou para a casa dos seus pais, espantada com o “presente”.  Não, não era um favor da irmã, mãe do Joca.  A iniciativa foi própria...

            Interessante que Joca passava uns dois, três dias com a tia Geta. Mas quem ia trazer de volta o aventureiro era o seu irmão, coisa que o incomodava. Tia Julieta tinha sempre um delicioso café com broa de milho, que o irmão adorava.  Depois de conversar um pouco e fumar muito, devido ao excelente gosto do café, trazia o fujão de volta.

            Joca é um cidadão do Mundo.  Um mistério, igualmente.  Com o pai à morte, falava sem cessar, não se sabe a causa certa.  Poderia ser para atenuar a ansiedade.  Um menos avisado, vendo o fato, falou baixo:

            — Insensível. Não tem a noção da realidade.

            Não teria mesmo?  Ou sua maneira de pensar é superior, entende perfeitamente o que está a sua volta, por uma questão de necessidade  de compreender o mundo?

            Difícil dizer.  O homem é uma incógnita de equação difícil, elegante na sua maneira de resolver.  Como podemos avaliar com isenção de ânimos e preconceitos quem sabe a história de tantas óperas, e ri às gargalhadas quando lê “Dom Quixote”, que conhece quase de cor?

            Uma coisa é certa.  Joca é uma pessoa feliz.

            — Sem meu cachorro e minhas músicas eu não fico!

            Suas únicas exigências, num mundo tão cretino que vivemos hoje.  O amor do cachorro bassê Sharpie e da música que não tem começo, nem fim.

            Os seus sanduíches de atum, praticamente diários.  Sua permanente meia, que usa sempre.  O gosto pelas coisas simples.

            Defeitos?  Têm todos os que a humanidade carrega nas costas!  Muitas vezes chato, chatíssimo, chatérrimo, mas sem rancor.  A violência que o mundo prega e vive não faz parte do seu cotidiano.  Está ficando velho, o Joca. Velho e sábio.

            Como sei disso tudo?  Sabendo, ora.  Joca é o meu irmão João Carlos, uma das três rosas rosas da imagem que sempre uso quando falo da família.  As duas outras são Julinha e Jorge, mãe e pai, todos falecidos

            No dia quinze deste mês do ano, Joca faria setenta e oito anos!  Saudade de todos! 

        

 

 

 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

A mangueira morreu


 

                                            A mangueira morreu

 

            Pois é!   A enorme e bela mangueira, que era uma referência da minha casa, morreu.

            Existe uma praga de cupim, que ataca árvores frutíferas, com mais frequência.  Pegou a mangueira que eu e meu pai plantamos.  Na época, aos sete anos de idade, ou pouco menos.  Mas guardo recordação disso até hoje.

 

            Ela cresceu muito, seu tronco só dois homens o abraçavam.  A fruta?  Deliciosa e quando chegava novembro, já apareciam as primeiras, deliciosas, enormes, sem fiapos, doces que só elas!  Uma dádiva!  A molecada da rua botava-nos, eu e minha mulher, doidos: “moça! Moooçaaaaaaa! Me dá uma manga?”  Então fui obrigado a instituir uma regra.  Manga só de manhã, durante a tarde nem pensar.  Lei respeitada por todos, comentavam uns com os outros  a decisão de seu Jorge.

            O que eu não sabia é que seu Jorge havia ficado famoso.  “Muito boa praça, mas meio doido só deixa pagar manga de manhã.  E avisa que pode ‘pelar’ a mangueira”,  é o que diziam.  Realmente, era assim.

            Desconfiava que muitos estavam matando a fome com as mangas enormes. Sim, caso você comesse  uma inteira, não almoçava, várias vezes experimentei isso, no calor de verão. Fosse comida uma manga tirada do pé, doce como era, não autorizava depois um prato de feijão.  Só mais tarde, bem mais tarde.

            Certa noite fui até a padaria próxima, comprar cigarros, havia esquecido dos dois maços tradicionais.  No meio do quarteirão, vejo uma figura forte, e se dirigindo para mim.  “Ferrei-me”, pensei.

— Seu Jorge!

— Sim, eu!

— Está de cabelos brancos!

— Ninguém é jovem a vida inteira, meu caro. Mas diga.  Donde me conhece?

— Não se lembra do Nico, que o senhor chamava de mico, quando subia na mangueira da sua casa?

Em pouco tempo lembrei-me do fraquinho e bem moreno guri, que vinha com um saco, subia nos pontos mais altos da mangueira, depenava tudo e me deixava nervoso, tão alto ele subia, em galhos finos.

— Lembro sim!  Não me diga que é você, cara!

— O próprio.  Por sua causa não tive fome muitas vezes.

— Como assim?

— Eu comia uma manga, vendia as outras e quase todo o verão era a mesma coisa. Não lhe dou um grande abraço porque estou muito doente.  Obrigado, seu Jorge.  E foi-se embora rápido.

Nunca mais o vi.

 

Sabem?  Deu-me mais saudade da minha mangueira.


Imagem: rosa.  Eu plantei. De galho, na poda.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Fim de ano


 

                                         Fim de ano

 

            Foi dureza!  O ano 2021 colocou o homem em cheque!

            Passamos por duríssimas provações, ainda não superadas.  A maldita covid-19 transformou este ano em amaldiçoado.  Matou muitos, trouxe choro, desesperança e mesmo desespero. Nos últimos cem anos, não se conhece fato tão maldito.

            Mas o homem é grande!  Com a sua ciência, conseguiu a vacina em tempo surpreendente, que conseguiu arrefecer drasticamente a doença.  O medo grande, a devastação diária, sumiram.  Cada dia que passa, como se fosse um presente, o número de mortos e atingidos pela doença é menor, e mesmo com as tais ‘variantes’ não assustam nem atemorizam mais. 

            O que irrita, e muito, é o ‘negacionismo’ à vacina, fato muito, muito antigo.  Problemas psicológicos não deixarão de existir nunca, mas não podem arruinar a saúde de povos.

            Muito estranho!  Não consigo compreender.  Mas o fato é real e existe aqui no  Brasil.  Aos estrangeiros, pedimos desculpas!  Mas o fato, repito, não é local.

            Idiotas estão presentes em todas as partes, mas a mensagem não é de guerra, é apenas dura!. Compreendam!

            Grande abraço aos que vivem comigo este momento!  Sejam felizes!

            Feliz fim de ano!