— Não está como devia.
— Como?
— Na temperatura certa. Gelou demais, parece
refrigerante.
A observação partia de um homem de meia idade, sentado
confortavelmente numa cadeira de palha macia, com uma taça grande na mão, vinho
branco, seco, sol e areia quentes, mas não torturantes, praia quase deserta. O mar, água translúcida servia para completar
o local paradisíaco.
Quatro pessoas, eram dois casais. Mulheres bonitas, bem tratadas e cuidadas,
dinheiro é fonte poderosa de tratar-se como príncipes do século que estamos
vivendo. Como? Não há príncipes? Mas que engano... Há sim, e como! Aqueles dois provavam isso.
— Vou dar um mergulho.
Reclame com o garçom. Este vinho
está horroroso.
Ora, é certo: pessoas que trabalham muito e são bem
sucedidas têm todo o direito de gastarem seu dinheiro, não se discute. O muito confortável hotel dava fundos para a
praia, mar sem ondas, tudo muito bem cuidado, mesas pequenas de madeira
rústica, as já faladas cadeiras de palha macia, mas muito resistentes, a mata
do litoral costuma ser bastante forte.
Surgiu o servidor, as garrafas que se encontravam na sombra, debaixo do
guarda-sol de grandes proporções, foram substituídas. Os que ficaram na areia provaram o vinho e
perceberam o cuidado dos responsáveis pelo hotel luxuoso em servir da melhor
maneira possível seus clientes. Ali, a
concorrência era grande.
— Sirva um pouco para mim, Milton. — A mulher era
realmente deslumbrante, talvez por ainda ser jovem. Ambas que estavam com os
dois ‘coroas’ amigos, não eram casadas com eles, e pouco os conheciam. Profissionais. Gente que o próprio hotel se encarrega de
escolher com cuidado. Os testes para
detectar doenças sexualmente transmissíveis, nos dias atuais, são muito
confiáveis. Saúde externa e interna era
o que não faltava.
— Bem melhor do que estava aqui, gelado demais — Tomou um longo gole e permitiu a todos que
dessem uma boa olhada nos seios que estavam prestes a pular para fora da parte
superior do biquíni. Mesmo acostumado a
ver mulheres lindíssimas, o garçom quase deixa cair a bandeja com duas garrafas
de vinho e uma travessa de arenque defumado.
Tudo era festa. O
sol, o mar, o céu infinito, as mulheres que pareciam ter saído de um conto de
fadas.
Longe, muito longe, um médico e duas enfermeiras, uma
delas negra, estavam lutando com a respiração de um menino, parecia ter sete
anos idade, coisa assim. O ar
não ventilava seus pulmões. O grande
acampamento de barracas de lona, onde se amontoavam velhos, crianças, mulheres
e homens quase todos com as vestes em frangalhos, tudo era uma desgraça só.
Pouco soro, alimentos usados com parcimônia, quase sem
medicamentos, e sem qualquer garrafa de vinho branco, havia gente morrendo.






