quarta-feira, 20 de abril de 2016

A Bela dos Pampas

                                       

Os primeiros raios de sol, ainda filtrados pela intensa camada de ar frio que aparece nos pampas, já eram suficientes para acordar e começar o dia de trabalho.  Trabalho difícil, diga-se de passagem.  Difícil e perigoso.
            O pequeno acampamento abrigava vinte e três homens, todos acordados.  Cigarros eram acesos pelos fumantes mais inveterados.  Outros aguardavam para fazer o mesmo, os encarregados das refeições já mantinham fogo aceso, em carvões colocados com cuidado na vala aberta, que parecia uma ferida na terra.  Uma chapa fina de ferro, um misto de grelha e frigideira, suportava o panelão onde estava sendo feita a polenta com linguiça e o grande jarro metálico que servia para esquentar água do chimarrão, mas no momento era uma cafeteira.
            Os homens, falando baixo e aguardando a primeira refeição do dia, olhavam com certa ansiedade para a cozinha de campo.  Os cavalos já tinham sido examinados, todos em perfeito estado, segundo exame rigoroso de cada dono da montaria.  A mata era rasteira, não faltando um bom capim que estava sendo devorado por mangas-largas, principalmente.  Fortes e muito bem tratados.  No campo, o cavalo supera o mais moderno jipe ou caminhoneta.  Assunto para quem entende, não adianta discutir.
            A polenta foi servida junto com o café que perfumou o campo verde, talvez até a fronteira.  Ambos, como de costume, estavam deliciosos.
            A jagunçada, enquanto comia a polenta com linguiça, que alimentava seus estômagos famintos, continuava a conversa baixa.  Falar alto no campo ou no mar, dependendo do vento, é escutado por quem está longe, desde que estejam na direção do vento, no mesmo sentido dos que falam.  Daí a cautela.
            Muitos homens examinavam suas armas.  Examinavam e limpavam, como se fosse preciso limpar o que estava impecavelmente sem qualquer sujeira.  Revólveres, na sua maioria, todos de calibre trinta e oito, pois o tiro é de respeito e as carabinas usam o mesmo cartucho.  Estas tinham um poder de fogo terrível, tiro capaz de derrubar um boi, se fosse bem dado, principalmente na cabeça, onde era certa a morte.  Ali, ninguém deixava de acertar uma latinha de cerveja.  De carabina, a uma distância de uns cinquenta ou pouco mais metros.  Revólver é mais difícil.  Quem não se atrapalha com mandar para o alto uma lata, a cinco, ou seis metros de distância, pode sentir-se seguro.
            Estes homens estavam sob o comando de Raul Camargo, antigo policial civil, aposentado aos quarenta e oito anos de idade, após longa carreira nas mais diversas delegacias onde esteve lotado.  O segundo homem era da sua inteira confiança.  Cumpria ordens sem perguntar nada, bastava que acreditasse em quem dava a ordem.
            A ronda noturna havia terminado, e eles voltavam para uma fazenda grande, onde não se contava o número de cabeças de gado.
            Só o chefe subiu os oito degraus que levavam até a enorme varanda da fazenda, que tinha porão para evitar que a umidade e as variações de temperatura incomodassem os moradores, além de proteger a construção.
            — Bom dia, chefe – cumprimentou Raul o fazendeiro de compleição forte, olhar decidido e mãos grandes.
            — Bom dia, Raul.  Alguma novidade?
            — Felizmente não, meu senhor.  Tudo parece estar na mais perfeita ordem.
            — Tem certeza disto?
            — Pelo que vimos durante a noite, tenho.  Mas nunca se sabe a ideia destes safados.
            — Eu sei Raul.  No momento em que você descuida, a terra está toda invadida.  Estes sem-terra são uns moleques bem dirigidos. 
            — Comigo não tem esta não, coronel Leôncio.  Se passar da cerca, é homem morto.
            — Eu sei, Raul. Por isso contratei seus serviços.  E pare de me chamar de coronel. Não tenho patente.
            — Questão de respeito, senhor.  Quem tem mando é superior, é coronel.
            Leôncio fazia ares de quem não gostava de ser chamado coronel, mas adorava o título dado pelos empregados.  Sua fortuna pessoal era grande, mas não como a de outros fazendeiros, principalmente dona Iza.  Segundo contavam, tinha a maior fortuna do lugar, e era muito bonita.
            Colocaram-lhe o apelido, muito próprio, de A Bela dos Pampas.  Qualquer assunto mais difícil de ser resolvido, ou decisão a ser tomada, Iza, a Bela dos Pampas, dava sempre a última palavra.  Ninguém sabia direito suas origens, mas todos conheciam sua fortuna.  Como os outros fazendeiros, detestava os sem-terra, que invadiam, destruíam, plantavam milho e não colhiam, e viviam como ciganos em barracas de plástico preto.
            No início do movimento, tinham diretrizes e eram ordeiros na medida do possível, nas invasões que faziam em terras devolutas, ou terras sem produzir nada.  Mas agora não respeitavam mais nada, era o caos, invadiam e ficavam impunes até mesmo prédios públicos.
            Os fazendeiros do Rio Grande, temendo que lá surgisse outro local parecido com o Pontal de Paranapanema, montaram verdadeiros exércitos particulares, que vigiavam as propriedades dia e noite, todos com ordem de atirar se preciso fosse.  Mas deveriam obedecer ao comandante, sempre um homem experimentado, que não vacilava em dar ordens severas.  Os participantes destas guardas não eram homens que se intimidam diante de uma arma, fosse ela foice, facão ou mesmo espingarda de cartucho.  A resposta era imediata.  Poucos gostavam do uso de espingardas calibre doze, porque espalhavam muito chumbo e o alcance não é grande.  A carabina trinta e oito, fabricada no Brasil mesmo, imitando com perfeição absoluta as velhas Winchester americanas, ferramenta indispensável na conquista do oeste norte-americano, onde foram cometidas barbaridades sem limites, serviam muito bem para repelir invasores e os mais audaciosos.
            Surgiu uma invasão, que ao contrário de todas as outras, não aconteceu durante a noite. Urgia providência, mas mulheres e crianças estavam à frente dos invasores.  Difícil tomar uma decisão, numa hora destas.
            Raul não teve dúvida.  Com mais dois, rumou célere até a fazenda da Bela dos Pampas.  Embora Iza estivesse almoçando, imediatamente foi atender ao jagunço.
            — Têm crianças e mulheres protegendo estes moleques?
            — Isso, dona Iza.  Está cheio.
            — Atirem nas mulheres.
            — Nas mulheres?
            — Sim, nas mulheres.  Matar crianças é bobagem, tchê.  Você mata a mãe, se for preciso.
            —  E por que isto, dona Iza?
            — Porque se você mata a criança, os pais enterram, é noticiário ruim, mas alguém tem que tomar conta das crianças.  Elas dão trabalho aos maiores.   Muitos não têm experiência disto, e não poderão fazer parte dos combates.  As mães.  Matem as mães.
            Felizmente não foi preciso.  Os invasores retiraram-se quando ouviram o barulho do estampido e da bala zunindo sobre suas cabeças.
              


Imagem:  A belíssima atriz Daniela Escobar, uma homenagem.

domingo, 10 de abril de 2016

Não esqueça do pão

                                                

            Existem tipos nesta vida que não se apagam.  Ou para muitos, quando são artistas, principalmente, ou para um reduzido grupo de amigos.  Às vezes, para um só mesmo.
            Sempre bem barbeado, banho tomado, terno azul de tecido leve, sem gravata na maioria das vezes, o magro comandante Carlos surgia do nada e para ele voltava sem deixar vestígios.  Tinha cinquenta anos, pouco mais ou pouco menos.  Invariavelmente, estava embriagado.  Falta de educação, ou mesmo a chamada vergonha na cara?  De modo algum.  Doença mesmo, que matou um irmão.  Etilismo. 
Como a Vida não é feita só de desgraças, Carlos era um homem destes que não esquecemos com facilidade.  Para quebrar toda a sua angústia interna, que não revelava, nem falava no assunto, era um observador arguto do que se passava no cotidiano.  O rum não impedia suas observações deste mundinho em que vivemos.  Gostava, sobretudo, de gaiatices e fatos que incomodam muitas vidas.  Gostava de uma boa farra, bebidas, cigarros, mulheres que passados os fatos festivos, sumiam para sempre.  Experimentadas.
— Vocês são muito burros.  Não sabem fazer um negócio malandro parecer um fato normal.
O comandante Carlos estava cercado de jovens, muitos casados de pouco tempo.
— Estou dizendo.  Se quiserem passar uma ou mais noite na esbórnia — gostava de palavras difíceis — tem que saber jogar, ou morre seco.  Homem costuma ser chefe de família.  A mulher, como fica?  Chega bêbado em casa, cheirando a mulher?  Isso lá é papel?
— Que fazer, comandante? — foi a vez de um casado de pouco.
— Fácil.  Vá ao encontro.  Beba, agarre a mulher, pegue com vontade, elas gostam e se for para cometer traição, cometa com sabedoria, moleque.  Pegue, beije, faça o que quiser e não se incomode com nada.  Aproveite, não é sempre que isso acontece.
— E a hora?  De noite não dá!
— Como não dá, infeliz?  Deixe o tempo passar.  Quando forem dez da noite, a mulher está uma fera, estrangula você.
— E?
— E você deixa passar o tempo.  Dez, meia-noite, uma da manhã.  Às duas, ela já ligou para a mãe, que por sua vez fala com o filho mais velho.
— Maldade!
— Maldade é você não consumar o ato.  Isso sim é maldade.  A partir das duas, ligam para a polícia, hospitais, amigos, é uma confusão dos diabos, tem gente que começa a rezar, pedem proteção, imaginam que pode ter acontecido o pior, fazem promessas.
— E você...
— Continua aproveitando.  Quando o dia raiar, vá embora.  No caminho, passe numa padaria.  Compre duas bisnagas. Duas bisnagas, rapaz, você ouviu bem.
— Mas não entendi!
— É burro mesmo!  Pegue o rumo de casa, chegue amarfanhado, com a cara amassada e hálito alcoólico, vão urrar de alegria, você está vivo, conseguiu se livrar do sequestro sem arranhões e ainda passou na padaria. O pão!  Nunca se esqueça do pão, é festa total!


quarta-feira, 23 de março de 2016

Inexistente

                                  

             Calor, mas nem tanto.
            O homem de bermudas azuis, já não muito novo, tomava uns chopes em bar limpo e bem frequentado, próximo ao mar, perto da praia.  Sentia a suave sensação de frescor vindo do vento marítimo, enquanto observava o mar, o céu, as nuvens e as pessoas que passavam.
            Era inevitável.  Seu pensamento foi tomado pela linda moça que havia conhecido.  Ficaram muito amigos; aliás, passaram bastante disso.  Misteriosa mulher!  Tinha nome, profissão definida e pais vivos e felizes.  Ela, lindíssima.
            Entre outros talentos, Maria Eduarda fora modelo famoso no Porto, Portugal.  Fez o convite: “vamos morar lá? A casa é herança, é dos meus avós”.  Ambos tinham falecido, e a bela Maria Eduarda era a herdeira e sucessora por eles nomeada, certidão passada em cartório.
            Para o homem de bermudas azuis o problema não era tão simples.  Ainda trabalhando no Brasil, uma mudança repentina era arriscada.  Um antigo laço amoroso servia para complicar mais a situação, embora não fosse sério a ponto de impedir qualquer decisão.  O trabalho sim, este era problema, embora Maria Eduarda já tivesse afirmado que profissões liberais, quando quem as exerce é tido como competente, não são obstáculos ao exercício na terra dos nossos avós.
            Ela estava no Porto.  Ele, no Rio.  Mandou um e-mail.  Era mesmo a solução, iria ao seu encontro e fosse o que os deuses quisessem.  A mensagem voltou no ato.  O endereço estava incorreto, ou não existia.  “Não existe como, se falei com ela ontem?”.  Falei é a maneira de expressar-se.  Não falou, escreveu.  E também não teve resposta.  A elegante e linda mulher havia desaparecido.  Nada de respostas
            As saladas de alface, agrião e queijo branco, sempre servidas na sua casa, acompanhadas de vinho branco português, de melhor qualidade, com pão e azeitonas, não eram mais divididas pelos dois.
            Ele escreveu, escreveu, escreveu e nada, as mensagens não eram enviadas.  Voltavam logo que partiam, com a advertência de “endereço não encontrado”.
            Ora, não era personagem imaginária.  Ele esteve com ela!  Não uma, mas várias vezes.  Acontece.  É uma das facetas do mundo de hoje, mas acontece. 
            Quis chorar.  Lembrou-se dos angariados pelo terrorismo.

            Bebeu mais um delicioso chope duplo e foi-se embora.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Faz frio

                             
Já havia colocado a pesada japona usada na marinha, lã pura, azul fechado.  Antes de sair, esquentou o café ainda fresco que havia tomado antes de vestir roupa para o frio.  Colocou na caneca de cerâmica e bebeu em pequenos goles, estava delicioso.
Saiu, desceu a escada, um só lance, pois estava no primeiro andar, abriu a porta do edifício velho, mas muito bem conservado, como todos do local.  Uma rajada de vento frio açoitou-lhe o rosto.
“Diabos soltos, vento e neve fina”, pensou.  Meteu as mãos nos bolsos, estava sem luvas, não gostava de usar, incomodava, tirava o tato. Colocava quando não tinha jeito mesmo, o frio era selvagem.
O relógio no poste mostrava dez e quinze, boa margem para chegar ao grande escritório da redação.  Duas quadras, não seria penoso aguentar aquele maldito vento gelado no rosto.  Lembrou-se de Sofia Irinova, sua pele macia e quente, seu corpo aconchegante.  Estaria esperando com as instruções e a papelada, formalidades indispensáveis para o encontro com o presidente.  Conseguira a entrevista, fato quase impossível, graças ao seu amigo Timothy Bancroft-Hinchey, diretor da edição em português do Pravda.  Não é qualquer jornalista, por mais conhecido e importante que seja que se aproxima do todo poderoso Vladimir Putin, o mais forte político da Federação Russa.  Forte e temido, havia sido o último chefe da KGB, o serviço secreto da Rússia comunista.  O assunto era a compra de aviões militares, principalmente caças, e interessava ao governo tanto a venda, como a divulgação da notícia, que poderia ser dada por um ministro ou militar que trabalhasse na área, mas não.  Desta feita o próprio Putin queria passar a informação, valendo-se dela para usufruir pessoalmente as vantagens do bem sucedido negócio russo com o governo brasileiro.
Sofia Irinova resplandecia beleza no seu vestido cor terra-de-siena queimada.  A calefação transmitia uma intimidade naquele espaçoso escritório onde a fumaça dos cigarros era intensa.  “Mas como fumam, estes russos!  Fumam, bebem e comem.”  Alan acendeu também um cigarro, enquanto saboreava outro café, desta vez oferecido por Sofia, cujo corpo perfeito estava modelado pela roupa justa.   Guardou a papelada numa pasta pequena, que a bela jornalista russa havia lhe passado, junto com os documentos.
O almoço não poderia ter sido melhor.  Batatas cozidas cobertas de creme de leite, salmão defumado guarnecido com aspargos, arroz e vinho branco.  Trocaram carícias e passariam o fim de semana juntos, no apartamento dela.   Havia mudado de roupa para o encontro.
Putin, como sempre, estava num elegante terno cinza claro, gravata vermelha e fala solta.  Quem o imagina mudo ou reticente está enganado.  Quando interessa, o homem fala pelos cotovelos.  Era o caso, a notícia correria os jornais europeus e americanos.  Venda de armamento sempre é manchete destacada, os concorrentes que perderam o negócio amarguram a derrota, as fábricas perdem dinheiro e prestígio.
Reunião terminada e rua novamente.  Parada obrigatória para tomar um conhaque da Armênia, mais café, e outro cigarro.  Quinta-feira, ele estava perto de ficar colado a Sofia, e semana seguinte, Rue du  Faubourg Poissonnière uma vez mais.  Paris, França.  Ouviu os passos próximos, olhou para trás e não gostou do que viu.  Rápido o chaveiro que era colocado num mosquetão de escalada e no rapel, tão em moda, serviu para ser usado como um soco-inglês.  O golpe desferido foi na têmpora esquerda do tipo.  Marginal, sem dúvida, a polícia não perderia tempo apurando quem havia feito tão bom trabalho.
Alan fizera o serviço militar nas forças especiais francesas, treinadas contra o terrorismo urbano.  Sabia como se defender, e sabia também que quanto mais cedo fora da Rússia, melhor.  Sofia Irinova ficava para a próxima, e no dia seguinte estava outra vez bebendo um tinto num bistrô na esquina do Boulevard Poissonnière com a Faubourg Poissonnière, perto da estação do metrô Bonne Nouvelle.  Tão logo o verão carioca terminasse, voltaria para o pequeno, mas muito confortável apartamento na Rua Barão da Torre.  Os dias cinzentos ficariam luminosos e coloridos.     
   

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Ela

                                          

             Difícil esquecer.  Aliás, não é difícil, é impossível.
            Gente que entra, muitas vezes sem pedir licença, na alma de outros.  Repare, mire, veja: nunca são feias ou inexpressivas.
            Carnaval.  Conversa sem maiores implicações ou responsabilidades.  A cerveja especial bem gelada, e os petiscos deliciosos.  O bar, no Rio, é famoso até hoje por causa disso.  Limpo, bem iluminado, continua ser local para encontros entre conhecidos íntimos, e desconhecidos que pretendem ver um a alma do outro.  Tarefa difícil.
            Linda, lindíssima.  Vestia branco, o que ressaltava sua pele dourada e seus olhos de mel.
            A conversa corria mansa, num quiosque de praia famosa do Rio.  Já haviam tomado juntos, boas talagadas do manjar. Linda, simplesmente linda a moca doirada.
            — Você me encanta!
            — Ora, o sentimento é recíproco.
            Ela era uma deusa jovem, ele poderia, talvez, ser seu pai.
            — Não vê nossas diferenças?
            — Que diferenças? Sou uma mulher formada, não enxerga?
            Situação delicada.  Um querendo a outra, casal de mulher jovem e homem nem tanto.  Ah!  Famosos.  O que pode tornar tudo muito mais fácil, ou escandalosamente mais difícil.  O mais delicado era seu corpo.  Não só o rosto lindo, mas suas formas perfeitas e atraentes. Elegantes e educados.  Facilita tudo!  Boas uniões necessitam de pares parecidos; não iguais, mas parecidos. Educação, comportamento.  As disparidades servem para afastar e o tempo mostra isso.  Deram um mergulho e, mãos dadas foram para casa.
            — Não vou tomar banho com você.  Ainda tomo um uísque.
            — Vai, burrão!  Assim perde a oportunidade de me agarrar nua.
            — Ora, o dia não acabou.  Começou a escurecer agora.  Está com ideia de sair, comer fora?
            — Não.  Tem muita coisa na geladeira, a começar pela salada de grão-de-bico.  E eu quero é comer você — gargalhou quando disse.
            Sabe, é verdade, tem muita gente que se ilude com isso.  Falta de maturidade, experiência e observação.  O homem pensa que manda, que ele comeu, a palavra parece ordinária, tirada de texto vagabundo.  Nada, isto não existe mais, é comeu mesmo.  Continuando: ele não percebe que a escolha não é só sua, mulheres são voluntariosas, é característica delas, escolhem seus homens e não são comidas por eles, comem também, muitas vezes com muito mais vontade, um furor mesmo.  

            Estavam limpos e perfumados do sabonete de qualidade.  Uísque não combina com grão-de-bico, mas era Carnaval, estavam preparados, cerveja não faltava na geladeira grande, sem contar as acondicionadas nas caixinhas de papelão.
            Carnaval... Enquanto a segurava nua, maravilhosamente nua e desejosa, lembrou como tudo começara.  Não a conhecia bem, era um sábado de Carnaval e levou o convite direto:
            — Vamos para a casa de meus pais em Caxambu?
            Ele não foi, não poderia ir, era casado com outra.  Um casamento doente, errado, mas o convite não poderia ser aceito.

            Dizem, ninguém sabe se é verdade, que tudo está escrito.  O maktub dos árabes é um mistério.  O mais interessante é que até hoje, nunca ficaram uma só vez em Caxambu, origem de tudo. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Fins de outono

                                    

            É interessante como muitos marcam suas vidas, ou fatos acontecidos nela, tomando como referência as estações do ano.
            Fins de outono, dias claros, temperatura amena.  Das janelas, tanto da sala como a do seu quarto, apartamento simples, sem luxos, mas bastante confortável, via-se um verde parque.  Era assim durante todo o ano.  A baixa latitude do lugar permitia este requinte.
            Clarinetista da sinfônica, aguardava a hora de almoçar leve e seguir para o trabalho.  Ensaio comum, nada de responsabilidade maior.  Como de hábito, bebia sua dose de uísque, uma só, mas sem falta ou excesso.  O CD tocava Miles Davis com Bill Evans. União não muito comum, quando o contrabaixista é Ron Carter, com sua elegância, altura e classe.  A música era Summertime, de George Gershwin.  Não, os músicos não  escutam só os clássicos famosos.  Ficariam limitados.
            Já havia visto suas mensagens no computador.  Afora a confirmação do ensaio, nada mais.
            Ela não escrevera, como acontecia há dois anos.  Nada!  Fora-se em definitivo, talvez.  Talvez?  Com muita certeza, era bem mais provável.  Tortura! Pensou em beber mais um pouco, mas o senso de responsabilidade falou mais forte.  Tinha que tocar sua vida, era um virtuose, não demoraria a ser o primeiro-clarinetista, que na escala dos músicos só é suplantada, teoricamente, pelo primeiro-violino e o maestro.
            A bebida descia bem, e o almoço, mandado por restaurante próximo, era bastante saudável.  Um prato grande de grão-de-bico frio, com uma salada que só não tinha capim.
            Banho tomado, boa alimentação, passos largos, chegou ao Municipal.  Tinha um coração forte.  No meio da plateia que costuma ouvir os ensaios, num vestido branco qual fosse uma noiva, ela estava lá.  Sorria.
            Com o coração aos saltos, ele subiu para o ensaio e durante todo o tempo tocou para ela.  A orquestra estava maravilhada.  Não, ele nunca havia tocado assim.  Terminado o ensaio, foi cumprimentado pelos colegas e pelo exigente maestro.

            Desceu rápido para a plateia.  Ela não estava mais lá.  

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Supremo errou

                                   

            Toda vez que falo do Supremo Tribunal Federal, faço questão de dizer que ele não erra.  Ele é o guardião das leis do país.
            Na recente decisão sobre o rito do impeachment, errou gravemente.
            Nossa Constituição diz que a República é constituída por três poderes: “o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, independentes e harmônicos entre si.” 
            A independência dos poderes é fundamental, no regime republicano.  Cada qual trata dos seus assuntos, dentro de harmonia indispensável para o bom funcionamento dos mesmos.  Um partido político levantou uma questão.  O rito adotado pela Câmara dos Deputados não estava correto.  A questão foi levada ao Supremo Tribunal Federal, que nada julgou, mas tão somente deu parecer opinativo consultivo, que foge totalmente da sua competência.
            Julgamento presume autor, réu e direito ofendido.  Mas o importante não é isto.  O Tribunal, julgando a ação, legislou por mais do que os juristas queiram negar.  A decisão não lhes compete, mas apenas ao Legislativo, que adota as medidas do rito a ser seguido.  Se o anterior não estava certo, caberia ao Congresso Nacional, e somente a ele, corrigir as distorções, se voto aberto ou fechado, se o Senado, único órgão que tem competência para julgar os crimes de responsabilidade do presidente da República pode, a partir de maioria simples, aceitar ou não o processo acusatório.
            Somente ao Congresso Nacional cabe tomar esta decisão.
            Vamos lembrar certos pormenores da legislação brasileira.  A constitucional segue a norte-americana.  A civil adota os princípios franceses, a penal aos italianos e alemães, a trabalhista à ideias de Vargas, onde se esconde a figura do notável jurista Francisco Campos, o “Chico Ciência” – sabia tudo, o homem.  Também é sua a Exposição de Motivos do Código Penal, considerada peça rara no meio jurídico.
            O exemplo serve de melhor explicação do que toda teoria.  Assim é que a Suprema Corte norte-americana jamais tomou qualquer ato ou decisão que não lhe cabia.  A mais recente diz ao pânico americano de armas de guerra serem compradas pelo cidadão comum.  A Corte foi consultada.  Até mesmo com certa irritação, o relator da matéria afirmou que não cabe àquele órgão decidir sobre o assunto.  Ele é legislativo, e só este poder pode apreciar.  Decisões assim são sucessivas.
            Daí a pergunta: com que autoridade o STF pode apreciar medida legislativa?  Nenhuma!  Cabe exclusivamente aos senhores deputados e senadores decidir como serão as leis do país, nunca ao Supremo Tribunal Federal.  Constitucionalmente, a decisão nada vale e pode ser alterada pelo legislativo.  Estou querendo criar descrença no Supremo?  Ao contrário, absolutamente ao contrário. Repito: ele é o guardião das leis do país.

            Estamos vivendo uma época estranha, muito estranha!  Tudo causa dúvida! 


Publicado no Pravda em 28/12/2015
http://port.pravda.ru/news/busines/29-12-2015/40069-supremo_errou-0/