Zé do NorteGosto e estudei muito a mais autêntica forma de expressão do povo, quando faz poesia: a trova. Já falei no assunto, mas não canso. Trovador famoso foi Zé do Norte, autor de duas trovas cantadas por Vanja Orico que ficaram imortalizadas no filme O Cangaceiro, obra celebrada do cinema nacional. Gilberto Gil também canta as duas, encaixando muito bem em música do seu repertório.
"Me arrenego de quem diz
de que o nosso amor terminou,
ele agora está mais firme
de que quando começou."- Zé do Norte
"Os olhos da cobra verde
só agora que reparei,
se tivesse visto antes
não amava quem amei."- Zé do Norte Zé do Norte era o apelido de Alfredo Ricardo do Nascimento (1909-1979), nascido em Cajazeiras, PB. Cantor, compositor, poeta, folclorista e escritor é um dos trovadores brasileiros de maior expressão. Faleceu no Rio de Janeiro.
Aldeia de Pescadores / di Cavalcanti Tão logo surgem os primeiros raios de Sol, anunciando o dia, as casas simples, construídas perto uma das outras, demonstram movimento.
A fumaça indica que o fogo está aceso. Fogão de lenha; o gás é insosso, não transmite sabor ao feijão catado e escolhido, de molho na véspera. A velha panela de barro, curtida antes de ser usada com toucinho bastante esfregado na sua parte interna, e levado ao fogo até a camada penetrar no barro, ritual de três dias, no mínimo, começa a ser preparada para ir para o fogo. A do café, já tem água fervendo.
Não demora e vai sair um odor que o vento, ainda terral, leva ao oceano, partes distantes, um delicioso convite.
Está na mesa. Café, pão feito em casa, socado, batido, amassado e feito com muito carinho, como todo o resto da comida. Mortadela e margarina, dura mais do que manteiga. Alguns homens tomam meio copo de cachaça, depois da farta comilança. Se tiver banana, melhor não misturar com a branquinha que Aristeu produz com carinho. Lembranças do tempo em que trabalhou numa fazenda famosa, lá pelos cantos do sertão. Alambique de barro, coisa rara. Não envenena a maldita com os inevitáveis sais de cobre, que enjoam e dão dor de cabeça.
Estão prontos. Canoas e barcos robustos vão ao mar, arrastados pela areia afora, pela força dos pescadores. Rede tratada, forte, no caldo da aroeira, que transmite a cor siena queimada. Vão com fé. Todos já rezaram, pedindo a proteção de São Pedro.
E é rede no mar, canoas cercando, canoas puxando, peixes bons, outros nem tanto, depois de puxado o arrastão. Escolhem alguns para levar para casa. Muitos outros o carro frigorífico leva e paga na hora ou no fim da semana, depende do trato.
É o cotidiano de quem trabalha no mar, garantindo o nosso peixe.
Têm outros. Embarcados em traineiras, razoável conforto e muito trabalho, passam, por vezes, uma semana no mar. Trabalho duro para geralmente cinco homens, que nos asseguram tão bom alimento.
Nada parecido como os que andam de paletó, gravata, e grifes famosas.
A persistência da memória / Salvador Dali É muito comum encontrarmos pessoas que gostam de falar dos tempos.
A maioria sempre se refere ao tempo passado e lastima o presente. Compreende-se. O mundo atual é o da corrida contra o relógio, corrida contra o tempo. Todos têm a obrigação de serem vencedores em alguma arte ou ofício. Os saudosistas lembram o tempo do viver mais descansado, que é o certo, dos costumes da época mais rígida, que evitava um comportamento irregular, como o consumo de drogas pelos jovens, por exemplo. A vida era bem mais calma, é uma verdade. Mas tudo tem seu lado bom e o outro negativo. Nos tempos passados, um mal-estar cardíaco era uma ameaça quase fatal. Hoje coloca-se um extensor numa passagem obstruída e dificilmente a ameaça morte persiste.
Continuar com uma lista de exemplos cansa. Mas podemos notar que a vida de trinta, quarenta anos passados, seria bem melhor se contasse com os recursos de hoje. Não falo da televisão de plasma, que apresenta sempre as mesmas coisas. Levar cadeiras para calçadas e manter longas conversas, sempre com um cafezinho, licor caseiro e falar, geralmente mal, da vida dos outros, era bem mais prosaico, sem dúvida. Não vi isto, salvo em lugares do interior, que costumam guardar seus hábitos.
Depois do café, acendiam cigarros com o fumo mal lavado. Ora, é claro que todos fumavam, inclusive o médico. E tome conversa fiada, contavam-se lorotas enquanto as estrelas davam beleza ao lugar.
Hoje a poluição das grandes cidades ofusca o brilho de estrelas mais fracas, não há cadeiras nas calçadas – imagine! – e o cigarro não faz parte dos hábitos modernos, felizmente.
Os tempos mudaram, não para pior. Mudaram porque esta é a evolução da Vida, que não sabemos onde vai parar. Isto é bom. Viver o momento do aqui e agora, aguardando as surpresas futuras, agradáveis e não. É bom lembrar que Bem e mal andam sempre juntos.

 
Balada Tudo silêncio. Não se ouvia a barulheira infernal das cidades.
O mundo mudou para pior, bem pior. O desrespeito pela sociedade parece ter tomado conta de tudo. Não parece, tomou mesmo.
É só aqui? Todos fazem a pergunta. Não. O mundo caminha por trevas. Estas vias obscuras parecem ter tomado conta em definitivo do poder.
É o crack amaldiçoado, o sintético químico que mata aos poucos, sem ninguém perceber. O ecxtasy arrebenta tudo, corpo e alma. Mas tem cada vez mais adpetos, que não tomando conhecimento da acumulação progressiva no corpo, usam indiscriminadamente a droga que deixa a boca seca.
É o mundo que se vive hoje, não por todos, mas por minoria que pode contagiar. Era o que acontecia com o casal que não passava dos vinte e cinco anos de idade. Bebiam água, muita água. Os sensores cerebrais haviam perdido o controle sobre o corpo.
A casa da balada permitia que tal fato acontecesse. Assim é no mundo inteiro. Parece que os jovens, especialmente os que não foram educados com carinho por pais e mães, perdem-se no aparente mundo encantado.
O mundo é assustador e maravilhoso, ao mesmo tempo. Será que é fato de hoje?
Tudo leva a crer que não. O mundo mudou. Impossível saber, se no silêncio da madrugada, estamos descansando, dormindo ou não.
Para muitos, as noites altas são feitas visando o descanso. Muitos, e não são poucos, gostam de aproveitar o período para produzir.
Suave é a noite, de Scott Fitzgerald, é um dos exemplos.
A noite é tranquila. Pode sim, pode não. Afina. É uma questão de gosto. Nada mais.
Soldado Coisa Ruim é como chamam o capitão Callado.
Saído da Aman moço, aos 23 anos de idade, chegou cedo ao oficialato intermediário. Se era ou não parente de Antonio Callado, autor de uma das obras de vulto da literatura brasileira, “Quarup”, nem ele mesmo sabia. Mas tinha conhecimento do apelido posto, Coisa Ruim.
Havia motivos. O capitão era instrutor de combate armado e desarmado de forças especiais do Exército. Conhecia as mais variadas formas de luta; além de faixa preta de jiu-jítsu, gostava de uma pancadaria selvagem, arruaça mesmo, briga de valentões. Conta-se que um pontapé dele, deste que é dado com a sola, era um coice de cinco mulas.
O capitão Callado era homem ideal para treinar seus colegas e subordinados. O comando, logo que percebeu isto, aproveitou-o mandando como instrutor de combate não convencional, mas muito usado em todas as tropas do mundo.
Coisa Ruim não era do tipo forte malhado. Seu corpo, muito musculoso e definido, não era como os tipos idiotas que vemos hoje. Verdadeiros tanques de guerra, mas incapazes de outra coisa que não seja musculação.
Ensinava bem; seus alunos gostavam dele, mas sabiam que um leve desleixo poderia ter sérias conseqüências. O homem era bravo demais. E brabo também.
Um deles contou-me uma das suas proezas. Coisa Ruim era também famoso pelas suas atitudes que autorizam o seu apelido. Gostava de ensinar o perigo de alguém armado aproximar-se muito do inimigo, ou vítima. Se a arma estivesse muito perto, e ao alcance da sua mão, o oponente estava morto. A defesa não é difícil, mas necessita muito sangue frio e coragem.
Não se olha para o adversário; este ato vai denunciar o contra-ataque. Não faz diferença se a arma é revólver engatilhado, pistola idem, e rifle também. Um gesto rápido das mãos do agredido desvia a arma e quebra o dedo indicador de quem a aponta. Eu mesmo já fiz a experiência repetidas vezes. Nunca deu errado!
Muitos duvidam. Perguntem a um professor de lutas, e esperem a resposta. Se o atacante estiver próximo das suas mãos, é dedo quebrado, arma tomada e risco de vida, dependendo do oponente.
O capitão Callado, o Coisa Ruim, morava sozinho num apartamento de dois quartos, na Rua Siqueira Campos, Copacabana, Rio de Janeiro.
Numa fria madrugada chuvosa, uma patrulha da PM encontrou o corpo de um conhecido assaltante da área. Tinha só um tiro, na nuca. Naquela noite, a esta hora, Callado estava tomando uns chopes com amigos.
Dormiu feito um anjinho, acordou, fez o seu café e rumou para o Centro de Instrução.
Passados alguns meses, Callado sumiu. O Coisa Ruim, assim como aparece, some!
Dizem, eu não sei até onde isto é verdade, que a valentia e o sangue frio dele terminaram com o casamento de uma linda moça. Cabelos dourados, olhos de mel suplicando sexo.
Como o Bem e o mal estão sempre presentes, não sei o que aconteceu.
Mas que o capitão deu aquele tiro de 380 milímetros, a arma do assaltante, deu...
Sertão Embora muitos não tenham lido Grandes Sertões: Veredas, do mestre Guimarães Rosa, sabe-se que muitos personagens seus existiram.
Joca Ramiro é chefe jagunço, e seu bando, poderoso. O imortal só não contou, faleceu antes disso, do seu neto, Carlos Ramiro, mas que conseguiu trocar o nome e sobrenome. Fato compreensível e natural. Ninguém quer carregar um nome tão pesado, ser conhecido como neto de jagunço que aparece no romance como um dos principais elementos, figurante de destaque.
Joca Ramiro tinha um filho. Raul, que pouco ou nada devia ao pai. Terminada a guerra de jagunços nos sertões mineiros, assentou-se numa fazenda e mantinha razoável criação de bois, quase todos comprados e alguns furtados. Enricar não teve tempo; a doença não permitiu. Mas ganhou bom dinheiro. Com quinze anos, Raul era sombra do pai, conhecia bem os negócios e a fazenda. Aos vinte anos, tomava conta de todos os negócios, enquanto o pai sofria com o reumatismo, mal podendo andar. Assim mesmo, montava e jamais abandonou o Nagan quarenta e quatro, conservado e sempre limpo, era uma das armas favoritas , o temível, o treme-terra conforme é descrito com maestria.
Até aí, nada demais. É fato costumeiro, onde as bocas permanecem caladas por cautela, os bandos não mais existem, mas os herdeiros não são menos perigosos. A boca só se abre bem para contar velhos causus, todos passados naquelas terras e proximidades. Toca a viola, muitos são bons, corre a cachaça de primeira ordem, fabricada e envelhecida lá mesmo, onde a disputa pela de melhor sabor é acirrada. Carne seca assada no braseiro, aipim, e tome lorota. Mas nada de meter-se na vida alheia: o risco é grande. Pior ainda é bandear-se de gracinhas com as mulheres. Esse não escapa.
Um velho e experimentado comprador de Carlos Ramiro, o neto do temível, o ferrabrás, quis ter um particular com o novo chefe da região. Carlos não se fez de rogado. Sabedor das astúcias do homem convidou-o a jantar. Coisa para ninguém botar defeito. Canjiquinha, feijão com arroz e torresmo, couve cortada fininha, farofa de linguiça e todas as honras da casa. Mais novo, o neto de Joca Ramiro tinha tomado o comando dos negócios.
Nesta conversa, após o jantar delicioso, não teve cantorias, nem vizinhos, nem nada. Apenas os dois, no alpendre confabulavam.
- Você não é político, Carlos.
- Qual, isto não me interessa!
- Interessa por demais. Tem estudo. O diploma comprado foi mais uma idéia formidável do seu pai.
- E daí?
- Daí que você pode ser eleito com facilidade por este povo. Deputado federal, não fazemos por menos. Além de nos defender, fica muito mais rico.
Isto faz alguns anos. O antigo deputado, hoje senador, honra o nome do avô, Joca Ramiro. É um bandido perfeito.
Pistoleiro Não ligava para o frio. Mãos no bolso da japona de lã, gorro azul na cabeça, combinando com o agasalho, caminhava decidido.
Existem poucas armas que se comparem com a Walther P.38. Qualquer arma de fogo mata, mas esta parece a mais assassina de todas. Talvez pelo fato de ser usada por oficiais nazistas, que treinavam tiro nos judeus.
Era um profissional do crime, fora contratado para matar uma mulher.
Acompanhou seus passos, dia-a-dia. Conheceu os lugares que frequentava, seu modo um tanto audacioso de dirigir a Porsche. Já havia, há muito reparado no seu corpo, no seu entender, perfeito.
O homem que o procurou era um destes idiotas que pensam no dinheiro e na ostentação. Errou, exibindo a mulher, alguns anos mais nova do que ele, a todo o grupo que fazia parte. Existem lobos rapaces, sempre procurando carne nova. Foi o que exatamente aconteceu.
Uma amiguinha do idiota contou a história toda, naturalmente querendo a sua parte.
O homem viajava muito, a negócios. Sempre que isto acontecia, a mulher era literalmente devorada por um também idiota conhecido do seu cônjuge.
Isto é comum. Mas o matador não estava interessado em fatos comuns, ou morais. A quantia acertada garantiria um bom conserto na sua casa de praia, em Piratininga, distrito de Niterói.
Ela saltou do táxi, em frente ao edifício do amante.
O antigo sargento paraquedista, expulso da força por motivos de maus tratos aos seus subordinados, tendo ferido um gravemente, e suspeito também de desviar munição para vender aos traficantes, penou no presídio.
Queria recuperar o tempo perdido.
A mulher chegou na hora certa, conforme ele havia previsto, Entrou no edifício com o carro, conforme o costume, e pegou o elevador que a conduziu ao sétimo andar.
Fechaduras são fáceis de serem abertas. Para quem sabe.
Quando entrou, ela estava nua, sendo mexida e tocada pelo outro idiota que encontrara. O combinado era matar os dois.
Mediante um acordo rápido, conseguiu do idiota preço assustador; ninguém quer morrer de graça.
Hoje moram juntos, ele e ela na maior harmonia. Jamais quis saber de outro homem: seu matador havia se transformado no mais querido amante.
Estas coisas acontecem, e no submundo da vida, são muito comuns.