quarta-feira, 29 de julho de 2020
Tristeza
segunda-feira, 6 de julho de 2020
Cachaça de pote
Cachaça de pote
A origem da cachaça é muito incerta. Mas o produto é genuinamente brasileiro.
A mais tradicional explicação é que a bebida teria
surgido com a degradação orgânica do melado, feito pelos escravos. O melado era obtido através da fervura do
caldo de cana, mexendo sem cessar, enquanto esquentava ao fogo.
Um descuido fez com que o melado, guardado em pote de
barro, sofresse a ação do ar e de partículas presentes, oxidando o líquido,
como aconteceu com o pão e o vinho.
O processo chamado fermentação, transformou o caldo de
cana numa bebida forte, que tomada em grandes quantidades, embriagava. Foi o que bastou para serem construídos
alambiques de barro, até hoje existentes em lugares onde a bebida é
artesanalmente feita.
A bebida, repudiada pelos portugueses que não queriam ver
a queda nas vendas da bagaceira, feita em Portugal e utilizando o bagaço
destilado de uvas, tomou o gosto dos brasileiros. Ilegal diante o mando português, acabou sendo
livre com a Independência.
Mas sempre foi produzida e consumida. A melhor cachaça produzida é mesmo a que é
destilada em alambiques de barro, cujo melado fermentou em potes do mesmo
material. Por ser inerte, não contêm
sais de cobre, inevitáveis nos alambiques tradicionais comuns, tóxicos. O alambique de barro é raridade; poucos
lugares ainda possuem o recipiente não tóxico e que vem de muito longa data.
A fabricação artesanal exige cuidados especiais. Os primeiros produtos destilados, ditos
“cachaça de cabeça”, devem ser bebidos apenas com muita moderação pelos
apreciadores. Fato idêntico ocorre com o
final da destilação, a chamada “cauda da cachaça”. Deve ser descartada, como a cachaça de
cabeça, para a obtenção do produto que vai envelhecer, no mínimo, por dois anos
em tonéis de carvalho que serviram para amadurecer vinho tinto. É este o processo artesanal, conhecido como
perfeito na produção da melhor cachaça.
A indústria, naturalmente, não pode adotar este método, onde a produção é pequena. Usa grandes alambiques de aço inoxidável, e o caldo de cana é fermentado artificialmente.
Gostou? Beba uma boa dose, sem exageros. Cachaça de pote é coisa séria...
quinta-feira, 4 de junho de 2020
Tempo atual
domingo, 10 de maio de 2020
Sem o menor cabimento
Imagem: William Shakespeare
sábado, 11 de abril de 2020
Resposta a uma mulher misteriosa
sexta-feira, 20 de março de 2020
Violinista
Sentado na segunda fileira da orquestra, sem roupa de praxe usada nos dias de teatros cheios, o violinista olhava seu instrumento brilhante e bem tratado. Trajes simples, uma elegante camisa branca de mangas compridas, calça jeans já bastante macia pelo uso continuado e ainda cheirando a banho prolongado, frio e com sabonete de qualidade, o músico aguardava as batidas da batuta do maestro que indicam os preparativos para o início da execução.
Moço ainda, ganhando experiência, ouviu as três batidas características e o gesto do maestro avisando o começo do ensaio. A primeira peça a ser tocada era a “Barcarola”, de Offenbach. Sempre agradável, alegre e conhecida, prestava-se bem para começar os trabalhos. Ouviram-se os primeiros acordes. Soavam como o ambiente, calmo, concentrado e harmonioso.
“Segundo violino, você está desafinado.” A voz do maestro veio dura! Pegou completamente de surpresa o jovem músico, que não tivera o cuidado de fazer uma comparação com seus colegas. Realmente, estava desafinado, fato imperceptível aos ouvidos comuns, mas não ao maestro experimentado, batuta apontada para o advertido.
O “spalla”, primeiro-violinista de uma orquestra e o músico mais importante, facilmente identificado por sentar-se na extremidade esquerda da primeira fileira, sempre muito conhecedor da sua arte e pronto para substituir o maestro, se preciso for, também percebeu o fato. Seu colega estava realmente desafinado. Um pequeno aperto na cravelha e o instrumento ficou em ordem. Estes incidentes ocorrem com frequência, mas não agradou nada ao homem que pretendia falar com a jovem e bela flautista, olhos expressivos, lábios bem feitos. Ele desejava a convidar para um descompromissado lanche, talvez nem tão sem intenção assim, mas de toda forma era o que havia planejado dizer.
Desafinado... Todos ouviram, inclusive ela, que não havia notado o pequeno senão.
O ensaio terminou. O violinista desafinado saiu rápido. Não falou com a colega, que se entendia com Norma, a bela flautista, no momento beijando e totalmente encoxada com ele. Dentro do bar elegante, tomava o segundo conhaque e fumava igualmente o segundo cigarro. Afinal, o maestro apareceu, caminhando displicente na calçada, passando a mão nos cabelos. Sentiu a pequena pontada na barriga, a faca de mola, tão usada pelos ciganos, como era o músico que havia sido chamado a atenção em voz alta, todos escutando, não foi usada para causar ferimento grave ou morte. "Sua namorada está com o outro, desafinado idiota! Volta lá."




