quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Bandidos

Soldado/Google











Gabinete fechado. O mais graduado falava manso para o capitão Callado, o “Coisa Ruim”.
Invadir morros perigosos é tarefa para quem conhece; não se admite improvisação. Mas aquela força contava com conhecedores profundos do local. Moraram lá até serem alunos da forças especiais do Exército. Usando máscaras pretas, não seriam reconhecidos. Todos os participantes usariam. Nada de ser reconhecido.
“Coisa Ruim” prestava a atenção devida, sentado diante ao superior.
- Não me faça prisioneiros. Não somos policiais.
- Certo, meu comandante. Escolhi os melhores homens.
- E não me faça, capitão Callado, passar vergonha. Afinal foram quinze fuzis FAL furtados. Quero-os de volta e o serviço de informações já deu a localização exata. Como está seu GPS?
- Em perfeito estado, comandante. No último teste que fiz, errou a posição por menos de um metro.
- Excelente, Callado! Tenho certeza do êxito.
- Não haverá erro, senhor. Vagabundo não furta o Exército e fica sem a punição devida.
A conversa final estava terminada. Para quem não conhece, GPS é um pequeno aparelho eletrônico, que captando sinais de satélites, fornece a posição do lugar, seja na terra, mar ou ar com extrema precisão.
O capitão Callado, o “Coisa Ruim” partiu depois da meia noite com a missão de trazer de volta os fuzis furtados. Ele mesmo escolheu seus companheiros, dentre os conhecedores da favela, lugar de gente trabalhadora, mas que abriga muitos marginais.
- Não quero nem vou admitir erros. Bem entendido, sargento?
- Capitão, ser comandado pelo senhor é uma honra. Entrego minhas divisas se não encontrarmos os fuzis. Se a posição está certa, senhor!
- Certíssima. Quem passou merece toda nossa confiança.
- Vai haver resistência...
- E nós vamos acabar com a resistência.
Os cabos que conheciam o lugar conduziram pelos mais estranhos caminhos. A eterna contradição fazia notar-se. Habitações paupérrimas, ao lado de antenas parabólicas de TV, outras a cabo, produto do banditismo.
Perto do lugar indicado, veio o primeiro tiro, com bala tracejante. Como se não fosse o mais do que suficiente para a localização, o supressor de chamas do fuzil que fez o disparo não estava em boas condições. Indicou o lugar do tiro.
Callado sempre conheceu o seu ofício. Os fuzis que lançam granadas pulverizaram o lugar. Ouviu-se uma gritaria medonha, estilhaço de granada faz estrago para valer.
Chegaram ao lugar. Uns mortos, outros muito feridos.
- Onde estão os fuzis, filho da puta?
A dura voz de Callado era para um ferido que sangrava muito.
- Fala que eu te levo para ser tratado!
O marginal acreditou. Não eram policiais, eram do Exército. Mostrou o lugar, indicando uma mangueira velha. Cavaram e lá estavam os fuzis, munições e alguns uniformes da polícia militar. Sucesso absoluto!
Mas “Coisa Ruim” sentiu o impacto forte no peito. Um dos feridos usou uma pistola 380. O colete não permitiu ferimento, mas a coronha do fuzil do capitão quebrou todos os ossos do ombro de quem atirou. A dor do vagabundo não podia jamais suplantar prazer do oficial.
Sua arma de serviço era a Colt, calibre 45. Mas preferiu usar, atirando na nuca, a Walter P.38 que sempre carregava consigo.
O capitão Callado recebeu elogios. Nenhum ferido e as armas recuperadas.
Histórias perversas, mas que acontecem todos os dias.

3 comentários:

Caio Martins disse...

"Pegada de negão" nesse estilo, Jorge. Teria de escrever um roteiro ou romance, o tema é atual, as personagens são fortes, e o clima intenso. É o outro lado da história que pouca gente conhece. Coisa de Mestre.

Pedro Jorge disse...

Corajoso. Ninguém escreve sobre este tema. É a violência que se abate sobre todos nós.
Abraços.

Tania Montandon disse...

Delicioso! Lembra algo do gênio de GRosa, com a habilidade de contar histórias com clareza, simplicidade, quase nao deixando notar a enorma cultura por detrás e a importante mensagem muito bem atual e real na suavidade poética de suas palavras. Parabéns!
beijos