sábado, 18 de dezembro de 2010

Tancas

Calma













SUAVE
Brilhante este mar
Lindo e calmo de pasmar
E bom para amar.

Corações ficam sorrindo,
Tantas flores vão-se abrindo.


OS OLHOS DA AMADA
Os olhos da amada
são na cor esverdeada
tranquila enseada.

Água límpida e abrigada
transformo minha morada.


LÁGRIMAS NA ROSA
Gota de sereno
que brilhando esplendorosa
lágrima na rosa!

Pois todo o campo chora
é quando desperta a aurora...



Publicados na Revista eisFluências, Liboa, Portugal, em 15/12/2010

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sabedoria

Albert Einstein















            É comum entre todos nós a busca da cultura.
            Ela distingue os homens; muitos gostam disto.  Falam mais de uma língua, conhecem artes, são educados e polidos.
            Sabedoria não.  Ninguém se transforma em sábio através de livros, pinturas e semelhantes.  Geralmente vem com a idade e a reflexão criteriosa e de contundente lógica matemática, expressão usada para definir o rigor da tão comentada lógica.
            Escutei interessante relato verdadeiro.  Um velho desembargador, conhecido quando ainda estava na ativa pelas decisões acertadas, viúvo e já bastante idoso, foi morar com a filha.
            São contingências das quais não escapamos, se estamos com idade avançada.  O velho magistrado, absolutamente íntegro das faculdades mentais e com boa saúde, não era de dar trabalho.
            Tinha os seus hábitos, como todos nós.  Gostava e gosta ainda, não morreu, de acordar bem cedo, beber meio copo de água pura apanhada numa fonte, pegar o jornal já entregue e ficar lendo as notícias.
            Judiciosamente estava limpo, barba feita, e roupa caseira bem apresentável.  Até hoje assim é.  Mas morre de amores por uma velha camisa de malha de algodão, que não se encontra mais em boas condições.  A filha já havia tentado transformar a velha camisa em pano de limpar chão azulejado.
            Determinada manhã, sem estar como comumente andava pela casa, mas ainda de chinelos, bermuda velha, a camisa de malha com os furinhos e de barba ainda não feita, deu uma corrida na quitanda próxima e escolheu um bonito cacho de bananas-prata.  Havia um jovem comprando algo, que ao ver o velho juiz foi até ele e anunciou que a banana estava paga.  Ele agradeceu e zarpou para casa.
            Contou a história.  A horrorizada filha, mas dócil com o pai chamou a atenção.
            - Mas pai, você não devia ter aceitado, você tem dinheiro, não é mendigo.
            - Pois é, filha.  E tiraria dele o prazer de ter ajudado um velho.
            Sabedoria é assim.
           

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Minha resposta

Solidão














               Yuri, não seja injusto comigo, por favor.
            Você distorce os fatos; quem lê me diz culpada, embora não seja e isto ficou bem claro.  Estou de acordo que a esta altura não cabe este tipo de discussão que não leva a nada, também como você disse.  Mas pode levar sim.  Além de íntimos, fomos e somos amigos acima de qualquer coisa.
            Acredito que a insistência em falar em feridas que ainda cicatrizam, e se tocadas vão sangrar novamente, trazendo discórdia entre nós, absurdo que não tem cabimento.
            Eu fui repudiada sim, André é seu filho, você tem certeza.  Não precisava exame.  Minha lealdade com você, Yuri, sempre foi espécie de coisa sagrada.  Outra coisa que não entendi foi a nossa separação.  O motivo alegado é sem valor, e agora sou eu quem digo ‘e você sabe disso muito bem’.
            Londres é muito longe?  Que tem isso?  E eu não casei, o que fiz foi amparar minha dor ao lado de amigo que me compreende.  Ficar esperando que viesse para Cascais, na casa que é do meu avô, Deus o tenha, não estragaria a sua carreira.  Não me iluda.
            Estou longe sim.  Numa cidade civilizada, mas muito diferente da minha, onde estudei, fiz amizades, comecei meu trabalho e aproveitei a praia que só neste lugar tem.  Mas vou no fim do ano passar pelo menos vinte dias aí.
            André vai ficar contente em ver o pai, adora olhar seu retrato com ele no colo.  Tenho sim, medo, muito medo de olhar você e correr para os seus braços, sempre fui assim, mas não quero sofrer com outro ‘não’.
            Beijos, querido.  Du

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Carta de despedida

                                                                                                                                                                        
                                             
Du





















Querida, não sei o que se passou conosco, nem pretendo ficar fazendo análises do que está fora deste método. Também irrita querer iniciar literatura com uma carta de despedida. Não sei nem quero saber quem é culpado; culpados somos nós, que não prestamos a atenção necessária ao fato da primeira discórdia em relação ao nosso querido filho. Este é um assunto com o qual não se brinca, e deu um final melancólico.
Perco a mulher, bem o sei. Como repeti muitas vezes, e com toda a minha sinceridade, a mulher mais bonita que eu já vi nesta terra. Vou amargar muito ainda, mais do que estou agora. Não ver você, não sentir sua presença, ouvindo sua voz e o choro do André esta sendo muito duro, e vai piorar.
Mas chegou ao fim. Os arroubos da sua mocidade, Du, eram previsíveis. Mas por favor, não diga que foi recusada, repudiada. Não foi e você sabe bem disto. Eu não tinha alternativa. Você também conhecia este risco, mas assumiu o perigo.
Londres é longe, Du. E com seu casamento, foi posta uma pedra sepulcral no nosso já passado encontro de almas. Nossa casa sente a falta de você e dos primeiros passos do André. Nossa casa sim, as roseiras estão viçosas e ainda cuido delas com o mesmo carinho, como fazíamos juntos. A que você plantou está realmente deslumbrante. Mas não tem o dourado brilhante dos seus cabelos.
Mas finalizo, sofri para escrever e enviar este papel. Só peço que quando vier passar alguns dias aqui, não se esqueça que André tem pai. Não me venha com desculpa que pode haver recaída.


                                                                                                                                                                    

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Guerra civil dissimulada

Soldados

















            Certos fatos que acontecem não podem ficar desconhecidos. 
            Sempre postei neste espaço literatura, mas do jeito que vai a discórdia no Rio de Janeiro, em bem menor parte onde nasci e vivo até hoje, Niterói, senti-me na obrigação de falar o que penso e descrever fatos.  Afinal, sou colunista político, é minha obrigação.
            Nos últimos dias de novembro de 2010, os mais incrédulos devem admitir a realidade.
            Existe uma guerra civil sendo travada no Rio de Janeiro.  Em dezesseis horas, foram queimados doze carros e ônibus na cidade.  Cabines da Polícia Militar metralhadas por bandidos organizados, que não estão dando tréguas ao vandalismo e ao combate armado.
            “É o preço que se paga de ter afogado o tráfico”, diz uma autoridade.  Sem dúvida que é, mas não só isso.
            O combate ao crime organizado obteve muito êxito nos dois últimos anos.  É verdade que os policiais exageraram um pouco na dose indicada.  Mataram demais, a chefia ficou desorganizada, o tráfico acuado e o crime voltou a ser como nos anos 50: assalto a motoristas de táxi, totalmente indefesos.  Agora, a guerra aberta.  Vítimas poucas, mas talvez por sorte.
            Alguns asseguram que as ordens estão sendo dadas pelos chefões presos, no Paraná, inclusive.  É possível.  Mas se conhecem a origem, por qual motivo não silenciá-la?
            O governo federal diz que as tropas da Força de Segurança estarem prontas para ajudar.  O governador Sérgio Cabral recusa.  Não sem motivo.  A última vez que aqui atuaram, os policiais tinham mais medo de levar um tiro amigo, tão despreparadas são para o combate, do que levar um tiro de um marginal.
            Em boa hora o povo ordeiro disse não aos covardes e pusilâmines defensores do desarmamento.  O cidadão de bem, trabalhador e honesto, necessita de arma para defender sua residência.  Não o revólver ou pistola, difíceis de uso com precisão, mas carabinas trinta e oito e espingardas calibre doze, de repetição.  Este é um direito que não pode ser cerceado, dificultado.
            É necessária lei federal que facilite aos extremos a compra destas armas, que devem ser mantidas em casa, sem qualquer restrição a quem provar não ter antecedentes criminais e trabalho certo.
            Caso o governo não assegure tal fato plenamente, está jogando ao lado dos bandidos, o que não é nada impossível. 
            Marginal também vota!




Tem hora que o colunista político não pode calar.
Links: http://www.votebrasil.com/coluna/jorge-sader/a-guerra-civil-disfarcada
           http://port.pravda.ru/news/cplp/26-11-2010/30830-guerra_civil-0/


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Miséria humana
















Girassóis/Van Gogh


            As cartas de Van Gogh ao seu irmão Theo e o depoimento deste, não deixam dúvida.  Pouco antes de morrer, Vincent disse que la misère ne finira jamais.           

            Mais uma conclusão do pintor que revolucionou a arte.


            Vincent não afirmou que a miséria monetária do homem não teria fim.  Seu alcance foi bem mais longo.  Ele sabia que a miséria humana não tem fim, sentiu esta verdade dentro de sua alma.
 
            O homem sofre, é uma condição da vida.


            Sentiu ao longo da sua existência que o fato é verdadeiro, embora tenha sido um doente.  Da sua doença surgiram os mais belos quadros e sobretudo expressivos que conhecemos.  Além de mestre nas tintas, compreendia bem a vida. Não fosse assim, não conseguiria transmitir a emoção que quis e conseguiu passar para a Humanidade.
            São pinturas expressivas aos extremos, ora tristes e igualmente de uma beleza incomum.  O par de botas, o quarto do pintor, ele mesmo com a orelha decepada por um corte de navalha, fruto de uma briga com o seu contemporâneo Gaugin, tudo isto importa numa visão de vida exterior e interior muito grande.
            O homem nasce sozinho, vive sozinho e morre sozinho, a despeito do que queremos crer.  Por mais amor que o cerque, sua existência é solitária.
            Foi isto que o mestre concluiu e viveu.
            Seus campos, seus trigais. As cenas humanas retratadas mostram um homem que conhece suas limitações e misérias.
            Mostram igualmente a grandiosidade de um homem que mesmo sabendo nada, soube transmitir o tudo...
            É verdade que a Vida está cheia de lados negros.  Mas o melhor é vivermos com todas as felicidades que ela nos oferece.
            A começar pelo amor.  Tem tanta coisa...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Encantada


 Mulher
                                                                                                             
Disse Guimarães Rosa que quando uma pessoa morre ela se encanta. Uma forma poética de ver a Vida e a Morte, o bem e o mal, preocupações do nosso fecundo e admirável escritor.
Mas esta não é uma história de morte; ao contrário. Trata-se de uma louvação à Vida, um agradecimento aos céus.
Diz o povo que nada acontece ao acaso. Dizem os ilustrados a mesma coisa.
O fato é que estes novos Romeu e Julieta se encontram por acaso. Este acaso, segundo o que já foi dito antes, parece estar escrito em todos os cantos. Na areia, onde o mar pode apagar, mas ele se projeta no céu, entre as estrelas, e de lá não pode sumir mais. É parte do firmamento, do universo grandioso e belo...
Quando aconteceu, foi um amor intenso, almas confundiram-se, sentimentos ficaram entrelaçados. Paixão verdadeira, paixão encantada.
Romeu, digamos que este seja o nome mesmo, duvidou da sua Julieta. Belíssima, angelical figura que carregava e ainda leva uma bagagem espiritual grande, rica, sadia, forte.
“É demais para mim”, pensou. E assim passaram-se anos. Poucas vezes se encontraram. Sempre que isto acontecia, ele era chamado medroso, por não assumir a situação confusa. Ele tinha medo sim. Muito medo.
Certas situações colocam o mais valente com o rabo entre as pernas, lembrando Machado.
Era exatamente assim que ele se encontrava. Parecia ter sido tomado por uma síndrome malsã toda vez que via a bela princesa. As palavras não fluíam, o sentimento estava sendo massacrado pela razão.
Longo tempo passou. Escondida no seu ser, ela estava viva, muito fortemente viva. Mas ele mantinha a sua posição. Primeiro a voz do pensamento, depois a do amor.
Um erro lastimável, um erro de muitos, um erro de quem tem medo de amar!
Súbito, leva um susto. A sua Bela faz uma declaração direta. O coração de Romeu é tomado pela alegria. Ele sabe que é amado! Fica confuso, mas as palavras são reais. Ela confessa seu amor, e diz esperar ouvir que a distância maltrata, que aguarda ainda, ansiosa, ouvir um “eu te amo”.
Quando ouve, cai o pano. Não há mortes. Apenas – apenas?, um esperar sufocante.
Encantada! A espera do final, só os deuses sabem...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O concerto de Aranjuez

A fantasiosa alma do povo, que caracteriza os mais diversos grandes grupos existentes na Terra, além de interessante é contraditória: existem várias interpretações para um fato determinado.
Todas as artes são fruto da mais dignificante expressão humana, mas a música parece levar uma vantagem sobre todas as outras. Pelo menos para mim, parece.
Contam que Joaquim Rodrigo, o violonista flamengo admirado por todos, perdeu um filho moço, de muito pouca idade. Sua mulher ficou desesperada, não comia, não dormia direito, só fazia chorar. Na verdade, mãe nenhuma deveria perder um filho, especialmente quando ele é um menino que começa a dar os primeiros passos em direção ao seu estágio mais compreensivo da Vida. Ninguém duvida disso.
Joaquim, como pai e bom marido, preocupava-se com a esposa e sentia a dor da perda. Sofria duas vezes.
Procurou por várias formas consolar a mulher, e com este ato estava procurando alívio para si também. Quem disse que só as mães sofrem a perda de um filho? Não conseguia nem confortar a mãe desesperada, nem mitigar seu sofrimento.
Perdido, totalmente sem rumo e incapaz de enfrentar uma situação tão adversa, Rodrigo passou a meditar como seria possível sair desta situação triste, doída, sofrida, malvada e perversa. Sua mulher era a principal preocupação, poderia passar à insanidade a qualquer momento.
Os músicos são privilegiados. Costumam chorar suas dores e lamentos usando suas armas. Os instrumentos falam!
O pai desencantado já não tocava mais seu violão. Estavam mudos, naquela casa, Rodrigo, sua mulher e o violão guardado na sua caixa de madeira. Não era mexido. As idéias do seu dono, massacrado pela perda irreparável, não traziam nenhum incentivo a tocar, ou compor.
Desilusão...
Mostrava-se claramente, na casa do músico famoso, cuja mulher definhava a cada dia. O único filho, morto! De que adiantava ser o maior violonista de Espanha?
Os amigos procuravam confortar. Os amigos, que são o sal da Terra. Mas nada, nem mesmo os mais queridos conseguiam diminuir a tristeza da Rodrigo e da sua mulher.
Joaquim não era covarde. Procurava a cada momento dar algum destino ao sofrimento que passavam, mas na sua altivez, preocupa-se antes de tudo com a sua sofrida companheira.
Pensava, rezava como todo bom músico. Não chegava a nenhuma conclusão, o que fazia aumentar seu sofrimento.
Mas, dizem os entendidos, a dor não é permanente.
Faz parte da Vida. Não, o homem não nasceu para sofrer, embora muitos filósofos negativistas entendam desta maneira, que não conduz a lugar nenhum. Ajudam a piorar o estado dos que já padecem...
Rodrigo chegou à conclusão de que precisava se aproximar de Deus, de pedir que o sofrimento da mulher fosse consolado, que ele pudesse retornar ao seu violão, tocando, compondo, encantando. Pedia isso todos os dias às paredes, ao Sol, às estrelas, às flores do campo.
Determinada manhã, quando o dia estava iluminado, as árvores com suas folhas verdes, o céu transparente e mostrando o esplendor do que não acaba, o que não tem fim, Rodrigo tirou o violão da caixa de madeira limpa e bem cuidada.
Segurou o instrumento como se fora o uma parte sua, seu filho, talvez.
Estava um pouco desafinado, mas os dedos nas cordas, e os da mão esquerda nas cravelhas logo colocaram o violão com seu som distinto de todos os outros, o violão flamengo.
“Eu preciso rezar, eu preciso falar com Deus”, pensou o músico. Fez alguns acordes, notou que o som saía limpo, claro e afinado.
Ninguém jamais saberá explicar a causa. Rodrigo talvez rezasse mal, mas quando tocava, era uma bela prece que estava fazendo.
Tangia as cordas com facilidade, a música tomou conta de toda a casa. Para seu espanto, sua mulher chorava de maneira diferente. Não era mais o choro sofrido, doído, amargurado. Mostrava felicidade, e sorria para o marido que continuava seu improviso, o improviso que rogava a Deus que o escutasse, que fizesse parar a tortura a que estavam submetidos.
A cada toque na corda, o ambiente alegrava-se. Tudo estava mudando como num grande passe de mágica, não havia mais tristeza, as dores foram-se embora, a mulher sorria, e o violonista continuava tocando o que hoje conhecemos como o Concerto de Aranjuez.
Esta é a mais bela lenda que envolve a peça flamenga, que fez os corações pararem de chorar de dor, tristeza e melancolia.


domingo, 31 de outubro de 2010

Vinícius, Toquinho e Rubem Braga

Vinícius











Contam, mas pode ser apenas para ser mais um caso, que Vinícius e Toquinho, quando das suas andanças pela Itália, foram acabar visitando Rubem Braga, no seu apartamento em Roma.

É bom imaginar. Conversa solta horas a fio, lembranças da Guerra que Rubem cobriu e recebia poemas de Vinícius, uísque farto, tira-gostos diversos, violão, mais uma dose, um caso, uma gargalhada.

Naturalmente que dá vontade de ter participado! Reunião para ninguém botar defeito.
A certo momento, com sono, Rubem disse que havia mais uísque num móvel da cozinha e reforçou os amendoins, biscoitos salgados e outros ingredientes e foi dormir. Vinícius e Toquinho ficaram até não aguentarem mais.

No dia seguinte, depois de secarem todas as garrafas de água mineral, Vinícius fala para Rubem: “rapaz, que uísque vagabundo você tem naquele armário. Ainda bem que a garrafa que estava fechada era ‘scoth’ de primeira."

Rubem foi conferir. Haviam tomado vinagre, antes de encontrar a garrafa fechada de uísque.
Do jeito que era a dupla, não me impressiono nada se a história for verdadeira.

Mas esta é. Vejam a perfeição.

Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.





Vídeo presenteado pelo amigo Caio Martins.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Milagre

Café













Ruim como a peste. Ele mesmo não sabia a causa, fora educado com carinho.
Pensava na desgraça que o acompanhava, desde muito moço, embora velho não fosse, enquanto tomava uma média num balcão de um bar mal frequentado.
Não conhecia o que era uma boa amizade, o amor de uma mulher. É evidente que estes fatos incomodam. Ele tinha noção da sua maldade com os outros e consigo mesmo. Doido? Talvez fosse.
Acabada a média com pão e muita manteiga, refeição primeira, ia para o trabalho, uma famosa fábrica de tintas. Não fizera uma amizade sequer, em quatro anos de serviço. Conhecia, cumprimentava e basta.
Ainda no balcão terminando o café da manhã, sentiu-se pela não se sabe qual vez, sozinho e afastado do mundo. Nem sempre fora assim. Talvez o serviço militar, em força especial, houvesse transformado aquele homem que um dia foi obrigado a matar um cidadão. Estava de guarda, e um homem negou-se a parar e passar pelo meio da rua, em frente ao quartel onde ele servia. Era um inocente; verificou-se depois que bebia horrores, e estava muito alcoolizado quando do tiro.
Não se tornou um marginal ninguém sabe a causa, nem ele mesmo.
Pagou a conta e foi para a parada do ônibus que o levaria ao trabalho. Deu poucos passos na calçada e ouviu uma gritaria de gente que olhava para cima.
Instintivamente, fez a mesma coisa. Uma pessoa estava caindo de um prédio, e seria em cima dele, estava próxima.
Sua primeira reação foi esquivar-se. Nem ele mesmo sabe o motivo. Era uma criança, que havia caído por uma destas fatalidades que ninguém explica. Como se fosse um goleiro de futebol retesou os músculos, postou-se firme e aparou a menina que logo abriu um descomunal berreiro.
Correram todos. A menina só chorava, e levada para um hospital, constatou-se não haver fratura ou rompimento de órgão interno.
Um herói!
Hoje ele é um dos mais solicitados diretores da creche do seu trabalho, que o desviou para lá de imediato. A pirralhada adora o ‘tio’. Ele, retribui com carinho.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Valentia

Banho













O lugar era uma mata rasteira, árvores poucas, meio torcidas: vegetação de cerrado. O riacho fazia a música do lugar, água fria, cristalina que corria em destino a outro bem maior.
- A água tá fria?
- Tá uma gostosura. Lavou até por dentro.
- Por dentro não lavou foi nada. Nem bebeu um gole, e ‘inda que tomasse não lavava, bicho ruim.
Bastião Neném não ouviu bem o comentário da amiga. Estava enxugando o couro grosso e pelejando com uma garrafa de cachaça. Couro grosso sim, aquilo não poderia ser chamado de pele.
Rita já havia tirado toda a roupa, e seu corpo brejeiro foi alvo de elogio do velho companheiro. Fazia seis anos estavam juntos.
- Só meu. Isso tudo é só meu.
- Dá um beijo.
- Mulher gosta dum beijo. Não reclama do cheiro. Dei uma talagada grande.
- Depois tomo meu jenipapo também. E fazemos alguma coisa...
- Agora não, a barriga tá roncando.
Iam batizar o menino Januário, sobrinho deles, filho de uma irmã de Rita. Mais dois dias de tropel, estariam dormindo em redes velhas, mas coisa de primeira: nem um pouco esgarçadas, limpas e perfumadas de ervas.
Bastião Neném ouviu barulho na mata. Não era coiteiro nem metido em bandos. O que passou, passou. Correu para um emaranhado de mato, escondeu-se e no maior silêncio engatilhou sua velha, mas bem cuidada parabellum, antiga ferramenta de trabalho.
Experimentado, sabia que Rita estava sendo vista, tomando banho nua e desejada por quem estava vendo. Dois homens, camisas do exército, lugar onde eles nunca deveriam ter andado. Imprudentes, viram dois cavalos e partiam para o ataque.
- Boas tardes, moça. Não vai sair desta água não?
A última coisa que ela poderia fazer, fez. Distanciou-se do lugar, saiu de perto da margem.
Quem é burro deve pedir a Deus que o mate e ao diabo que o carregue, falam.
Um deles caiu n’água, a procura do prazer forçado. De cuecas, só. Quando estava próximo levou uma pedrada na testa. A astuciosa Rita pegou no fundo do rio. Pedra grande, atirada com precisão. Pegou na testa, tingiu o rio de sangue, o corpo foi água abaixo.
O outro, que tudo assistia, levou um tiro na nuca, e foi fazer companhia ao amigo desavisado.
Histórias do lugar, coisas do sertão.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pianista

Pianista


















Parece incrível, mas a verdade é que surgiu no mundo novo virtuose no piano que surpreende a todos.
Segundo a tradição dos mestres, o maior pianista do mundo foi Lizt, que além de entusiasmar platéias, encantou como um grande compositor.
Nobuyki Tsujii, jovem pianista, cego de nascimento, ganhou um piano de brinquedo aos dois anos, não parou de tocar até que ainda menino mostrou o que podia fazer. Com doze anos de idade deu um concerto no Carnegie Hall, o templo sagrado da música.
Agora, de acordo com a mesma tradição entre conhecedores profundos da música erudita, Nobuyki teria superado Lizt, interpretando uma das suas composições mais difíceis, “La Campanella”.


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Como se forma um advogado

Direito


















Estudava Direito e tive professores bons, regulares e ruins, como em qualquer escola. Pretendia ser criminalista, e realmente fiz diversos júris. O Tribunal do Júri realiza qualquer advogado honesto. O profissional é um misto de ator e advogado.
Mas não é o fato que desejo narrar, aconteceu comigo e é verdadeiro.
Tinha uma insuportável e bastante limitada professora de Direito Civil. Só estudava com afinco Direito Penal. Fiquei em segunda época no direito que mexe com o bolso dos outros, na maioria das vezes.
Costumava tirar férias no trabalho em fevereiro, e a prova estava marcada para o dia 17 daquele mês. A Vila Real da Praia Grande, como gosto de chamar Niterói, tem lindas praias oceânicas, acessíveis em vinte minutos de automóvel. Ficam literalmente lotadas hoje, mas naquela época a frequência era bem menor.
Itacoatiara é um pequeno paraíso. Praia pequena, de apenas seiscentos metros, areia branca de doer os olhos com o reflexo solar e toda cercada de montanhas.
Os pinheiros que estão plantados junto ao início da restinga muito bem conservada, como em todas as praias estão vergados em direção à terra, como é costumeiro; a ação constante dos ventos marítimos leva a esta inevitável posição.
Era a minha segunda casa. Chegava às dez da manhã e voltava, quando voltava, por que um amigo nosso tinha casa lá, ao entardecer. O quiosque que vendia sanduíches, ovos cozidos, cerveja e pratos simples, servia de nosso requintado restaurante.
Estava moreno que só os dentes apareciam, durante a noite. A maldita prova aproximando-se e eu sem abrir o livro. Até hoje não suporto Direito Civil, mas felizmente a carreira de advogado está encerrada.
Chegou o dia da prova. Olhei-me no espelho, depois do banho. Com muitas picadas de mosquito, que infestavam Itacoatiara durante a noite, pele enegrecida, não enganava ninguém: malandro de praia, o que eu era realmente durante um mês.
Na hora certa, estava fazendo a prova escrita, uma lástima. Logo em seguida seria a vez da prova oral. E assim foi.
A professora não tirava os olhos de mim. Sem dúvida, iria prosseguir meu curso, mas faltando quitar o Direito Civil, que eu contava com outro professor, este um jurista, para ser aprovado. A catedrática estava admirada com um aluno de segunda época todo picado de mosquitos e bem tostadinho. Vagabundo, na certa.
Vi com um colega de turma um jornal que estampava uma manchete “Guerrilha no...” e mais não se via. O jornal, naturalmente, estava dobrado. Pedi ao colega que me dissesse do que se tratava, e ele mostrou a notícia. Era “Guerrilha no Caparaó é sufocada.”
Foi o que bastou. Quando fui chamado, sabedor do extremo reacionarismo da examinadora e admiração pelas forças armadas subi o pequeno degrau do tablado e como se militar fosse, cumprimentei ereto, quase em continência, a mulherzinha intragável. Não tive a menor dificuldade em pedir desculpas pelo meu desempenho na prova escrita, falando com todo o respeito. Por causa do calor, cortava o cabelo como os militares; não esquenta a cabeça. Continuei a minha fala, afirmando que era segundo-tenente do Exército, por ter feito o CPOR, e como era bom aluno e excelente com uma arma na mão, fui convocado a participar do combate, falando em voz baixa e afirmando que só estava confidenciando o fato por conhecer a posição política e a honestidade da mestra. O vilão transformou-se em mocinho como num passe de mágica. Seus olhos mudaram de expressão. Ela estava diante de um herói, queimado de Sol, magro, com pontos vermelhos na pele. Um valente soldado que estava a serviço da Pátria.
Disse que por este motivo, não havia estudado o suficiente, apenas alguns pontos. Imediatamente, ela me perguntou quais pontos. “Prescrição, decadência e perempção”, falei de imediato. São causas que impedem ou paralisam o processo, e muito usadas em Direito Penal. Pediu que falasse sobre o assunto. Fiz o discurso completo. Uma vez terminado, ela me cumprimentou solenemente, garantindo-me um dez que fez o mentiroso passar de ano.
Comentei o fato com um amigo juiz de Direito, velho conhecido e bem jovem.
Ele simplesmente disse “vais ser um excelente advogado, meu caro.”
Mas não. Cedo desisti da tribuna do Júri. Não fui um advogado brilhante, não gosto muito da profissão. Mas obtive uma vitória num Tribunal Militar, duro, duríssimo, que jamais será esquecida. Além de elogiado pelos colegas, foi notícia em todos os jornais do Rio de Janeiro e Niterói. Tinha, na época, vinte e quatro anos de idade.
Mas isto apenas foi uma fase...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Beleza e Amor

Rosa amarela














Mês de agosto, terminando. O último para poda de árvores e plantas, que obedecem à regra do corte: só em mês sem ‘r’.
O homem, já de idade, mas sem ser velho, cortava com alicate amolado, próprio para jardinagem, roseiras que estavam num canteiro de muitas folhas.
Os que entendem, dizem ser um erro. A soberana roseira é exibida; não gosta de matos e folhagens ao seu lado. Eram quatro. Foram cortadas com cuidado, mas já eram visíveis os sinais de decadência. Ficaram apenas com dez centímetros, aproximadamente.
O terreno foi afofado e adubado. Mas uma exuberante folhagem, que não era nunca mexida, permaneceu.
Um galho da poda foi plantado numa área mais limpa. Na semana seguinte, o marrou escuro que coloria sua extremidade passou a verde claro. Estava dado o sinal de que a mão que o plantou tinha intimidade com a Vida.
Em pouco tempo, como ainda é agora, transformou-se num sadio vegetal, caule sem compromisso e folhas que prometiam. Entrou a Primavera, e com apenas um ano a hoje solitária roseira abriu um botão que ainda não deve ser colhido. Amarelo.
Beleza e Amor. É onde mora Deus, na natureza e nos homens.
Não consigo entender de forma diferente.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pensando

Pão de centeio















Estava sentado na mesa da sala, lendo uma revista sobre cozinha. Mais especialmente, pães.
Tão simples, um pão. Mas assim mesmo tem seus segredos. Hoje, com as atuais máquinas, ficou mais fácil. Até o formato elas dão.
Mas quando você separa trigo e fermento, com um pouco de centeio para ficar mais nutritivo e saboroso, muda tudo. Unhas cortadas e escovadas; padeiro tem que ter mãos de cirurgião.
Pedra lisa, bem limpa. E começa o ritual. As farinhas de trigo e centeio são misturadas, faz-se um monte e com um buraco no meio, onde entra o fermento. Atenção com o sal que foi misturado nas farinhas. Pão sem sal não tem gosto, embora sal não seja tempero. Vai-se adicionando água.
E a paçoca está pronta, nada de ovos ou óleo. O copo de vinho leva mais um reforço. Começa a fase mais gostosa, amassar bem com os dedos, ficam imundos, mas de sujeira que não causa repugnância. Sabe, às vezes este amassar é até mesmo erótico.
E tome pancada com o bolo, cada vez mais plástico, vai tomando forma, os dedos ficam limpos na massa, que absorve tudo, e a gente continua sovando, apertando, até os dedos ficarem todos limpos, é um truque.
Mais tinto seco no copo, afinal ninguém é de ferro. Deixe a massa num tabuleiro, coberta com um pano limpo. Escolha um lugar sem corrente de ar, esta massa é cheia de dengos e frescura. Forno pré-aquecido, nem quero saber se tem hífen ou não. Quando estiver quente como uma mulher fogosa, coloque a massa que está o dobro do tamanho original. Risque com uma faca fina, ou gilete, atualmente em desuso.
Depois de quinze minutos, dê uma borrifa d’água com estes plásticos que servem para molhar plantas.
Ficou corado?
Vai para a mesa, com azeite extravirgem, tomates secos, queijo do seu gosto, e vinho. Muito vinho! Um filé de atum completa bem. Depois, maçã e pêra.
É uma delícia, ninguém duvida.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Os olhos da amada (tanca 127)

Rosa














Os olhos da amada
são na cor esverdeada
tranquila enseada.

Água límpida e abrigada
transformo minha morada.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Vela

Virada













Não morri nem quero virar náufrago.
Quem tem mais dos sessenta só pode mesmo é ir até Fernando de Noronha.
Foi o que fez o Lorentz, comandante do Saga, o melhor e mais famoso veleiro de corridas brasileiro. Fez sessenta, vendeu o Saga. E ganhou a Admiral Cup, na Inglaterra, que equivale à copa do mundo da vela.
Guguta é marinheiro excelente, era tripulante do Wa-Wa-Too, na época o segundo mais veloz do Brasil. Já velejamos muito, e a única virada que tomei foi no sharpie dos escoteiros. Perto do Morcego, bateu um vento doido e chuva de granizo.
Tempo bom! Imagina que depois da virada, todo mundo empurrou o barco até uma nesga de areia. Não me lembro se Jacaré estava nessa. Tiramos a água e viemos para o Iate Clube.
Quem eu tenho certeza de estar era o Miguel Ângelo, aquele que tinha uns vinte nomes, morava no edifício de Guy, Lia e Yara.
Obrigado! Fez com que eu tivesse catorze anos novamente, lembrando destes fatos distantes, que o tempo não me permite mais fazer. Empurrar um barco naufragado, na marra, parece causo, mas se você encontrar Guguta, pergunte a ele. Aproveita e manda um abraço para o malandro.
Tanta coisa...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Bimbo

Abandono

















Dizem que nem o cachorro do mendigo não o abandona jamais. Que esta é uma característica canina, nunca duvidei.
Existe cão famoso, Azor, imortalizado por Dostoievsky em Humilhados e Ofendidos.
Azor jamais abandonou seu dono. Compartilhava com ele as agruras do mundo.
Mas Bimbo, um vira-lata comum abandonou o velho mendigo por fome.
É natural que isto aconteça. A fome é uma desgraça que não atinge, naturalmente, só os seres humanos, todos sabem disso.
E Anastácio, seu dono, ficou sem a única companhia que possuía. Sentiu muito a perda. Afinal, era o seu único amigo.
Bimbo saiu mundo afora, revirou lixo, achou comida de primeira que não se sabe a razão, jogam fora. Encontrou cadelas que o aceitaram.
O mundo é estranho. Bimbo estava gostando da nova vida, comida vez por outra, cadelas igualmente. Mas mesmo os animais de estimação sentem saudade, quem não sabe disso?
Sentiu saudades da mão que o afagava, no frio da noite. Quando a cama era papelão grosso, e a coberta de trapos recolhidos nas ruas.
Os cães têm memória privilegiada. Encontrou o antigo dono. Mas tinha gente, muita gente olhando ao redor. Seu dono havia morrido, ninguém sabe se de fome ou de frio, ou dos dois juntos.
Dizem, eu não sei se isto é verdade, que Bimbo morreu três dias após.

sábado, 4 de setembro de 2010

Erro quase fatal

Ela

















O médico, velho amigo, examinava cuidadosamente os resultados dos testes e radiografia. Sua aparência era cada vez mais sisuda e preocupada.
- Alguma coisa errada?
- Não é possível. Você não apresenta sintoma nenhum disso.
- Disso o quê?
- Calma. Deixa eu olhar outra vez.
- Coisa séria?
- Pelo que vi, sim.
E mergulhou nos exames do amigo. Conferiu, reconferiu. Um tumor grande no pulmão esquerdo. Sinais de metástase.
Eram amigos há longos anos.
- Ou seus exames estão errados, ou a coisa vai de mal a pior. Vamos repetir esta porcariada. Você não tem sintomas disso.
- Câncer?
- Tomado. Tem tumores demais. Deixa que eu ligo para o laboratório.
Deu um abraço no amigo, levou até a porta e tentou acalmar: “ou erraram feio, ou trocaram o exame.”
O condenado entrou num bar próximo, tomou dois uísques grandes e fumou, o que não fazia tinha tempo.
Era sozinho. Morava num excelente apartamento de dois quartos, um luxo para os que não têm família. Vera não aguentara as estranhas atitudes do seu companheiro. Aparentemente, ele não ligou. Gostava dela, mas sua paixão mesmo era pelo corpo perfeito e a entrega total.
Estava com fome e sem a mínima vontade de pedir a excelente comida do restaurante ao lado, pratos sempre apetitosos. Abriu a geladeira, com o copo de uísque na mão. Sem gelo. Gostava da bebida e tinha sempre duas garrafas no seu móvel da sala. Esta comida não agrada ninguém. Arroz gelado e carne assada idem. Foi o que comeu.
Era major do exército, foi para a reserva quando perdeu dois dedos pequenos do pé esquerdo ao tentar chutar para longe uma granada de efeito moral.
Procurou sua Colt, no lugar onde sempre guardava. No extremo da cama, quase embaixo. Era fácil de ser encontrada. Pegou e olhou.
O brilho azulado profundo confundia com o negro. Retirou o carregador. Não gostava de usar cartucho na câmara, a bala na agulha. Pesada, a quarenta e cinco.
Imaginou-se tomando morfina sintética para passar as dores. Colocou mais uísque no copo. Bebia bem, mas não abusava.
Dormiu sem saber como, e foi acordado pelo telefone do amigo médico.
- Callado, os exames não são seus. Acabo de receber a informação do patologista.
- Não são meus? Não tenho nada?
- Nadinha!
Pegou a Colt e outro carregador. Nas forças especiais, o capitão Callado tinha o apelido de “Coisa Ruim”. Na noite anterior, quase tinha usado sua arma. Contra si mesmo. Foi direto para o laboratório. Não iria usar a quarenta e cinco, mas um golpe que poucos, muito poucos legistas sabem diagnosticar a causa mortis. Levou um susto.
Verinha, com seu escultural corpo, era a assistente do médico. Foi uma noite de amor desesperado.

sábado, 28 de agosto de 2010

Linda mulher

Abraço












O senhor que falava no telefone com um cliente, tinha por volta dos seus cinquenta e poucos anos.
Médico competente reunia grande clientela. Sua capacidade e dedicação já haviam curado muitos pacientes portadores de deficiências hormonais, uma especialidade médica difícil.
Sua agenda, sempre cheia, permitiu-lhe amealhar bom dinheiro, que soube investir bem.
Família não grande: mulher e duas lindas filhas.
O convívio era harmonioso, e alguns hábitos eram sempre seguidos. O café da manhã, sempre os quatro reunidos. Frutas, queijos, torradas e um café delicioso. A conversa, como a que iria acontecer durante a noite, era sempre muito agradável. Uma família perfeita, diziam.
A mulher, exímia encadernadora, principalmente em couro, tinha trabalhos e mais trabalhos por fazer. Amava aquilo, que aprendera por muito gosto quando jovem.
As moças não eram diferentes; a mais velha seguia o curso de medicina, onde se mostrava brilhante. Sua irmã, lindíssima, fazia curso para ser modelo. Tinha apenas dezessete anos, corpo esguio, rosto muito firme e bem postado, era uma linda mulher.
Os homens, ainda não se sabe e acredito que não vão saber nunca, por uma questão de equivocada virilidade e masculinidade, volta e meia gostam de provar a si mesmos que ainda têm o vigor da juventude.
Assim é que o doutor Ferraro, nas tarde de quinta-feira, ligava para um determinado número telefônico e tinha ao seu dispor sexual belas e jovens moças que cobravam caro e exigiam o uso de preservativo. Tinha este hábito por pouco tempo, seis meses.
Os encontros eram feitos nos mais diversos locais. Era por escolha de quem contratava, a preço alto, as mulheres sempre lindas.
Foi ao encontro de uma, num edifício elegante.
Quando a porta se abriu, num vestido longo, tom pastel, sapatos elegantes como todo o resto da mulher, um espanto para os dois. Dourada, e lindíssima, sua filha Rita agarrou-se com ele.
Foi o choro mais sofrido que ambos tiveram.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Os olhos da amada

Les demoiselles d'Avignon/Picasso
















Admiráveis criaturas, as mulheres. Eu as adoro! Afinal, sou filho de uma, e casado com outra.
Qualidades da mulher? Quem não as conhece? A mim me parece ser a mais intensa, a dádiva absoluta. Se não me engano, o fato de ser mãe, mesmo para quem filhos não teve, é mãe do mundo, principalmente dos necessitados, a mulher alegra a terra.
Traz a palavra exata no momento necessário. Não peça seu acalento; não é necessário.
Quem de nós não conhece mulheres admiráveis? Algumas são putas, putas que amam e querem amor. Por necessidade ou não, ela não perdeu as qualidades de mulher. Foram mal encaminhadas, mas quem pode colocar o dedo em riste? A vida tem e sempre teve suas vicissitudes e defeitos.
Conquistar o amor de uma é fácil. Basta que você transmita no olhar o seu sentimento. O crédito é imediato.
Digo que
Os olhos da minha amada
Têm um brilho tão encantado,
Que tal como bela fada
Tornam-me maravilhado!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Dias frios

Fondue













Não parece que estamos no Rio de Janeiro! O verão deste ano foi considerado um dos mais rigorosos em cinquenta anos.
Agora temos temperaturas de dezoito ou menos graus Centígrados, o carioca não está acostumado, e vamos de moletons, casacos, vestidos de lã grossa, meias, mulheres elegantes sem a maquilagem escorrendo pelo rosto.
Café com torradas e geléia, queijo mozarela, presunto. No verão este cardápio é perigoso!
Um tinto ‘honesto’ pouco antes e durante o almoço.
No sul do país, calefação funcionando. Nas serras, igualmente. O fogo nas lareiras é lindo, convida a pensar e outras coisas mais...
Fondue de queijo, sopas, chocolate durante a noite. Feijoadas no almoço, descanso depois, cheiro de banho tomado, sabonetes que deixam rastro.
Conversa animada, boas leituras, o conforto dos sofás.
Vamos aproveitar. Os brasileiros conhecemos muitas belezas e comodidades do país.
É aproveitar, antes que dezembro chegue!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A caneta de Vargas

A arma












A última reunião no Palácio do Catete não é bem descrita por motivos políticos entre os jornalistas. Esqueceram do profissionalismo e noticiaram segundo suas convicções político-partidárias.
A morte do major da Aeronáutica, Rubens Florentino Vaz, que fazia a segurança do jornalista e político Carlos Lacerda, autor de pronunciamentos terríveis no seu jornal "Tribuna da Imprensa", maior inimigo do então presidente Getúlio Dorneles Vargas, colocou o oficialato jovem das três forças armadas contra o assassinato do colega. Decidiram não mais obedecer ordens dos oficiais-generais que fossem para defender o status quo.
Ora, o major manda na tropa. Major significa maior. Os generais traçam seus planos, mas quem os faz a tropa cumprir são os majores.
No Galeão, sob o comando do coronel João Adyl Oliveira, estava instaurado um inquérito rigoroso que prendia ou convocava quem bem quisesse, a despeito do Ministro da Aeronáutica, Nero Moura.
Vendo desesperadora a situação. Getúlio convoca os seus ministros. A idéia era pedir um afastamento do cargo, até que o impasse se definisse.
Não funcionou, os ministros não chegaram a acordo algum, naquela fria madrugada de 24 de agosto de 1954. Terminada a reunião, ele teria chamado o seu Ministro da Justiça, Tancredo Neves e conversado bom tempo. Entregou a sua caneta, uma Parker 21 de ouro dizendo “ao amigo certo das horas incertas.”
Fato complicado. Ou já teria escrito a “carta testamento”, ou usou outra caneta.
O Museu da República é farto. Mas tem presidente que na legará nada, vergonha para um país.
A imagem que ilustra a crônica não tem por objetivo chocar. De modo algum. Serve como advertência.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Doçura mandou lembranças

Doce de abóbora













São seis bilhões de almas em cima do planeta. Só na China, um bilhão e trezentos milhões.
É muita gente vivendo neste cisco do Universo. Cada qual com sua mania, ou modo de ser. Muitas guerras, muitas lutas, fome, ódio. Tudo isso enquanto damos um passeio sideral pelo Cosmo.
Tem cabimento? Claro que não. Tudo neste mundo tem vida, e num dia ainda muito distante, o Sol vai findar, morrer. Acabam os países e quem quer que seja, basta estar ainda vivo, suportando um frio que não podemos imaginar. Dona Graça, ou Gracinha, como era chamada por todos, o que tinha de estranha, possuía de bondade.
Sabendo que não poderia resolver a alimentação dos que na pequena cidade onde habitavam, fazia doces diversos, para aquietar a fome e dar prazer aos que na sua cidade morava. Não era rica.
Tinha no quintal uma plantação de abóboras. A pensão que recebia do marido era curta, mas afinal o quilo de açúcar não é caro.
Começou sozinha. Conhecia uma receita de doce de abóbora de colocar o mais exigente gosto embevecido.
Acordava muito cedo, o Sol ainda estava descansando. O fogão e forno a lenha estavam disponíveis. Descascava a grande e vermelha nascida no seu quintal, fazia procedimentos que eram transmitidos de mãe para filha há longo tempo, e em breve tempo o doce descansava na pedra fria. Durinho e crocante por fora, um creme por dentro. O destino, ela mesma levava, era a escola municipal e a prisão. O falecido marido tinha sido um recluso, mas passemos por cima deste episódio.
A criançada adorava o doce, e os presos, com café mambembe e pão fresco, a única alimentação que agradava, eram servidos de um doce bem grande. Amavam a velha senhora, que viam pelas grades, levar tão delicioso quitute.
Com o passar do tempo, Gracinha tinha uma boa quantidade de ajudantes. Pessoalmente, todos colaboravam.
O doce de abóbora ganhou coco, ficou mais saboroso, e foi introduzido também o de batata. Sucesso! Apareceu um jovem padeiro. Também tinha o pai um ex-recluso. Sabia fazer pães recheados, com linguiça principalmente.
Existe até hoje, a cozinha de dona Gracinha. Morreu há alguns anos, mas seus anjos, além de continuarem a obra, levaram-na para o lugar devido.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Crime

Crime














Violento o homem sempre foi, desde que surgiu na Terra, até mesmo por motivos de sobrevivência.
Fazer história não tem muito sentido; ela já está devidamente escrita por pessoas especializadas.
Quando digo mundo estranho, quero referir-me ao de nossos dias atuais. Incesto sempre houve, de modo especial nas comunidades menos esclarecidas. Descobre-se agora, por exame de DNA, que um cidadão é pai-avô de oito crianças. Uma filha mais velha, que dele também tem um filho, saiu de casa.
A irmã que ficou vive maritalmente com o pai há mais de oito anos, tendo dele sete filhos.
Ora, não se pode dizer, dadas as circunstâncias, que houve abuso de menor, aliado ao constrangimento. Fosse um filho, a hipótese era viável. Mas sete, presume um consentimento pleno. Aliado a idade da filha, vinte e oito anos. Este comportamento não é criminoso, mas altamente agressivo aos costumes da sociedade.
O crime nunca esteve mais forte. É verdade que ele acompanha a vida humana, mas parece que nunca foi tão praticado.
Temos notícias seguidas de modelos estarem sendo mortas, no mundo dito “civilizado”.
As drogas sintéticas, como o ecstasy, por exemplo, tomaram conta de grande parte da juventude, que quando mais curiosa e atrevida, consomem como ato comum, desconhecendo o perigo da “over dose”.
Crianças matam colegas nas escolas, como atiradores ou por acidente. Quando levam armas para mostrar aos colegas.
Sexo oral está sendo comum, nos banheiros de colégios secundários.
O acontecimento não é só brasileiro.
Afinal, o que está ocorrendo?
Que respondam as boas cabeças.

domingo, 18 de julho de 2010

Fidel Castro

Fidel Castro
















Volta e meia coloco meu pensamento sobre o presidente cubano.
Castro livrou o seu país da dominação americana, sob o complacente olhar de Fulgêncio Batista, que permitiu ser Cuba um anexo sujo e pornográfico dos Estados Unidos.
Foi uma longa jornada de Sierra Maestra a Havana. Muitos ficaram pela selva e pelo caminho.
Tomado o poder, seguiram-se as execuções. Seria como na Revolução Francesa. Nesta, historiadores apontam os excessos. Em Cuba, houve o protesto, mas nenhum escritor ou jornalista estrangeiro afirmou que o paredão foi injusto. Injustiças? Na certa foram cometidas, é normal.
Este assunto não é político. Não quer saber se Fidel está ou não certo de ainda ser comunista, regime que não existe mais nem na China, onde está se desenvolvendo um capitalismo selvagem.
Mas quando a UNICEF afirma que não existe fome entre os menores de seis anos, e que todos eles têm abrigo para dormir, diferente das ruas, o articulista pensa mais de uma vez. O fato foi constatado por organismo da mais alta credibilidade.
Cuba é pobre e isolada do mundo. Tem muitos erros, até hoje. Mas menores na verdadeira primeira idade, não passam fome nem falta de teto.
E agora, que o problema levantado está em toda imprensa? Fidel é um anjo ou demônio? Digo o que penso: nada fez mais do que sua obrigação.
Daí esta crônica não ser política, se digo claramente minha opinião. Mas gostaria de saber a do leitor.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Bandeira do Brasil

Bandeira














Pais e professores ensinam, desde somos pequenos, que a bandeira nacional é linda.
Um exagero. As cores são muitas. Mas quando vemos tremular num mastro a Bandeira Nacional, sempre dá um arrepio. Sem patriotadas.
Existem duas bandeiras. Verifique. Uma é a da festa, da alegria, do amor, quando o povo ‘veste’ o pavilhão, em ocasiões festivas, como a Copa do Mundo, onde não fomos como deveríamos.
É a camisa da massa, beijada, acalentada como criança fosse.
O símbolo da pátria servindo de manto para um casal, um jovem, seja branco ou negro, igualado por estar vestindo o pendão auriverde.
Emociona e grupa o povo!
Mas é também aquela bandeira que ao sabor do vento, engalanada, mostra-se como uma grande mãe, quando envergada.
Continua sendo motivo de alegria, mas agora com respeito do mesmo cidadão que com ela se envolve, num belo ato de amor.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O prazer da liberdade

Velejando

















Tão bom ser livre! Mas a responsabilidade aumenta. Todo aquele que dela abusa, acaba pagando caro.
Nem tão moço era. Mas experimentado e forte, ainda velejava no seu pequeno Laser, um barco que deu certo no mundo. Só uma vela, nas regatas só um tripulante, seguro, fácil de ser manobrado. Disputa Olimpíadas, tão perfeito que é.
Seu único defeito é o espaço. Muito pequeno, exigindo habilidade do velejador. O casco, a superfície que toca n’água, é solidamente unido com o convés, parte onde fica o seu tripulante e seu pequeno espaço, chamado cockpit, que nada mais é do que uma pequena depressão.
Com atenção em manter o barco apanhando o máximo de vento, que não era nem forte, nem fraco, o solitário tripulante ousou. A Baía da Guanabara é muito segura para uma boa velejada de Laser.
Ultrapassar a reta imaginária que liga o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, e a Fortaleza se Santa Cruz, em Niterói, as águas não são mais abrigadas e você já se encontra no oceano. Habilidoso e bom conhecedor da arte náutica, as águas bem mais claras do que na baía apareceram.
Seu rumo era a Praia de Piratininga, a primeira ao norte da Guanabara.
Pretendia almoçar num bar de pescadores. Onde o peixe sempre é do dia e a cerveja, conservada num tonel de madeira cheio de pedras de gelo faz com que se abuse um pouco.
Estava no meio da praia, quase chegando ao seu destino, cabelos alvoroçados pelo vento, tinha retirado o chapéu, dose de conhaque tomada, pois havia mandado alargar o depósito hermeticamente fechado por tampa de rosca, não permitindo a entrada d’água, mesmo que o barco virasse, o espaço continha meia garrafa de conhaque, cinco sanduíches de carne assada com tomates e pepinos, cuidadosamente enrolados em papel-alumínio e dois litros de água, numa garrafa térmica própria, foi ultrapassado por um catamarã muito mais veloz.
Observou a moça, parecia uma deusa, linda de todo e que lhe acenou, como é costume no mar.
Perigosamente, aproximava-se muito da costa, onde grandes bancos de areia são formados em poucas horas.
Bateu num deles e o catamarã capotou.
Nervoso, o homem dirigiu-se para o local. O socorro no mar é sagrado. Estava apenas o barco virado. Nenhum sinal da bela mulher que o conduzia. Ele procurou, mergulhou, mergulhou, nadou e olhou o fundo do mar. Nada!
Foi quando sentiu a primeira fisgada. “Cansaço”, ele pensou. Continuou a busca. Seu corpo foi logo encontrado. Infarto.
Mas nem o barco, nem a moça, jamais foram achados.
Iemanjá levou o homem, diziam os pescadores. Aquela era a Rainha do Mar? Por que deixou o corpo na praia? Levou só o espírito?
A Vida tem muitos mistérios...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Tem Coca-Cola na Russia?

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Por escrever no Pravda, recebo uma pergunta engraçada.
- Tem Coca-Cola na Rússia?
Quem a fez não é criança, mas ainda está com a mentalidade de que naquele país ainda reina o comunismo. Regime duro, que acabou faz tempo.
Tem o refrigerante sim. A juventude usa calças jeans, fabricadas com brim brasileiro, tênis Nike, Adidas ou qualquer outra marca estrangeira, fala inglês com fluência. Ainda não fui lá, mas conheço seus hábitos mais comuns.
Não sou comunista, como muitos pensam. Aliás, não posso ser uma coisa que já acabou. Por formação, sou socialista, mas democrata ao extremo. Não posso admitir associações lícitas fechadas ou proibidas, censura, casas legislativas sem liberdade plena, restrições aos cidadãos na sua liberdade de ir e vir, sobretudo pensar. Interessante. Um jovem de vinte anos, russo, não sabe explicar direito o que é o comunismo, ele não viveu a fase negra do socialismo burocrata. Pensa exatamente igual ao seu colega belga ou alemão.
Não existe mais a cortina de ferro, que por incrível que pareça, veio bater nos costados da América do Sul, mais exatamente na Venezuela.
Com outro nome, bolivariano. Sem liberdade de imprensa, política ou pessoal, própria do cidadão.
O mesmo modo de viver deveria ter sido implantado aqui, no Brasil. Lula é ignorante, mas nada burro. Sabendo que o Congresso iria bater forte, saltou fora.
Não nos parece que o mesmo possa acontecer com Dilma, caso ocupe a presidência.
Reacionária do jeito que é, pode não ter mais Coca-Cola no Brasil...




Uso a palavra reacionário tanto para direitistas, como esquerdistas