quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Juventude

  Liceu 'Nilo Peçanha'











Ser moço, ainda adolescente, é muito confortável quando apenas se estuda.
Era o caso. Não necessitando trabalhar, fazia o seu curso ginasial, logo sucedido pelo complementar. Época que o secundário completo ainda era o ginasial, de quatro anos, e o científico ou clássico, de três.
O colégio era público e excelente, melhor do que qualquer outro particular.
Disciplina rígida sem ser ditatorial. Misto. Época que ainda não se conheciam os malefícios do cigarro. Todo maior de quatorze anos, desde que o pai, mãe ou responsável autorizasse na caderneta o uso do fumo, longas tragadas eram feitas, na hora do recreio. Nos intervalos entre uma e outra aula também. O banheiro era fumaça pura.
Professores rigorosos, alguns tidos como carrascos. Esta fama sempre a teve o lente de matemática. Mas qual! Muitos outros competiam com ele; alguns bem piores. Estaria certa esta política educacional? Nunca foi estudada. Mas no Rio, o “Pedro II”, o “La-Fayette” e o “Santo Inácio”, estes dois últimos particulares, formavam excelentes alunos.
Em Niterói, era o Liceu “Nilo Peçanha”, público e o mais rigoroso. Foi aonde ele fez o seu curso. Quem foi aluno, sente saudades. Educação de primeira linha. Mas acho uma coisa interessante. Começou a estudar francês no primeiro ano ginasial. Inglês, no segundo. Ou foi péssimo aluno, ou todos estes anos não valeram de nada.
Como a mãe falava com desembaraço o francês, aos cinco anos já sabia muita coisa, se é permitida a palavra.
Mas não é isto que quero dizer. Havia moças lindas, apaixonou-se perdidamente por diversas. Aconteceu o mesmo fato comigo, como era de esperar-se. Mas estava numa crise de paixão e não pude avaliar a linda moça que se declarou a mim. Perdão! Fui inclusive bastante mal-educado, disse que já tinha namorada. Mentira pura! A moça era linda...
Aos dezessete anos de idade, declarou sua vontade.
- Talvez – foi a resposta.
Talvez de mulher quer dizer nunca, neste caso. O que ele só veio a saber bem mais tarde.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Recado

  Escrevendo/Google

















Papel, se alguém perguntar,
Diga que as coisas vão bem.
Que ainda posso falar
O que na cabeça me vem.

Que a Vida vai passando
Como é de se esperar.
E eu sempre teimando
Insisto no meu lugar.

Desistir não posso nem devo;
Não há lugar pra fraqueza
Se no contorno d’alma o relevo
Não me mostra tibieza.

Papel, se alguém perguntar,
Diga que as coisas vão bem,
Que ainda posso amar
As coisas que o mundo tem.

Diga também, por favor,
Que embora com a alma ferida
Ainda sinto o ardor,
Nas veias da minha Vida.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Natal

Árvore/Rio de Janeiro










Não estou fazendo nada mais do que transcrevendo história que ouço há muito muitos anos.
Dizem que faz muito tempo, um menino brincava com o barro. Fazia aves, pássaros diversos. Eram toscos; estava aprendendo.
Mas gostava do que fazia. Melhorava seu artesanato visivelmente, enquanto o barro úmido era moldado com carinho e trabalho cuidadoso.
Gostava das suas aves. A técnica estava sendo apurada e os pássaros, a cada dia que passava, mais ficavam assemelhados com os verdadeiros.
Determinada manhã, foi brincar e trabalhar outra vez. Retirou os que mais gostava, estavam muito bem feitos e secos. Fez mais alguns e gostou do resultado.
Feliz e contente gostou muito do seu trabalho.
Na sua doce inocência infantil, bateu palmas. Estava alegre.
Os pássaros saíram voando...

Esta foi a história que eu ouvia. Era pequeno também. Hoje ouço tiros, gritos, correrias e palavrões, principalmente durante os jogos de futebol.
Sinto a fumaça que os ônibus e carros soltam, o barulho que fazem. O calor e o abafado que não existiam há trinta anos. Vejo os drogados.
É certo que o progresso foi muito, felizmente. Em todas as áreas do conhecimento e do viver.
Mas verifico, com segurança, que o bem foi acompanhado pelo mal.
Lastimável, isso. Mas com o Natal, renascem nossas esperanças.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Simplesmente vida

  Rosa








Difícil entender a Vida. Afinal, são muitos fatos.
O primeiro deles, talvez o mais visível, é que você está vivo. Tem consciência disso, sente a verdade. Sente fome, sente sede, sente sono. Fatos primários, que costumamos estar diante deles a qualquer instante.
Mas estes fatos, aliados com outros, mudam inteiramente a Vida humana. E o homem, queira ou não, se indaga. Já nem falo mais do velho e batido pensamento quem sou, de onde vim e para onde vou. É verdade que esta idéia é a mais forte do que muitas, mas talvez esteja sendo posta de lado quando valores diferentes se levantam.
O que é o amor, por exemplo? Os outros refinamentos não intelectuais, querendo ou não, você os encontra em cada passo do caminho. O amor pela música, pelas artes plásticas, pela literatura, e tantos outros que cansariam o leitor, que os conhece e sente.
Sentir a Vida correndo pelos pulsos, as batidas cardíacas mostram isso.
Mistério. Tudo mistério que por mais que tentemos, a gente não sabe explicar. Neste ponto, parece que tudo cessa. Estes fatos não necessitam explicação, basta poderem ser constatados.
Mas a curiosidade humana é grande demais para ser satisfeita com essas verificações. Quer ir além. Se estou escrevendo, porque faço isto? Vale à pena? Fernando Pessoa, no seu Mar Portuguez, é taxativo: “tudo vale a pena, se a alma não é pequena.”
Sentimos prazer e dor. Segundo parece, ambos andam de mãos juntas, e que não podem se apartar.
Vamos seguir uma linha simples, por motivos pragmáticos. Acordamos. Fazemos nossa higiene. Passamos à mesa do café matinal. Há os que gostam de refeição ligeira, mas frugal, se é que isto é possível. Outros se limitam ao café que tudo perfuma, inclusive nossa alma.
Alma? O que é isto? Parece que caí na própria armadilha! Alma existe? Digo, o pensamento formado por uma complexa cadeia de neurônios, que pensa com exatidão, move a nossa Vida.
Ficamos só nisso? E quando toca aquela música que agrada profundamente, muitas vezes ao ponto de chorar? E quando sentimos a mão da amada segurando firme, demonstrando carinho, afeição, amor?
Tudo isso é simplesmente inacreditável, maravilhoso.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Verdades

  Lendo no parque/Henri Labasque












Talvez ela fosse a única moça que lia no parque. O livro era agradável.
Talvez ela fosse a única que lia, enquanto mães e crianças brincavam. Brincar é bom. A pessoa sai do seu cotidiano chato, acorda, limpa-se e vai para a primeira refeição.
Dizem que o hábito faz o monge.
Faz mesmo. O costume diário nos dá um ritual, mas é bom pensar no que temos em energia. Os que escrevem, pintam, ou exercem qualquer outra atividade, não sabem mais sobreviver sem ela.
São tantos que não podem viver sem transmitir as suas convicções que de modo algum podemos fazer uma espécie da detestável censura.
A Internet é um mundo. Aparecem aqui todo tipo e espécie de gente, uns com talento, outros tentando.
Na verdade, em literatura, ninguém nasce com o talento de Machado. É preciso força, estudo e trabalho. Sem isso, nada feito.
Alheia a estas verdades, ela continuava lendo. O livro era Escolha seu Sonho. Não parecia estar escolhendo sonhos, prestava atenção demais. Uma estudante de Letras? Uma iniciante na literatura?
Só ela possuía a resposta, e ninguém perguntou nada. Cabelos castanhos, soltos, cortados Chanel. As poucas vezes que levantou a cabeça foi para olhar um canário que, como adivinhando o empenho na leitura fazia o fundo musical. Era bonita, sem a menor dúvida.
Quem gosta de frequentar parque, aproveitar a sua frescura e calma, está acostumado a ver estas cenas, que parecem saídas de um quadro impressionista.
Gostei tanto de ver a cena bucólica e com um certo mistério que resolvi escrever sobre o que assisti numa bela manhã de um dia luminoso.
Na certa que volto, esperando encontrar a jovem. Não vai ser difícil falar com ela, pois temos o mesmo gosto. Ler no parque.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Dezembro

  Noite Quente/Google















Não sei bem. Não tenho certeza, mas o mês de dezembro eu entendo pesado.
De modo algum tenho, como muitos, horror ao mês do Natal e Ano Novo. Nem fico muito mudado, mais feliz, como a maioria das pessoas.
Tenho um exemplo do qual não posso me esquecer. No dia primeiro deste mês, minha mãe tinha outro espírito. Era tomada por alegria intensa, e transmitia este fato.
Gostava de preparar a ceia de Natal; não gostava, adorava. Fazia tudo sozinha, preparava a casa e a mesa. Com todo o amor e carinho.
A toalha branca, perfumada pela lavagem cuidadosa, era enfeitada por flores e galhos escolhidos no jardim. O peito do peru, minha escolha até hoje, com uma farofa na manteiga e miúdos condenados hoje por qualquer cardiologista.
O bolo! Ah, o bolo... Minha mulher tem a receita até hoje, o caderno deixado está intacto.
Ano Novo e era a mesma coisa, mas com saladas leves. Champanhe, sempre. Festas íntimas, domésticas, afetivas e amorosas.
São recordações agradáveis que aliviam o coração.
Foi neste clima que passei minhas festas de fim de ano. Tudo era muito diferente.
As estrelas ainda luziam no céu. As cidades não eram blocos de concreto, agressivas.
Tudo mudou. Para pior, bem pior, salvo em cidades pequenas que mantêm a tradição.
É pena, uma grande pena, a materialização de festas tão bonitas.

sábado, 28 de novembro de 2009

Amores sem sentido

  Milla/jcs

















Este engodo existe mais do muita gente pensa.
Está presente em qualquer parte do planeta, e não faz distinção de idade. Faz parte do sonho humano, principalmente na parte afetiva.
Assim é que numa noite temperada, nosso poeta encontrou sua musa, numa reunião de amigos. Tudo muito informal. Casa de praia, destas pré-fabricadas, simples e bastante confortável. Todos eram conhecidos, velhos amigos, menos o casal que conversava sentado na grama.
O assunto era viagem ao estrangeiro. Ambos conheciam países europeus, e sempre há quem prefira um ao outro. Os mais velhos adoram a França, sonham com Montmartre, o lado esquerdo do Sena, bares famosos como o Les Deux Magots.
Os mais jovens preferem Londres, mais dinâmica e contemporânea de alguns anos para cá.
- Pois eu acho Portugal muito mais interessante, - falou a moça.
- Engraçado. Também simpatizei muito com Portugal. Lugar onde pode se viver com calma.
- Especialmente no extremo sul. O Algarve é muito bonito, clima agradável, e muito tranquilo.
E a conversa continuou longo tempo, poética, com clima de romance, relaxada pelas excelentes batidas de lima-da-pérsia que um do grupo passou a noite e a madrugada preparando e bebendo. Um violonista não parou de executar solos de músicas conhecidas, mas surpreendeu quando tocou “O Concerto de Aranjuez”.
Foi neste clima que nasceu a paixão. Nasceu e se desenvolveu. Os sonhos, os eternos sonhos que fazem girar o mundo, estavam em pleno desenvolvimento. Casar, ir para o Algarve, talvez Olhão, uma cidade gostosa...
Sonhando, sonhando, tempo passando e nada de união, namoro. Isto cansa; não pode ser indefinido. Até que ela casou e sumiu, foi morar em Nova Iorque. Ele não a viu mais. A última vez que escreveu, contava estar grávida. Caso fosse homem, o nome seria o escolhido por eles, quando ainda faziam planos. Fez questão de dizer que ainda o amava, ele que não a quis.
Não se comunicam há algum tempo, parece que o amor acabou.
Será mesmo?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Tuas mãos

Mãos/Google














Tuas mãos


O semblante puro, sereno
Que tu trazes sempre estampado,
Faz sentir o quanto é pequeno
Por ti moça, não ser amado.

Se tens as mãos tão delicadas,
Dedos finos longos, seguros
Sempre quando estão bem tratadas
Mostram o quanto eles são puros.

Quem cuida dos outros, parece,
Que tudo sempre modifica
Alma de quem muito merece.

O carinho dessas tuas mãos
Cresce, aumenta, solidifica,
Não têm elas excessos vãos.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Os velhos marinheiros"

Jorge Amado
















- Pois é o que eu digo! O comandante Vasco existiu mesmo.
- Ele e Papai Noel. Quem me trouxe foi a cegonha.
- Larga de deboche, homem. Tem um livro que conta tudo.
- É um romance, rapaz. Não é História.
Este diálogo estava sendo travado num bar suburbano, famoso por suas batidas e empadas diversas. Os tipos eram comuns, de meia idade, já afetados pela manguaça. Um exemplar estropiado estava na mão de um deles, que poderia muito bem servir de personagem para Jorge Amado.
- Quer dizer que um homem fardado é mentiroso?
- Mete na cabeça, cara. Isto é apenas um livro dum escritor famoso.
- Então que é verdade mesmo. Um escritor famoso não escreve mentira.
- Ele criou a história toda.
- Criou? Você está dizendo que ele inventou aquilo tudo?
- Entendeu, burrão. Inventou sim.
- Ninguém é capaz de inventar a vida de um homem. Tem o nome, o lugar onde viveu, os amigos, as farras. Invenção nada, não acredito.
- Olha, vamos parar. Eu sou ignorante, mas já li alguns livros, quando ainda estava na escola.
- Livros de mentira ou de verdade?
- De mentira, de verdade, eu lá sei o que você quer dizer.
- Como o do comandante Vasco. Marinha Mercante, o amigo Georges é que era da Marinha de Guerra. Capitão dos Portos.
- Invenção também.
Pediram mais empadas de palmito. Os copos de batida ainda estavam bem cheios. Já estavam no quinto martelo grande. Clima frio ajuda. Não perceberam quando entrou no boteco um cidadão de cabelos grisalhos, troncudo, com um paletó esquisito e um chapéu com uma âncora.
- Os amigos permitem que eu tome um grogue junto?
- Grogue. Era isso que ele preparava na casa decorada com objetos de marinheiro. Que coincidência!
- Posso saber do que está falando, grumete?
- Grumete?
- Sim. Grumete. Ainda não me parece um marujo.
- E você quem é?
- ‘Comandante Vasco Moscoso de Aragão. Um velho marinheiro, às suas ordens.’

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Malandros

Icaraí













Existe, na minha cidade da Vila Real da Praia Grande, hoje Niterói, um ônibus alucinado que percorre a cidade inteira, o chamado Volta ao Mundo.
Fartamente usado, é alvo de pequenos marginais, que fazem do transporte seu ganha pão. Roubando ou furtando, é bom que se diga.
Quem anda no 51, a linha do citado coletivo, está avisado. Risco de perda, a qualquer momento.
Mas o pessoal ficou esperto. Nada de pegar a condução com a carteira cheia! Cinquenta reais, no máximo dos máximos. Relógio? É aquele que o camelô da esquina vende por menos do que você tem nesta carteira. Celular? Está doido, homem? Por causa de um de terceira linha, o famoso “pai de santo”, só recebe, você pode levar um tiro do pivete que a vida malvada criou.
Melhorou, agora. Os próprios assaltantes preveniram as vítimas. E assim perderam uma boa fonte de renda, absolutamente isenta de declaração!
Os dias atuais parecem um sonho, ora na praia, bem acompanhado, cerveja gelada, água de coco, sombra, mergulhos, têm que ser vigiados, ou você não volta parta casa. As chaves do carro ou o dinheiro da passagem de ônibus somem com facilidade incrível.
O mais novo golpe é fatal. Você senta ao lado de um belo par, ela uma sereia, ele um galã, e a conversa inicia na hora.
Eles são simpáticos, pagam a cerveja e quando vão dar um mergulho, pedem que você tome conta da tralha que carregam.
Voltam satisfeitos, refrescados.
Você faz a mesma coisa. A água está deliciosa!
Quando volta, nem a sandália ficou, levaram tudo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cecília Meireles e o haicai

Beija-flor/Google












Pretendo ser breve, mas sem deixar lacunas no texto. Nossos maiores expoentes no haicai, a sutil e inteligente arte poética japonesa que ganhou o mundo deve ser apreciada com olhos e corações abertos.
Sem qualquer julgamento de quem entende ou não o haicai, diria que Paulo Leminski, Guilherme de Almeida e Cecília Meireles compreenderam muito bem o seu significado.
Vou fixar-me em Cecília. No seu antológico Escolha o seu sonho, ela aborda o assunto com profundidade e delicadeza, qualidades que a caracterizam.
No seu texto “O ‘divino’ Bachô” nossa autora mostra a sua inteira compreensão do haicai.
Afirma textualmente que o haicai, nas mãos de mestres, torna-se uma preciosidade: “É um engano tomá-lo apenas pelo aspecto superficial: precisa-se penetrar na intimidade da sua significação.”
Sabedora que o haicai e o tanca trazem a mais autêntica forma da expressão poética, que não necessita de título, pontuação ou rima, embora esta quando devidamente feita enriqueça o poema, Cecília dá um exemplo de Bashô, considerado o mestre do haicai.
Um discípulo seu teria escrito
“Uma libélula rubra.
Tirai-lhe as asas:
uma pimenta.”
Mestre Bashô corrigiu o haicai.
“Uma pimenta.
Colocai-lhe asas:
uma libélula rubra.”

Uma diferença grande! Cecília entende como um símbolo de compaixão, como “uma luz que não se apaga, e até se vê melhor – porque vastas e assustadoras são as trevas dos nossos dias.”

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Iniciantes

Cecília Meireles/Google















Muitas pessoas escrevem nos sites da internet, hoje em dia.
A gente fica pensando: como começaram? Já escreviam antes e aproveitaram-se da facilidade, ou tinham o talento guardado, esperando a oportunidade de manifestar-se?
Difícil dizer. Só fazendo uma grande pesquisa. E os institutos da vida não parecessem interessados na empreitada. A melhor maneira de sabermos é lendo o perfil do autor, mas se ele não escreve desde cedo, não costuma revelar o fato.
Cronistas, contistas e, sobretudo poetas, aparecem em grande número nos sites literários, sem falar nos blogs.
Como em toda atividade humana, encontramos escritores e poetas – acho estranha esta diferença. Acaso o poeta não é um escritor? A interrupção veio mal. Dizia que temos neste meio, boas, médias e fracas pessoas na atividade, como é característica de toda atividade humana.
Mas o interessante são os iniciantes. Pegam um tema e vão desenvolvendo, como se fossem velhos e experimentados escritores. Salutar audácia! Muitas vezes revela um talento brilhante.
É evidente que nem sempre é assim. Temos prosa chatíssima, e poemas completamente sem pé nem cabeça. Aqui o campo é mais fértil. Aproveitando-se da liberdade nos versos, os iniciantes aproveitam e abusam da falta de conhecimento. Poucos sabem contar as sílabas de um verso.
Talentos e falta dele. O efeito final é bom. Distrai, evita que o autor saia por este mundo doido cometendo disparidades e, quem sabe, pode revelar outro sucessor para Jorge Amado ou Cecília Meireles, por exemplo.

sábado, 31 de outubro de 2009

A mulher e o silicone

Beleza/Google












Mania infeliz, esta do silicone, que não vai durar muito. Os males começam a aparecer.
Como se fosse uma experiência de laboratório, a mulher repentinamente só está na moda se for “turbinada”. Seios horrorosos, com o produto em quantidade alta, disformes, parecendo bolas, traseiros tanajuríssimos, neologismo que acabo forçosamente de criar, lipoaspiração para valer, e lá vai ela, na praia com o seu minibiquini, nos shoppings com a calça justa e o salto dez, blusa audaciosa.
Até alguns anos passados, seria vista como uma prostituta mal-paga. Hoje é moda, grande parte das mulheres está assim.
Parece que o bisturi que mudava narizes, retirava rugas, alterava bocas, não é mais tão importante como um farto par de seios que parecem querer escapar das blusas ou vestidos.
Eu pessoalmente conheço três casos que o silicone arrebentou, fazendo um estrago nos seios. A correção é sempre dolorosa. Não acredita? Pergunte a qualquer médico. É bom evitar o cirurgião plástico.
Interessante. Jamais escrevi crônica como esta. Não estou censurando ninguém, e caso pretendesse, que autoridade tenho para isso?
Claro que a mulher com um nariz de Pinóquio deve fazer uma plástica, como a mulher que tem o peito parecido com o do homem, um silicone razoável vai muito bem. Entrou a estética, não se discute.
Mas um pouco de bom senso é mais do que valioso nestas horas de peitudas e tanajuras.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O Julgamento do Diabo

Júri/Google







Nem sempre é dado ao homem o poder de julgar casos que não são da sua competência. O homem julga o homem, não entidades que supostamente conhecemos.
A sala do Tribunal do Júri obedecia ao padrão internacional: austera.
O juiz, promotor e jurados, austeros igualmente. Quem destoava era o advogado de defesa. Aparentando muita tranquilidade, ele ajeitava alguns livros e papeis na sua tribuna. Sempre que fazia júris, era a mesma coisa: apenas uma grande dose de uísque, para descontrair. Nunca mais do que isso; o prejuízo seria do acusado e seu.
Gostava de usar a beca negra. O Tribunal exigia vestes talares, e o ar refrigerado não conseguia deixar um resquício de calor nos corpos dos debatedores. Enquanto o sisudo promotor tinha por baixo da beca paletó e gravata, o advogado tinha apenas as calças, meias e sapato. Retirava camisa, gravata e paletó; a veste negra, uma grande capa, encarregava-se de esconder o tronco nu. Não sentia calor, era um velho hábito.
Todos já sentados quando o oficial de justiça apregoou o acusado. Entrou cabisbaixo, como todos os réus. Dois policiais fardados o ladeavam e sentaram-se nas cadeiras a eles reservadas.
O juiz fez um breve relatório do caso e iniciou o interrogatório. Nenhuma das suas perguntas foi respondida, tanto por vontade própria do réu, como pela orientação do advogado. Todos naquela sala olhavam com certo temor a figura sinistra. Respondia a quatro homicídios, mas estava sendo submetido a apenas um. No crime continuado, aquele onde o autor comete de uma só vez delitos da mesma natureza, responde apenas por um, mas tem a pena bastante aumentada.
O promotor, jovem especialmente indicado para iniciar o exorcismo, se é que o fato pode ter este nome, colocou o réu abaixo de qualquer linha de comportamento humano possível. Volta e meia, o homem sentado a sua frente levantava os olhos e com uma aparente imagem pura e angelical, fitava-o com destemor e leve sorriso. O juiz, que a tudo assistia, não encontrava motivos para impedir que tal fato ocorresse. Afinal, não havia ofensa nem deboche, apenas um sorriso amistoso.
Acusações e mais acusações pesavam contra aquele homem, e o Tribunal era silêncio.
Terminada a fala do promotor, a pedido da defesa, o julgamento foi suspenso por vinte minutos, para descanso dos jurados. Na cantina onde podia se tomar um excelente café, os comentários eram os mais variados. Todos, sem exceção, estavam admirados com o julgamento; nunca presenciaram fato semelhante.
Juiz e promotor, no gabinete daquele, confabulavam com certa precaução. Nem um, nem outro, havia participado de júri semelhante.
O tempo concedido ao descanso terminou. Todo na sala uma vez mais foi dada a palavra ao defensor do acusado, o sem-nome, o perverso.
O homem falou muito. Passou por todos os pontos onde a maldade está presente. São tantas... Inflado pelo entusiasmo, o causídico desfiou o rol dos males, a guerra, a fome, a miséria, a falta de educação para as crianças, o trabalho indigno, e a solidão humana. Repetiu mais de uma vez que o homem nasce sozinho, vive sozinho e morre sozinho. Mesmo o mais querido humano vive esta realidade.
O que ninguém esperava, enquanto o defensor terminava o seu discurso, foi o forte vento, a falta de luz por causa de um curto-circuito e um início de incêndio.
Terminado o incidente, todos viram que o réu tinha desaparecido, e nunca foi encontrado.
No antigo oráculo de Delfos, na Grécia antiga, em pedra está entalhado o dizer “Invocado ou não invocado, Deus está sempre presente.”
Tudo indica que o mal também esteja, e cabe a cada um pedir que não seja seu instrumento.
Ainda atônito, tomado por medo, o juiz deu por encerrada a sessão.
O réu? Está em toda parte. Deus me livre dele...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Acontece

Prisão/Google












A toalha de mesa estava clara e bem passada. Aparecia discreto bordado.
O homem solitário já havia feito o seu pedido, e no momento bebia um excelente tinto, chileno. Em mesas próximas, a conversa era baixa; gente educada.
Quem está sozinho pensa com mais calma. O vinho descia suave na garganta e ajudava a liberar os pensamentos. Vida profissional sem correrias, consultor de investimentos. O antigo aluno de Mário Henrique Simonsen, falecido, mostrava a importância de um bom mestre.
O garçom começava a servir. Trutas com aspargos, rúcula e tomates pequenos. O garfo mostrou que estavam deliciosos.
Não, ele não entendia como tudo pode acontecer. Os dois elegantes estrangeiros que entraram na sua sala de trabalho, tiveram a orientação perfeita para o investimento. Foi feito, deu resultado e veio o convite para trabalharem juntos. Lucros divididos por igual, e ele entraria sem colocar um centavo do bolso. Bastava a indicação, e assunto resolvido.
A sociedade durou pouco mais de dois anos. Para a surpresa do homem que saboreava a truta com rúcula, a polícia federal havia prendido todos. O dinheiro aplicado era produto de crime, e do tipo que a justiça detesta: tráfico de entorpecentes, ecstasy vindo da Holanda.
A soma das penas foi grande. Tráfico de entorpecentes e lavagem de dinheiro. De homem rico e namorado de bela moça um pouco mais nova do que ele, sua vida mudou. Bens confiscados, a mulher sumiu com boa parte do dinheiro.
Mas a salada estava muito bem feita, o vinho agradando cada vez mais, talvez só esquentando o corpo. O calor aumentava progressivamente, estranho, ele não entendia, calor, muito calor, cabeça pesada, queria saber o que estava acontecendo.
Acordou banhado de suor na cela que ocupava, na penitenciária de segurança máxima. Foi dado como perigoso, na sentença que o condenou.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Não tem dono

O triunfo de Baco/Diego Velázquez











As noites de verão eram agradáveis. A suave brisa vinda do mar tornava a varanda do clube náutico muito simpático.
Os casais conversavam sobre os mais diversos assuntos, mas o mar, os veleiros e as técnicas dominavam a falação acompanhada de cerveja.
Se você conhece um clube náutico, sabe que existem dois grupos distintos: o grupo da vela e o das lanchas. Cada um tem sua rodinha. Por volta das onze, onze e meia da noite, iam-se embora.
Um casal jovem passou certa noite por um problema. Nada coisa séria, mas que ficou conhecido.
Moravam numa casa, e a mulher abria o portão para a entrada do carro, enquanto o motorista, armado, tomava conta. Era sempre assim, anos.
Certa noite, um tipo não arrebentado pela vida, mas também sem nenhuma aparência decente, completamente embriagado, tentou pular o portão de ferro que a mulher já havia fechado. Seu marido, ainda um moço de vinte e sete anos de idade, arma na mão, partiu correndo em cima do invasor. Ficou aliviado quando percebeu que não era assalto, ou diabo parecido. Apenas o velho conhecido bêbado do bairro que queria, conforme falou, dormir na varanda.
- Desce daí, moleque.
- Mas eu só quero dormir na varanda.
- Some.
- Vou entrar. Tô com sono.
- Você vai e levar um tiro se não descer agora.
- Então atira! - Ele havia aberto a camisa, desafiando. A esposa, bem jovem ainda, queria entrar na casa com o marido e chamar a polícia.
Casos como este não tem alternativa, gente moça, forte e ainda por cima armado, não suporta ameaças de invasão da sua casa.
- Rapaz, desce logo senão eu vou te encher de pancada.
- Valente, o garotão. Vem dar pancada, vem.
Têm certos fatos que não se explicam. Sem mais estar raivoso, o dono da casa falou para o empoleirado tipo no portão, não demonstrando raiva, mas imenso sarcasmo: “Não vai descer não? Olha, cu de bêbado não tem dono. Vai ser hoje”, e partiu para cima do vadio que não teve medo de arma, nem de levar uma surra, mas diante da ameaça, bateu o recorde olímpico, dos 200 metros rasos, acredito.
O casal riu muito com o fato, e a mulher não conhecia o velho ditado e brincadeira tão antiga. Riu muito, mas ficou espantada com o marido.
Sua inesperada reação resolveu o problema.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Bandidos

Soldado/Google











Gabinete fechado. O mais graduado falava manso para o capitão Callado, o “Coisa Ruim”.
Invadir morros perigosos é tarefa para quem conhece; não se admite improvisação. Mas aquela força contava com conhecedores profundos do local. Moraram lá até serem alunos da forças especiais do Exército. Usando máscaras pretas, não seriam reconhecidos. Todos os participantes usariam. Nada de ser reconhecido.
“Coisa Ruim” prestava a atenção devida, sentado diante ao superior.
- Não me faça prisioneiros. Não somos policiais.
- Certo, meu comandante. Escolhi os melhores homens.
- E não me faça, capitão Callado, passar vergonha. Afinal foram quinze fuzis FAL furtados. Quero-os de volta e o serviço de informações já deu a localização exata. Como está seu GPS?
- Em perfeito estado, comandante. No último teste que fiz, errou a posição por menos de um metro.
- Excelente, Callado! Tenho certeza do êxito.
- Não haverá erro, senhor. Vagabundo não furta o Exército e fica sem a punição devida.
A conversa final estava terminada. Para quem não conhece, GPS é um pequeno aparelho eletrônico, que captando sinais de satélites, fornece a posição do lugar, seja na terra, mar ou ar com extrema precisão.
O capitão Callado, o “Coisa Ruim” partiu depois da meia noite com a missão de trazer de volta os fuzis furtados. Ele mesmo escolheu seus companheiros, dentre os conhecedores da favela, lugar de gente trabalhadora, mas que abriga muitos marginais.
- Não quero nem vou admitir erros. Bem entendido, sargento?
- Capitão, ser comandado pelo senhor é uma honra. Entrego minhas divisas se não encontrarmos os fuzis. Se a posição está certa, senhor!
- Certíssima. Quem passou merece toda nossa confiança.
- Vai haver resistência...
- E nós vamos acabar com a resistência.
Os cabos que conheciam o lugar conduziram pelos mais estranhos caminhos. A eterna contradição fazia notar-se. Habitações paupérrimas, ao lado de antenas parabólicas de TV, outras a cabo, produto do banditismo.
Perto do lugar indicado, veio o primeiro tiro, com bala tracejante. Como se não fosse o mais do que suficiente para a localização, o supressor de chamas do fuzil que fez o disparo não estava em boas condições. Indicou o lugar do tiro.
Callado sempre conheceu o seu ofício. Os fuzis que lançam granadas pulverizaram o lugar. Ouviu-se uma gritaria medonha, estilhaço de granada faz estrago para valer.
Chegaram ao lugar. Uns mortos, outros muito feridos.
- Onde estão os fuzis, filho da puta?
A dura voz de Callado era para um ferido que sangrava muito.
- Fala que eu te levo para ser tratado!
O marginal acreditou. Não eram policiais, eram do Exército. Mostrou o lugar, indicando uma mangueira velha. Cavaram e lá estavam os fuzis, munições e alguns uniformes da polícia militar. Sucesso absoluto!
Mas “Coisa Ruim” sentiu o impacto forte no peito. Um dos feridos usou uma pistola 380. O colete não permitiu ferimento, mas a coronha do fuzil do capitão quebrou todos os ossos do ombro de quem atirou. A dor do vagabundo não podia jamais suplantar prazer do oficial.
Sua arma de serviço era a Colt, calibre 45. Mas preferiu usar, atirando na nuca, a Walter P.38 que sempre carregava consigo.
O capitão Callado recebeu elogios. Nenhum ferido e as armas recuperadas.
Histórias perversas, mas que acontecem todos os dias.

domingo, 4 de outubro de 2009

A Baia da Guanabara

A entrada da Guanabara/ams












Lembro dos tempos em que era um prazer enorme desfrutar das águas da Guanabara. São passados anos, muitos anos.
As praias não ofereciam perigo nenhum aos frequentadores, eram de águas limpas e tão transparentes que era possível ver os pés na areia, com a água pela cintura. Todas elas, com exceção de pequenos trechos onde havia, e ainda há, desaguamento de riachos, sempre sujos desde há muito.
Sendo morador próximo, a Praia de Icaraí era a mais frequentada, a princípio com os pais, e logo em seguida com os amigos, moleques que nem eu. Eram muitos, lembro-me de todos. Todos amigos que o tempo perpetuou, mas a morte separou dois, e algum mau acaso da vida separa outro.
Nas águas de Icaraí, sempre acolhedoras, aprendi a nadar com oito anos. Lembro-me a alegria e o contentamento que me invadiram, quando percebi que era capaz de ficar n’água sem tocar os pés no fundo. A partir deste momento, tornei-me useiro e vezeiro na pratica da natação, hoje infelizmente impossível em toda a baia, devido à poluição.
Nunca o mar era forte a ponto de impedir a saída dos banhistas. Quando havia ondas maiores, e algumas vezes ressaca, todos os habituados em Icaraí, que quer dizer “água grande e mansa” na língua original, o tupi, nada havia que impedisse a entrada na água, sem medo. Podia-se optar por duas formas de distração: ou se apanhava o famoso “jacaré”, descendo as ondas num surfe primitivo e adorável, onde a prancha é o nosso próprio corpo, ou enfrentavam-se as ondas, furando-as sucessivamente.
Não existiam correntes traiçoeiras, capazes de levar um mais afobado para longe, às vezes com trágica consequência. As correntes da Guanabara, até hoje, são bem fracas, comparadas com as de mar aberto, bem próximo à saída da baia. Cabe aqui um esclarecimento. Surgiu uma tese que a baia da Guanabara se inicia na praia de Piratininga, e termina nas proximidades do Forte de Copacabana. Tem sempre um inventor de coisas novas. A delimitação exata, desde o descobrimento da Guanabara por Gaspar de Lemos na primeira expedição exploradora (1501), é a linha imaginária que liga o Pão de Açúcar com a Fortaleza de Santa Cruz, inexistente na época do descobrimento, é óbvio, mas assinalada pelo promontório onde foi construída. O simpático jornalista e historiador Eduardo Bueno pode confirmar a afirmação.
Quando se pegava uma barca para fazer a travessia para o Rio de Janeiro, ou no sentido inverso, Rio - Niterói podia-se ver o nado sincronizado dos botos que gostam de exibir suas qualidades de nadadores-artistas, em bandos dando cambalhotas enquanto nadam.
Tudo isto faz parte do passado. Hoje, a Guanabara agoniza. Seu fundo de areia transformou-se numa lama que contém material orgânico em quantidade, das mais variadas espécies, inclusive esgoto.
São feitos planos e mais planos para despoluir a baia. Com a chegada dos Jogos Pan-Americanos, não se tem certeza de que as raias do Iatismo estarão dentro da Guanabara.
Segundo comentários de velhos conhecedores da baia, uma outra entrada, na posição onde se encontra o Forte do Imbuí, permitia o melhor fluxo da água. Estes mesmos comentários atestam que o canal foi aterrado, por razões de segurança na época das invasões, principalmente a francesa. No lugar do aterro, que impede outra entrada ou saída da Guanabara, construiu-se a Fortaleza que até hoje existe, mas militarmente está desativada.
Muitos estudos concluem que se novamente fosse aberta a passagem, muito mais rápida seria a recuperação da baia, pelo constante fluxo d’água que inevitavelmente iria acontecer. Seria uma dádiva para Niterói. Conheço o lugar falado. Aprendi a velejar com quatorze anos de idade, e conheço a área descrita tanto por dentro da baía, como pelo lado oposto, no oceano. Talvez, abrindo o canal outrora existente, mude todo o sistema de correntes e renovação da água que está contida na Guanabara, mas esta é uma opinião sem autoridade, pois não sou especialista no assunto. Tomar inesquecíveis banhos de mar, caminhar pela areia dando um mergulho quando em vez, aproveitar a tranquilidade da Guanabara para dar velejadas pelo menos duas vezes por semana, fato que não faço há anos, é uma coisa. Outra, bem diferente, é entender corretamente de despoluir massa d’água tão volumosa.
Existe outro aspecto interessante, neste local onde está localizado o Forte do Imbuí. Também quando mais jovem, com espírito aventureiro que caracteriza a idade, fomos eu e meus amigos, de bicicleta, passando pelo Forte, até Piratininga, praia oceânica de Niterói. O percurso, passando pela edificação do Exército, hoje tombado pelo Patrimônio, é muitíssimas vezes menor do que pela estrada que liga normalmente a cidade até aquela praia oceânica.
Cogita-se na construção de um túnel, que faria a ligação. Absurdo dos maiores, pois não acredito que o Exército ou o Patrimônio impediriam uma pequeníssima estrada capaz de levar com extrema facilidade o povo que perdeu uma das mais belas praias internas, por sujeira, até as límpidas águas do oceano.



Os incessantes trabalhos de despoluição começam a mostrar resultados. Há dias em que o banho de mar é permitido em Icaraí, por exemplo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Paixão

Os namorados/Van Gogh













A travessia Rio - Niterói feita pela antiga barca mostra um panorama deslumbrante.
É vista a entrada da barra da Baía da Guanabara, o contorno da Serra do Mar, as águas ainda sujas, mas já proporcionando a volta dos botos, que nas suas evoluções, sempre encantaram os que fazem a travessia.
Um homem, taciturno, parecia envolto na leitura do jornal aberto. Seus pensamentos estavam longe. A nova colega de trabalho, moça de seus vinte e oito anos, não lhe saía da cabeça. Seus cabelos curtos, muito bem cortados, sua roupa discreta e elegante, chamando a atenção para um copo bem moldado, melhor dizendo, esculturamente talhado, não lhe saiam da cabeça.
Era sexta-feira, e ele só retornaria a ver sua nova paixão dois dias depois.
Sonhou. Sonhou com todo apaixonado. A face perfeita, o corpo muito bem moldado, onde poderia ver-se o trabalho na academia de ginástica, pintura discreta, era a mulher apaixonante.
Tinha uma companheira, agora inexpressiva. Três anos de convivência amorosos intensa, agora ameaçados pela estranha presença. É comum isso.
Não era um experimentado com este tipo de conquista, que iniciou mal.
Na sua mente, só pensava em vê-la o mais breve possível. Sonhava com o rosto lindo, a pele parecendo com a dum bebê, as pernas maravilhosas. Não deu ouvidos a Zélia, uma colega e amiga de anos. “Cuidado com esta! É carreirista”.
O jornal continua aberto, sem ser lido. A paisagem maravilhosa permanece.
O que não sabe, desconhece completamente, é que sua apaixonada passa em lugares distintos, como Búzios, Angra e hotéis de alto luxo, no Rio de Janeiro mesmo, está em companhia do seu superior, do qual ele é assistente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O veleiro Trismus

Trismus












Até o ano de 1972, mais ou menos, estava ancorado no Iate Clube do Rio de Janeiro um veleiro estranho, de ferro, material que não é empregado na construção destes barcos a vela.
Amarelo e de dois mastros, sua tripulação era tão estranha quanto ele. Bebiam ah! Como bebiam aqueles tipos que pareciam ter saído de alguma história de piratas ou navegadores antigos. Todos, sem exceção, eram estrangeiros das mais diversas nacionalidades. Não me recordo se eram oito ou mais barbudos fortes e queimados, sempre com um copo na mão.
Haviam dado a volta no planeta várias vezes, e quando estavam a bordo do Trismus, parecia ficção. Um deles lembro bem, com longa cabeleira ruiva e encaracolada, subia na gávea – isto mesmo, o veleiro tinha gávea – e punha-se a tocar um estranho instrumento de sopro. Convidavam muita gente, falavam o português com desembaraço e ao som da estranha buzina passeavam pela baia da Guanabara e proximidades.
Som forte, Sol forte, bebidas fortes e mulheres bonitas, todas convidadas. Não, não pensem mal! Muitas delas estavam com os seus namorados, a coisa era passeio e farra mesmo, na mais inocente, louca e inacreditável forma de distração.
Que a gente do mar bebe, todos sabem. Que gostam de mulheres, igualmente. Mas completamente varridos como os tripulantes do Trismus, ninguém do mundo do iatismo conheceu. Estavam ancorados no Rio há três anos. Além das mais variadas batidas que sabiam fazer e marcas de cachaça que conheciam, todos eram bons batuqueiros. Nenhum deles era brigão ou conquistador. Tirando alguns pecados cometidos sob o efeito do álcool, nada desabonava a conduta de qualquer deles.
Faziam trabalhos no próprio clube, para sobreviverem. Pintura de barcos, reparos elétricos, limpeza de cascos das embarcações que ficam no mar, poitadas e recebendo todo o tipo de cracas, inclusive mexilhões, os doidos e simpáticos marinheiros iam desfrutando os prazeres da Cidade Maravilhosa, falando qualquer idioma. Segundo um deles mesmo me contou, estavam no mar há dezoito anos. Conheciam o mundo, mas encantaram-se com a costa brasileira, que já haviam navegado toda. Quatro mil milhas marítimas, cerca de sete mil e quatrocentos quilômetros.
Como não existe marinheiro que acabe em terra firme, num dia ensolarado o Trismus e seus tripulantes foram-se. Toda vez que passava pela bóia onde ficou poitado, sentia saudades do velho veleiro de ferro, dois mastros, gávea e cor amarela berrante. Fazia parte da paisagem.
De vez em quando, mandavam notícias dos mais diversos lugares do mundo. Um dia, elas cessaram. Velejadores famosos do mundo inteiro conheciam o Trismus e seus tripulantes. Não sabiam dizer nada a respeito.
Até hoje ninguém sabe o que aconteceu. Segundo muitos, o Trismus naufragou numa tempestade no Oceano Índico, e Netuno toma conta tanto dele como dos seus marinheiros.


Os fatos narrados nesta crônica são reais.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A moça do parque

Moça













Inventam muitas histórias engraçadas neste mundo.
Talvez algumas sejam verdadeiras, talvez não, nunca se sabe onde mora a verdade, aquela que todos procuram e poucos encontram.
O fato é que numa cidade grande, e aqui não se diz qual, havia um parque de árvores frondosas, brisa fresca, lago e um pequeno bosque.
As mães levavam a criançada para brincar e tomar Sol. Casais de namorados sentavam-se nos bancos e trocavam confidências e carinhos. Mas o bosque não era muito frequentado. Estava quase sempre deserto.
Segundo dizem, uma bela moça abriu um romance, sentada num banco perto do bosque e ficou absorta na leitura agradável.
Um rapaz de excelente aparência, muito bonito mesmo, sentou-se num banco próximo e ficou olhando. A moça percebeu de imediato, e reparou na beleza do espectador desconhecido. Este, calmamente, fez um gesto e se encaminhou até a leitora.
Sendo moça de cidade grande, naturalmente que permitiu que o jovem sentasse ao seu lado, e logo estavam conversando. O livro foi para dentro da bolsa grande.
Não se sabe o que falaram antes. Sabe-se que a moça estava encantada com o seu admirador.
- Vamos dar um passeio neste bosque, Regina?
- Prefiro ficar aqui.
- Conhece o bosque?
- Já fui uma vez. Tem árvores muito altas, é um lugar bonito.
- Ora, eu não conheço. Você poderia guiar um pequeno passeio.
- Não, Sérgio. Afinal eu não o conheço direito. Vamos ficar aqui.
Sentiu seu braço ser agarrado com força. Tentou resistir mas viu que era impossível, e o rapaz mostrou algo que estava debaixo da sua camisa. Parecia uma arma.
- Vamos, ou pode acontecer coisa grave.
Não tendo alternativa, pois não queria levar um tiro e ao invés de morrer ficar tetraplégica como uma conhecida, obedeceu. Qualquer que passasse diria que eram namorados.
Já bastante próximo do centro do bosque, o rapaz jogou-a por terra e ali mesmo consumou o ato que pretendia. Por incrível que possa parecer, não machucou Regina, que só não atingiu o prazer pelo susto e pelo medo. Sofrera uma violência, mas não foi machucada, nem agredida.
Sérgio, se é que era este mesmo o nome dele, desapareceu.
A jovem Regina recompôs suas vestes. Chegando em casa, contou o fato só para a mãe, que achou melhor não colocar polícia no meio. A filha iria sofrer as consequências.
Regina contou o ocorrido a Telma e Cristina, suas amigas de longos anos.
- Era mesmo bonito, Regina? – indagava Telma, a mais atirada.
- Era lindo! Cheiroso e gentil. Pediu desculpas, antes de ir embora.
- E não machucou você?
- Não fez nada mais do que queria fazer. Parecia um príncipe encantado.
O diálogo continuou por muito tempo. Mas aconteceu um fato estranho no parque.
Sempre tem uma moça sentada no lugar onde Regina estava. E como ela, lendo um livro...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Perto do mar

Namorados/Google












Estavam sentados num banco de madeira, local pouco escuro, o que permitia beijos e carinhos mais audaciosos. O clube náutico era conhecido.
- E agora?
- Agora é arranjar uma solução que não liquide com a gente.
- Como vou dizer a ele?
- Dizendo, ora. Ele vai saber logo. É médico.
- Mas eu não quero perder você!
- Não vai me perder. Nem depois de morto.
- Do jeito que você fala, tudo parece muito simples.
- E não é? Onde está a dificuldade?
- A dificuldade, querido, é que nem você é todo meu, nem eu toda sua.
- Vamos ser sempre um do outro.
- Como? Eu não tenho você, não é o meu homem.
- Não sou teu homem? E este neném na sua barriga?
- Não fala!
- Por que deixar de falar numa coisa dessas? É nosso.
- Por isso mesmo. É nosso e você não vai ser o pai dele...
- Eu sou o pai dele. Mais cedo, mais tarde, todos vão saber.
- É, todos. Meu marido, sua mulher, meus pais. Sou a puta da vez
- Puta? Acaso tem outros homens?
- Tenho você!
- E seu marido...
- Meu amor é você. Está cansado de saber disso.
Um longo beijo juntou os corpos que se amavam. Era linda, lábios carnudos, boca bem feita, olhos penetrantes, cabelos dourados. Ficara grávida no primeiro encontro. No momento, sentia os seios dela contra o seu peito, sua pele macia, segurava a cintura bem moldada.
Era preciso ir embora. Ela não podia chegar tarde em casa, embora o marido estivesse trabalhando.
Ele, porque afinal não se leva tanto tempo assim preparando um veleiro para sair no dia seguinte.
Tem muitas coisas que desagradam. Uma delas é esta situação, que para eles, um dia teria fim. Viveriam juntos. Conversariam sem olhar o relógio, bebendo um vinho, trocando carícias, vivendo o sexo.
Sonhos. Sonhos e amor. Impossível viver sem eles.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Girassóis

Marinha/ Castagneto











O antigo bairro de Gragoatá, na Vila Real da Praia Grande, guarda segredos antigos e histórias misteriosas.
É conhecida a história de que Dom João, no Brasil ainda colônia, foi um dos primeiros cidadãos a ter no prosaico bairro uma casa. Sofria, segundo consta, de moléstias da pele, provenientes da falta de banho. Seu médico particular, naquela época um verdadeiro faz-tudo, recomendou que o paciente tomasse frequentes banhos de mar. Esperto, este cura. Através de um conselho honesto e eficaz, conseguiu com que o pai de Pedro I ficasse salvo da sua moléstia.
Ainda segundo o que se conta, a primeira casa ali construída era dele. Dom João teria sido o primeiro morador do bairro antigo e simpático, até hoje.
Dizem que ficou curado da moléstia; afinal banhos de mar de água limpa, Sol e alimentação saudável, nunca fizeram mal a ninguém.
O antigo bairro, todo calçado de pedras e mostrando construções antigas, guarda seus segredos. As casas impressionam. Muitas são seculares. O bairro encanta.
Local onde está situada a Universidade, seus frequentadores são simpáticos, tanto professores como alunos. Gente assim dá vida a qualquer local. Surgem restaurantes cuidados, com boa comida e preços bem razoáveis, embora exista o restaurante do campus.
Foi neste antigo lugar que aconteceu um fato estranho. Numa velha casa, muito bem conservada e com um canteiro grande de girassóis, um professor de Física, conhecido e respeitado pelos alunos, passou por experiência inusitada.
Muitos alunos moram nas repúblicas do lugar. Estudam e estão bem próximos às salas de aula. Reúnem-se sempre, em algum bar que acomoda violões, flautas e cantadores. Não existe reclamação de algum vizinho. Não havendo abusos e a cantoria sendo sempre agradável, não há incômodos. Quando está calor, a velha praça serve de ponto mais acolhedor. Casais se beijam, carícias são trocadas, enquanto os seresteiros expurgam suas mágoas.
Todos ali conheciam o velho barbado que não largava o seu charuto. Era uma figura constante nestas reuniões de congraçamento. Sempre sozinho e sorridente, foi abordado um dia por um aluno mais curioso e amante da pintura.
Conversaram bom tempo. O homem era visto de quando em vez, na casa do jardim de girassóis, flores que de imediato fazem pensar em Van Gogh.
- Gosta dos nossos encontros, amigo?
- Muito. Vocês deram vida nova a um lugar que estava moribundo.
- E você, o que faz?
- Pinto paisagens.
- Vende bem?
- Dá para não passar fome. - O rapaz, quieto e sem fazer comentários, cumprimentou o homem e foi-se embora. Reconheceu o pintor Castagneto, famoso marinhista falecido em 1900. Pintou toda a orla do antigo bairro. Não era o habitante da casa dos girassóis, talvez plantados em homenagem a Vincent. Muito menos, professor universitário.
O mundo tem histórias assim. Não acredita?
Um dia você vai acreditar...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Diante a Morte

Capuchinho

















Os pensamentos que aquele homem experimentou, diante da morte que se aproximava por sua decisão, eram terrivelmente tumultuados.
Aborrecido com a vida em si, já não ligava mais para o mundo que o cercava. Não tinha doença terminal; a família sempre foi companheira. Muito amiga e solidária com o já velho homem que gostava de ler no parque próximo.
O primeiro local que pensou para por termo à vida foi ali. Desistiu tão logo viu as crianças brincando. Um tiro faz muito barulho. Alguma criança iria ver, seria um choque.
Fechou o livro que fingia ler, enquanto preparava mentalmente a famosa carta do suicida, quando este a faz. Ninguém era culpado, de nenhuma forma não havia pessoa ou pessoas que o levassem ao gesto extremo. Doaria todos os seus órgãos que sobrassem do estrago do tiro. Resolveu que hoje seria o seu dia, que encerraria a passagem pela terra já completamente sem graça.
Caminhou lentamente, os pensamentos mais negros cada vez tomando conta da sua mente. Sim, a arma era boa. Não iria falhar no momento exato. Dizem que feito o disparo, ainda que no coração, estraçalhando os ventrículos principalmente, a morte não é imediata. Ele sabia disso. Tinha um medo. Medo terrível de ainda ficar consciente depois do disparo, e arrependimento de tal gesto. E se ele quisesse viver? De nada mais adiantava, a morte era certa. Este fato deve piorar muito a angústia de quem vai matar-se.
Chegando a casa, tomou um banho ligeiro. Não queria ser lavado por outrem, sem saber que isso aconteceria na autópsia. Examinou a pistola e ficou olhando a máquina de aço, negra, feia, atemorizante.
A carta, pensou. Não a redigira. Só de bermudas, começou a despedida. Interessante, a mão não tremia.
Súbito, um barulho infernal na rua. Choque de carros, gritos, desespero. Olhou o que se passava da janela. Quando viu os ferros retorcidos, lembrou-se do que estava para fazer. Abriu a porta correndo, os dois automóveis estavam amassados e o cheiro de gasolina era forte. Olhou o chão. Gasolina por toda parte, e uma criança presa nas ferragens gritava. Ele gritou mais alto, pedindo aos porteiros dos prédios próximos que usassem as mangueiras de lavar calçadas, proibidas mas ainda usadas, e dessem um banho longo nos automóveis e na rua. O perigo de incêndio era grande. Imediatamente a água jorrou pelos dois automóveis.
O menino que berrava, conforme ele pode constatar, aparentemente estava só com um corte na testa. Sem muito esforço, ele o retirou e levou para a calçada. Parecia simples, só o sangue assustava. Cortes na testa costumam sangrar muito. Rua cheia, ninguém morto e médicos que moravam nas proximidades já examinavam os outros feridos, aguardando a ambulância dos Bombeiros. Uma senhora, de acordo com um médico, estava com a costela quebrada.
O barulho não tinha sido tão grande assim, e os ferros retorcidos só foram visto pelo escritor da última carta, que logo voltou a casa, queimou-a e guardou a arma.
Ele hoje é monge capuchinho. Segundo me disse seu superior, já convenceu muitos e muitos que estão desesperados, assim como um dia ele esteve, a procurarem ajuda, além da que ele mesmo fornece com eficácia e ardor.
Anda feliz, barbado, com suas mãos fortes e santificadas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Criançada

Criançada












- Entra pra dentro, Zébinho. Tá chovendo muito.
- Já vou vó. Vamos enterrar a cobra.
- Que cobra, menino?
- A que nos matamos agora. Os gatos e cachorros podem comer.
- Tá morta mesmo?
- Mortinha. Tenho mira com minha atiradeira, vó. Foi na cabeça.
- E que raio de cobra é esta?
- Jararaca. Menos uma.
Enterraram a maldita. Tudo isso se estava passando num lugarejo distante. Nos confins do sertão mineiro. Zébinho era o apelido de José Eusébio, uma espécie de chefe de um bando de meninos. Todos encapetados, mas no bom sentido da palavra.
O lugar era passagem de trem, carregando minério de ferro. Como a parada era obrigatória, nasceu o vilarejo, com bar e restaurante. Umas trinta casas, um riacho de respeito, água pura e cristalina, por todos apreciada. Na fonte, jorrando da pedra, dizem que fazia milagres. A água pura faz milagres mesmo. Tomada em jejum, um copo, encarrega-se de limpar o organismo. Dois litros ao dia, e não existe mal-estar, de coma-se ou beba-se. Verdade é que no lugar, por mais simples a refeição, é feijão, arroz, couve fatiada fininha, aipim e carne picada. E a farinha com torresmos... Deliciosa!
Se exposta a algum entendido da área de comer, a carne seria parte do cardápio duas vezes semanais. Mas qual! Aqui não tem disso não.
- Zébinho, vai tomar banho. Você é lama pura!
- Eu sei, vó. Mas vou pegar umas mudas de roupa, vou tomar banho na cascatinha.
A chuva tinha abrandado. José Eusébio estava como nasceu. Limpo de corpo e alma, e para os que acreditam, batizado. A água, saindo da pedra, confirmou o batismo, e limpou a lama de um menino, cujo reino dos céus foi a ele prometido.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Apenas pensamentos

Parque/Google














Estava sentado com um livro aberto. Bonito lugar, um parque florido.
Não lia; estava pensando nas palavras que ouvira. Pensava e nada concluía. Nem sempre somos donos do nosso destino. O amoroso, nem é bom pensar. Ao mesmo tempo em que olhava o beija-flor, com o seu voo diferente, ela estava presente, pelo menos no pensamento. O pássaro era visto, mas a alma estava longe.
Recebera o comunicado. Grávida. Ao mesmo tempo em que se alegrou, sabendo a amada estar vivendo um dos momentos mais felizes da Vida, seu íntimo derramou lágrimas. O filho não era dele, ela não havia se casado com ele, estava longe, distante, inatingível.
O beija-flor voou para longe, um vento fraco virou a folha do livro que estava no seu joelho e o homem cuja face contraída, os cabelos já embranquecendo e portador de expressão enigmática, continuava no seu devaneio. Não, aquilo tudo não deveria ter acontecido.
Algumas crianças que brincavam perto viam a figura com a barba por fazer.
- Moço, o livro vai cair.
Já havia caído. O pirralho pegou rapidamente e entregou ao dono, a esta altura cercado por infantes que podem sim, admirar uma menina da idade deles. Enganam-se quem pensa que a criança não tem sentimentos. Alguns se apaixonam como se adultos fossem. Mas não pensam em filhos, não chegam a tanto.
- Como se chama, rapaz?
- Yuri.
- Como?
- Yuri. É Jorge em português. O nome é russo.
- Eu sei, Yuri, eu sei. Seus pais são russos?
- Não. Minha mãe gosta desse nome. Aí botaram o nome em mim.
Yuri. Haviam combinado que se tivessem um filho, o nome seria Yuri, dariam sozinhos a volta ao mundo num veleiro, morariam no espaçoso apartamento dele, arquiteto e engenheiro naval, que havia montado uma fábrica de veleiros de fibra de vidro, depois substituída por carbono, nos fundos de uma velha casa. Sonhos... Amor e sonhos. O que seria do mundo não fossem eles?
Fato que não impediu uma gota de lágrima na grama macia.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Beleza

Ana Arósio/G1


















- Mas que coisa horrível. Cruz-credo, parece assombração.
- E a coleguinha que vai ao lado?
- É mais bonita, veja os cabelos. Sedosos.
- Olha aquela lá! Bonita demais, como é boa!
Ficaram os dois patetas discutindo beleza feminina no Sol não muito forte da praia. Claro, a praia é lugar ideal para este tipo de apreciação e julgamento. Mas este último como? A cada dia que passa o padrão de beleza feminina muda. Ditadura dos tempos atuais. Beleza... Onde se encontra?
Vinicius dizia “que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental.” Ele gostava de uma barriguinha. Hoje seria malhado!
Um homem velho que ouvia a discussão dos entendidos em beleza das mulheres falou em voz que poderia, como foi, ser ouvida.
- “Só a beleza salvará o mundo.”
- Quem disse isso, amigo?
- Um tal de Fyodor Dostoiévski. Conhecem?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ameaça americana

Navio- Aeródromo








A permissão da Colômbia em autorizar forças dos Estados Unidos no seu território é um alerta para todo o continente.
Imediatamente, os bons serviços militares norte-americanos foram oferecidos para proteção de não se sabe quais países do nosso continente sul.
Chile e Brasil repudiaram a idéia de pronto. Marines e Rangers não são bem-vindos, pelo contrário.
Nosso vizinho Hugo Chávez nem consultado foi, por razões óbvias. Detesta e é detestado pelo governo dos EUA.
Perigosa, esta atitude americana. Demonstra claramente em instituir na América do Sul, várias bases, como em Guantánamo, Cuba, onde reinam com absoluta calma. A base, hoje transformada também em prisão de supostos inimigos dos Estados Unidos, que vivem acorrentados e sofrem tortura, lembrando Auschitz ou Dachau.
O Brasil começa a sofrer pressão. Reativada e modernizada, a Quarta Frota estende seu poderio pelo Atlântico Sul. Pretende resguardar o pré-sal, que foi objeto esta semana – estou escrevendo em 6/8/2009 – com interesse declarado de ajuda com tecnologia para exploração, quando se sabe ser a Petrobras uma das mais competentes empresas exploradoras de petróleo em águas marítimas profundas.
Cientes de que estão nos estertores da soberania, que passará para a China, atualmente a nossa maior parceira comercial, o governo americano está dando suas últimas cartadas. Que podem ser perigosas.
O povo e o governo brasileiro mantêm boas relações de amizade com os Estados Unidos. Seria muito bom que assim continuasse, e não o contrário.
Como democrata convicto, apenas penso que os peregrinos do May Flower, que chegaram ao território norte-americano com a idéia de construir um país livre, sua casa, seu lar, devem estar desapontados com as políticas dos governos da terra que construíram.
“Desde a Segunda Guerra Mundial, todos os presidentes americanos iniciaram pelo menos uma guerra.” - Mikhail Gorbatchev
Obama não escapa. A do Afeganistão, bem camuflada, é dele.
Enfim, God save the America.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Não basta talento

Estúdio

















Quando se dedica à arte, o homem não pode apenas ter talento.
O conhecimento da técnica é indispensável, seja no ramo artístico que for. Assim, um pintor deve saber cuidar dos seus pincéis, limpando-os a cada final de trabalho, o escultor cuida do seu cinzel. O trabalho deve obedecer a um ritual imutável. A arte é exigente.
Na literatura, que me vou prender, são os fatos que devem ser levados em consideração: clareza nos textos, gramática cuidada, linguagem direta e concisa. O gongorismo é ridículo. Evitar ao máximo citações, salvo quando se escreve sobre matéria técnica. Costumam cansar e transmitir o pensamento alheio. Os textos assim são sempre fracos. Mostram a incapacide de quem escreveu. Não sabendo expor suas idéias com clareza, o autor confia nas suas citações. Ora, o pensamento não é dele, e, portanto nada cria.
A autencidade, sempre baseada em fato real ou imaginário de quem escreve, deve estar acima de tudo. E temos o texto bruto.
Ora, a pedra por mais rica ou pobre que seja, não lapidada continua bruta.
É o que acontece. Terminado um texto, ele deve ser lido e relido com cuidado e carinho. Se o julgamento é bom, trata-se de limpar o quanto antes todo o corpo da matéria. Repetições, inevitáveis erros de digitação, e outros defeitos, devem ser eliminados.
E a etapa próxima é a mais delicada. Trabalhar o texto, usando palavras ou frases mais adequadas. Não deixar que o leitor se perca com derivações, nem que tenha que ficar consultando dicionário. A linguagem direta e simples convence mais do que a rebuscada, leva o leitor, enquanto que o gongorismo o afasta.
Como autores nacionais, os melhores exemplos são Jorge Amado e Cecília Meireles. Guimarães Rosa e João Ubaldo são excelentes, mas cada um tem sua opinião. Os estrangeiros que verdadeiramente marcaram época são Shakespeare e Hemingway, homens que mergulharam em definitivo na alma humana, entendendo a mesma com profundidade.
Seus leitores logo percebem o texto rico e sem problemas para ser entendido.

Li certa vez, não me recordo onde, que um texto bonito pode ser comparado a bela mulher. Uma maquiagem bem feita, e ela está mais fulgurante.
Trabalhar o escrito com carinho, aprimorando-o, usando palavras e frases com todas as suas expressões possíveis, é imposição; todas as artes exigem paixão dos que nelas se dedicam.

domingo, 9 de agosto de 2009

Face Marcada

Ernest Hemingway


















A face marcada pelo tempo... Quanta coisa esconderia, era segredo não revelado. Quem conhece a Vida, com suas alegrias, percalços, sucesso, sofrimento, e todos os outros acontecimentos do dia-a-dia de um passar de anos.
Cada qual carrega dentro de si sua história, que pode ser de altos e baixos, tranquila ou mesmo atormentada. Os traços ficam marcados na face, não há como evitar. Os lábios podem exibir um belo sorriso, mas o verdadeiro é demonstrado pelos olhos. Não há como fugir.
Era assim o homem sentado na cadeira de vime, barba branca e cabelos cinzentos, vestido como a temperatura local exigia: calças de brim rústico, mas frescas. Camisa branca de algodão leve e sandálias como as que usam os franciscanos, o que ele era na alma, mas não da Ordem. Escrevia num bloco comum sem cessar, parando algumas vezes para não se perder.
O grande copo de uísque já estava pela metade. Quando terminasse, pediria outro e não mais. Escrever ou praticar qualquer outra atividade não combinam com mais de duas boas doses de destilados, e ele sabia disso. As palavras fluíam.
O vento, vindo do mar, além de refrescar a orla, trazia um cheiro de sal, de Vida, de frescor da noite que chegava, quando já as primeiras estrelas, as de maior brilho, eram avistadas por olhos experimentados. Passado um pouco o pôr-do-sol, o crepúsculo vespertino nos permite ver as estrelas de maior magnitude. Mas o espetáculo mais belo de ser visto é o pôr-do-Sol mesmo.
Caindo pouco a pouco, começa a ficar avermelhado, até atingir uma cor que permite ser olhado sem perigo para o homem. Desce mais rápido, e começa a mergulhar no horizonte, entrando na água do mar, e sumindo da nossa visão em pouco tempo. A claridade é muito grande, e o fenômeno indescritível. Sempre o homem que estava sentado na cadeira de vime, e parava de escrever, jamais deixava de apreciar o mergulho do astro.
Quando acontece este fato, tanto o nascer como o pôr-do-sol, quem os assiste fica maravilhado; quase todos os fatos acontecidos não têm tamanha importância e beleza. É um presente que nos é dado a cada dia de existência.
Terminado o grande mergulho, o homem que escrevia se foi. Em passos lentos e firmes, desapareceu do lugar, levando seus escritos.
Os locais garantiam que era Hemingway, mas o mestre já havia falecido há muitos anos. Eu também o vi, como ao belo Sol sumindo no horizonte.
Estou delirando?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Festa de São João

Fogueira de São João












Lembro que quando era menino, fui à primeira festa de São João, no colégio.
Foi a primeira vez que dormi depois das nove horas da noite; os folguedos estavam animados. Meus pais tomavam conta de um pirralho que demonstrava futuro de moleque danado, sem ser desrespeitoso, o que aconteceu realmente.
A festa de São João... Tinha tudo, ao ar livre. Enfeitada com bandeirinhas, fogueira acesa, delegado tomando conta de tudo, padre para o casório, barraquinhas de pescaria, jogo de argolas. O quentão era só para os adultos, mas meu pai deixou eu provar o dele, um cheiro só, achei gostoso. E comidas, que fartura! Milho, aipim frito ou cozido, ao qual os festeiros adicionavam manteiga, amendoim e os doces mais diversos. Lembro bem do doce de abóbora e o de batata-doce. E a canjica? Com canela, tem gente que come duas vezes e ainda ataca o resto das iguarias.
Nas grandes cidades, tirando as escolas, não se vê mais a comemoração popular, de inteiro congraçamento. Ela sobrevive nas escolas, algumas igrejas e poucos clubes. Mas basta sair dez quilômetros fora do perímetro urbano, que aparecem fogueiras onde a batata é assada usando um espeto de pau.
Calça velha, botina surrada, camisa xadrez, chapéu de palha – quem tem isso hoje? – fazem parte da indumentária obrigatória. As moças com vestido de chita, compridos até os tornozelos, cara pintada de ruge, tranças e olhar folgado. Quantos namoros não começaram numa festa de São João?
Não vou a uma festa junina há muito tempo. Muito tempo mesmo. Juntava muita gente, agregava pessoas desconhecidas, fazia amizades. Uma tradição que não se perdeu, mas como acender uma fogueira grande num edifício de cidade grande? Os moradores mais chatos vão chamar a polícia, mesmo se a festa estiver sendo feita no salão próprio. Muita gente nem sabe que hoje se cultua o santo que batizou Jesus. Conto da carochinha para muitos, mas pode conferir nos Evangelhos. Está escrito bonitinho lá.
São valores que se perdem, enquanto surge a balada, o ecstasy, bem mais interessantes do que música da roça, sorrisos abertos, relacionamento, amor e alegria.
É pena. O azar é nosso. Mas como hoje não é dia de reclamações ou tristezas, já vou preparar uma cachaça com mel, já que rapadura não se encontra em qualquer supermercado.
Saúde, gente! Viva São João!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Tradição brasileira

Zé do Norte


















Gosto e estudei muito a mais autêntica forma de expressão do povo, quando faz poesia: a trova. Já falei no assunto, mas não canso. Trovador famoso foi Zé do Norte, autor de duas trovas cantadas por Vanja Orico que ficaram imortalizadas no filme O Cangaceiro, obra celebrada do cinema nacional. Gilberto Gil também canta as duas, encaixando muito bem em música do seu repertório.

"Me arrenego de quem diz
de que o nosso amor terminou,
ele agora está mais firme
de que quando começou."- Zé do Norte

"Os olhos da cobra verde
só agora que reparei,
se tivesse visto antes
não amava quem amei."- Zé do Norte


Zé do Norte era o apelido de Alfredo Ricardo do Nascimento (1909-1979), nascido em Cajazeiras, PB. Cantor, compositor, poeta, folclorista e escritor é um dos trovadores brasileiros de maior expressão. Faleceu no Rio de Janeiro.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Aldeia de pesca

Aldeia de Pescadores / di Cavalcanti













Tão logo surgem os primeiros raios de Sol, anunciando o dia, as casas simples, construídas perto uma das outras, demonstram movimento.
A fumaça indica que o fogo está aceso. Fogão de lenha; o gás é insosso, não transmite sabor ao feijão catado e escolhido, de molho na véspera. A velha panela de barro, curtida antes de ser usada com toucinho bastante esfregado na sua parte interna, e levado ao fogo até a camada penetrar no barro, ritual de três dias, no mínimo, começa a ser preparada para ir para o fogo. A do café, já tem água fervendo.
Não demora e vai sair um odor que o vento, ainda terral, leva ao oceano, partes distantes, um delicioso convite.
Está na mesa. Café, pão feito em casa, socado, batido, amassado e feito com muito carinho, como todo o resto da comida. Mortadela e margarina, dura mais do que manteiga. Alguns homens tomam meio copo de cachaça, depois da farta comilança. Se tiver banana, melhor não misturar com a branquinha que Aristeu produz com carinho. Lembranças do tempo em que trabalhou numa fazenda famosa, lá pelos cantos do sertão. Alambique de barro, coisa rara. Não envenena a maldita com os inevitáveis sais de cobre, que enjoam e dão dor de cabeça.
Estão prontos. Canoas e barcos robustos vão ao mar, arrastados pela areia afora, pela força dos pescadores. Rede tratada, forte, no caldo da aroeira, que transmite a cor siena queimada. Vão com fé. Todos já rezaram, pedindo a proteção de São Pedro.
E é rede no mar, canoas cercando, canoas puxando, peixes bons, outros nem tanto, depois de puxado o arrastão. Escolhem alguns para levar para casa. Muitos outros o carro frigorífico leva e paga na hora ou no fim da semana, depende do trato.
É o cotidiano de quem trabalha no mar, garantindo o nosso peixe.
Têm outros. Embarcados em traineiras, razoável conforto e muito trabalho, passam, por vezes, uma semana no mar. Trabalho duro para geralmente cinco homens, que nos asseguram tão bom alimento.
Nada parecido como os que andam de paletó, gravata, e grifes famosas.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A realidade do tempo

A persistência da memória / Salvador Dali











É muito comum encontrarmos pessoas que gostam de falar dos tempos.
A maioria sempre se refere ao tempo passado e lastima o presente. Compreende-se. O mundo atual é o da corrida contra o relógio, corrida contra o tempo. Todos têm a obrigação de serem vencedores em alguma arte ou ofício. Os saudosistas lembram o tempo do viver mais descansado, que é o certo, dos costumes da época mais rígida, que evitava um comportamento irregular, como o consumo de drogas pelos jovens, por exemplo. A vida era bem mais calma, é uma verdade. Mas tudo tem seu lado bom e o outro negativo. Nos tempos passados, um mal-estar cardíaco era uma ameaça quase fatal. Hoje coloca-se um extensor numa passagem obstruída e dificilmente a ameaça morte persiste.
Continuar com uma lista de exemplos cansa. Mas podemos notar que a vida de trinta, quarenta anos passados, seria bem melhor se contasse com os recursos de hoje. Não falo da televisão de plasma, que apresenta sempre as mesmas coisas. Levar cadeiras para calçadas e manter longas conversas, sempre com um cafezinho, licor caseiro e falar, geralmente mal, da vida dos outros, era bem mais prosaico, sem dúvida. Não vi isto, salvo em lugares do interior, que costumam guardar seus hábitos.
Depois do café, acendiam cigarros com o fumo mal lavado. Ora, é claro que todos fumavam, inclusive o médico. E tome conversa fiada, contavam-se lorotas enquanto as estrelas davam beleza ao lugar.
Hoje a poluição das grandes cidades ofusca o brilho de estrelas mais fracas, não há cadeiras nas calçadas – imagine! – e o cigarro não faz parte dos hábitos modernos, felizmente.
Os tempos mudaram, não para pior. Mudaram porque esta é a evolução da Vida, que não sabemos onde vai parar. Isto é bom. Viver o momento do aqui e agora, aguardando as surpresas futuras, agradáveis e não. É bom lembrar que Bem e mal andam sempre juntos.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A calma da noite

  Balada










Tudo silêncio. Não se ouvia a barulheira infernal das cidades.
O mundo mudou para pior, bem pior. O desrespeito pela sociedade parece ter tomado conta de tudo. Não parece, tomou mesmo.
É só aqui? Todos fazem a pergunta. Não. O mundo caminha por trevas. Estas vias obscuras parecem ter tomado conta em definitivo do poder.
É o crack amaldiçoado, o sintético químico que mata aos poucos, sem ninguém perceber. O ecxtasy arrebenta tudo, corpo e alma. Mas tem cada vez mais adpetos, que não tomando conhecimento da acumulação progressiva no corpo, usam indiscriminadamente a droga que deixa a boca seca.
É o mundo que se vive hoje, não por todos, mas por minoria que pode contagiar. Era o que acontecia com o casal que não passava dos vinte e cinco anos de idade. Bebiam água, muita água. Os sensores cerebrais haviam perdido o controle sobre o corpo.
A casa da balada permitia que tal fato acontecesse. Assim é no mundo inteiro. Parece que os jovens, especialmente os que não foram educados com carinho por pais e mães, perdem-se no aparente mundo encantado.
O mundo é assustador e maravilhoso, ao mesmo tempo. Será que é fato de hoje?
Tudo leva a crer que não. O mundo mudou. Impossível saber, se no silêncio da madrugada, estamos descansando, dormindo ou não.

Para muitos, as noites altas são feitas visando o descanso. Muitos, e não são poucos, gostam de aproveitar o período para produzir.
Suave é a noite, de Scott Fitzgerald, é um dos exemplos.
A noite é tranquila. Pode sim, pode não. Afina. É uma questão de gosto. Nada mais.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O coisa ruim

Soldado














Coisa Ruim é como chamam o capitão Callado.
Saído da Aman moço, aos 23 anos de idade, chegou cedo ao oficialato intermediário. Se era ou não parente de Antonio Callado, autor de uma das obras de vulto da literatura brasileira, “Quarup”, nem ele mesmo sabia. Mas tinha conhecimento do apelido posto, Coisa Ruim.
Havia motivos. O capitão era instrutor de combate armado e desarmado de forças especiais do Exército. Conhecia as mais variadas formas de luta; além de faixa preta de jiu-jítsu, gostava de uma pancadaria selvagem, arruaça mesmo, briga de valentões. Conta-se que um pontapé dele, deste que é dado com a sola, era um coice de cinco mulas.
O capitão Callado era homem ideal para treinar seus colegas e subordinados. O comando, logo que percebeu isto, aproveitou-o mandando como instrutor de combate não convencional, mas muito usado em todas as tropas do mundo.
Coisa Ruim não era do tipo forte malhado. Seu corpo, muito musculoso e definido, não era como os tipos idiotas que vemos hoje. Verdadeiros tanques de guerra, mas incapazes de outra coisa que não seja musculação.
Ensinava bem; seus alunos gostavam dele, mas sabiam que um leve desleixo poderia ter sérias conseqüências. O homem era bravo demais. E brabo também.
Um deles contou-me uma das suas proezas. Coisa Ruim era também famoso pelas suas atitudes que autorizam o seu apelido. Gostava de ensinar o perigo de alguém armado aproximar-se muito do inimigo, ou vítima. Se a arma estivesse muito perto, e ao alcance da sua mão, o oponente estava morto. A defesa não é difícil, mas necessita muito sangue frio e coragem.
Não se olha para o adversário; este ato vai denunciar o contra-ataque. Não faz diferença se a arma é revólver engatilhado, pistola idem, e rifle também. Um gesto rápido das mãos do agredido desvia a arma e quebra o dedo indicador de quem a aponta. Eu mesmo já fiz a experiência repetidas vezes. Nunca deu errado!
Muitos duvidam. Perguntem a um professor de lutas, e esperem a resposta. Se o atacante estiver próximo das suas mãos, é dedo quebrado, arma tomada e risco de vida, dependendo do oponente.
O capitão Callado, o Coisa Ruim, morava sozinho num apartamento de dois quartos, na Rua Siqueira Campos, Copacabana, Rio de Janeiro.
Numa fria madrugada chuvosa, uma patrulha da PM encontrou o corpo de um conhecido assaltante da área. Tinha só um tiro, na nuca. Naquela noite, a esta hora, Callado estava tomando uns chopes com amigos.
Dormiu feito um anjinho, acordou, fez o seu café e rumou para o Centro de Instrução.
Passados alguns meses, Callado sumiu. O Coisa Ruim, assim como aparece, some!
Dizem, eu não sei até onde isto é verdade, que a valentia e o sangue frio dele terminaram com o casamento de uma linda moça. Cabelos dourados, olhos de mel suplicando sexo.
Como o Bem e o mal estão sempre presentes, não sei o que aconteceu.
Mas que o capitão deu aquele tiro de 380 milímetros, a arma do assaltante, deu...

domingo, 12 de julho de 2009

O neto de Joca Ramiro

Sertão












Embora muitos não tenham lido Grandes Sertões: Veredas, do mestre Guimarães Rosa, sabe-se que muitos personagens seus existiram.
Joca Ramiro é chefe jagunço, e seu bando, poderoso. O imortal só não contou, faleceu antes disso, do seu neto, Carlos Ramiro, mas que conseguiu trocar o nome e sobrenome. Fato compreensível e natural. Ninguém quer carregar um nome tão pesado, ser conhecido como neto de jagunço que aparece no romance como um dos principais elementos, figurante de destaque.
Joca Ramiro tinha um filho. Raul, que pouco ou nada devia ao pai. Terminada a guerra de jagunços nos sertões mineiros, assentou-se numa fazenda e mantinha razoável criação de bois, quase todos comprados e alguns furtados. Enricar não teve tempo; a doença não permitiu. Mas ganhou bom dinheiro. Com quinze anos, Raul era sombra do pai, conhecia bem os negócios e a fazenda. Aos vinte anos, tomava conta de todos os negócios, enquanto o pai sofria com o reumatismo, mal podendo andar. Assim mesmo, montava e jamais abandonou o Nagan quarenta e quatro, conservado e sempre limpo, era uma das armas favoritas , o temível, o treme-terra conforme é descrito com maestria.
Até aí, nada demais. É fato costumeiro, onde as bocas permanecem caladas por cautela, os bandos não mais existem, mas os herdeiros não são menos perigosos. A boca só se abre bem para contar velhos causus, todos passados naquelas terras e proximidades. Toca a viola, muitos são bons, corre a cachaça de primeira ordem, fabricada e envelhecida lá mesmo, onde a disputa pela de melhor sabor é acirrada. Carne seca assada no braseiro, aipim, e tome lorota. Mas nada de meter-se na vida alheia: o risco é grande. Pior ainda é bandear-se de gracinhas com as mulheres. Esse não escapa.
Um velho e experimentado comprador de Carlos Ramiro, o neto do temível, o ferrabrás, quis ter um particular com o novo chefe da região. Carlos não se fez de rogado. Sabedor das astúcias do homem convidou-o a jantar. Coisa para ninguém botar defeito. Canjiquinha, feijão com arroz e torresmo, couve cortada fininha, farofa de linguiça e todas as honras da casa. Mais novo, o neto de Joca Ramiro tinha tomado o comando dos negócios.
Nesta conversa, após o jantar delicioso, não teve cantorias, nem vizinhos, nem nada. Apenas os dois, no alpendre confabulavam.
- Você não é político, Carlos.
- Qual, isto não me interessa!
- Interessa por demais. Tem estudo. O diploma comprado foi mais uma idéia formidável do seu pai.
- E daí?
- Daí que você pode ser eleito com facilidade por este povo. Deputado federal, não fazemos por menos. Além de nos defender, fica muito mais rico.
Isto faz alguns anos. O antigo deputado, hoje senador, honra o nome do avô, Joca Ramiro. É um bandido perfeito.