quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Lamparina de oratório velho

                                     

            Tinha idade.  Bem vestido e elegante, compartilhava com outros nem tão bem compostos por fora, de um lugar na gruta de pedra que abrigava uma imagem santa, num tosco altar com atraente lamparina a óleo que iluminava o local consagrado à oração e meditação.
            Era apenas mais um, dentre tantos, que procurava a gruta com habitualidade.  Misterioso lugar!  Contavam casos seguidos de curas milagrosas, sucesso no trabalho, felicidade no casamento e tantos mais.
            Tudo ali era mistério, começando pela imagem esculpida em pedra- sabão, de autoria desconhecida.  O altar de madeira muito velha, enegrecida pelo tempo, larga e pesada, suportava tanto a escultura santa como a lamparina, sempre acesa e mantida cheia de óleo por religiosos desconhecidos.  Uns diziam ser frades capuchinhos, outros, carmelitas descalços.  Uma terceira afirmativa jurava ser obrigação de pai de santo com muitos anos de consagrado.
            A gruta irradiava tranquilidade e harmonia.  Não é escura, por não ser profunda.  Uma escavada na pedra, só.  Feita pela Natureza.
            O homem velho, paletó e resto da indumentária não tradicional, por não ser escuro como manda a regra antiga, mas ser cor de barro, brilhante e discretamente claro, fazendo igualdade com a calça bem cortada como o seu complemento.  Camisa de gola redonda cinza, combinando com seus cabelos, cinto e sapatos marrons.  Sua expressão demonstrava estar esperando alguém ou alguma coisa, embora estivesse de joelhos e orando.  Cabeça baixa que de tempos em tempos levantava para mirar a Santa.
            Uma senhora de cor negra, bem mais idosa e com flores na mão ajoelhou-se ao seu lado.  A luz da lamparina mostrava os sulcos no seu rosto, marcas do tempo.  Falou algo com o homem.  Como resposta, recebeu um afago na cabeça esbranquiçada.  Pouco depois, trocaram algumas palavras.  Pela aparência de ambos, uma conversa muito calma e curta.
            Num repente, o homem caiu e se o tombo não foi grande era porque estava ajoelhado.  Não se mexeu mais.  Fora-se para sempre.  Havia dito para a senhora negra que esperava por parentes, foi o que ela disse aos que cercaram o corpo inerte.  Os parentes que tinha estavam mortos, pai, mãe e irmão.
            Interessante é que naquele dia, o ritual de colocar óleo na lamparina não foi feito, ninguém sabe a causa.  No exato instante em que a lamparina apagou, o velho homem partiu para o encontro marcado, segundo dizem a senhora negra e muitos outros que frequentam o lugar.
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Publicação recente de livro com o mesmo nome.
Link da Bookess:  http://www.bookess.com/read/14614-lamparina-de-oratorio-velho/  

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Livro digital

                                      

            Não posso deixar de conhecer, ler e publicar, a modalidade mais atual que temos, o livro digital.
            Certo que ele não veio para substituir o velho e tradicional impresso em celulose, como o jornal jamais será trocado pela informação da internet.  Todos têm a sua função e importância.
            No meu trabalho diário sempre lidei com o ato de escrever.  Como advogado, procurador do município de Niterói e escritor amador, que sonhava com o Prêmio Walmap, o maior da literatura brasileira, patrocinado na época pelo Banco Nacional de Minas Gerais, com publicação em grande escala dos vencedores, além de expressiva quantia em dinheiro paga aos escritores.  Para dar um só exemplo, um deles foi Lêdo Ivo, com “Ninho de cobras”.  Não temos mais nenhum hoje que se iguale.  Para se ter uma ideia melhor, o último júri do concurso era formado por Guimarães Rosa, Antônio Olinto e Jorge Amado.
            O livro digital veio para ficar.  Apanhei contos e crônicas, fiz uma seleção um tanto aleatória e enviei para a editora.  A aprovação é rápida.  Quem vai dizer se tem ou não qualidade não é um avaliador, quase sempre suspeito, de uma editora invariavelmente comprometida com o dinheiro, suspeita, suspeitíssima.  Quem julga é o alvo da publicação, que geralmente não erra.
            “Contos e crônicas selecionadas”, num total de dezenove peças contidas em oitenta e uma páginas, pode ser lido sem nenhum pagamento, no site da editora.  Querendo comprar o livro físico, basta solicitar na mesma.
            O link para a leitura é http://www.bookess.com/read/14373-contos-e-cronicas-selecionadas/ .   

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Chopin

        

            Todos célebres da vida pública costumam carregar histórias e casos interessantes da sua existência, nem sempre verdadeiros, mas fantasiados por obra dos biógrafos e do próprio povo.
            Fréderic François Chopin, polonês de nascimento, mas que viveu sua gloria em Paris, França, não escapou do costume tradicional.  Muitas histórias são contadas sobre o músico, grande parte delas envolvendo sua união com George Sand, pseudônimo masculino da escritora Amandine Aurore Lucile Dupin.  Voluntariosa e conquistadora, George foi ligada também ao poeta Alfred de Musset, entre outros amores tumultuados.
            Dono de uma técnica até hoje considerada espantosamente perfeita para tocar piano, a obra de Chopin é muito grande e seus concertos nos famosos templos mundiais da música são citados como verdadeiros acontecimentos históricos.
            Chopin teve muitos amigos em Paris, entre eles o próprio Musset.  Franz Liszt, o mais notável pianista de todos os tempos era um dos seus próximos, bem como o pintor Eugène Delacroix, o mais expressivo da época romântica.
            Conta-se que determinada ocasião Chopin estava no ateliê de Delacroix, em conversa animada com o autor de “A Liberdade Conduzindo o Povo”.  Era conhecida a habilidade do pianista no desenho de retratos a lápis, desde seus primeiros anos. Chopin enquanto conversava estava aparentemente entretido com o material de pintura de Delacroix, quando este lhe pediu que mostrasse sua capacidade com o papel e o lápis.  O compositor riu e mostrou um retrato que tinha acabado de fazer do seu amigo, que ficou deslumbrado ao ver a perfeição do desenho.  Enquanto conversavam, Chopin estava trabalhando no retrato do grande mestre da pintura.
            Verdade ou não, é certo que eles eram amigos e Chopin foi mesmo na mocidade um excelente retratista.  Se fez o desenho de Delacroix, nunca ninguém vai saber, pois até hoje o mesmo não foi encontrado.   

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Petróleo



            Dizem os investidores e entendidos em negócios, que o primeiro deles é o petróleo; o segundo, o petróleo novamente, e o terceiro o petróleo mais uma vez.
            Pode-se imaginar que o fato não é uma brincadeira.  Bastar fazer uma avaliação de quantos veículos estão andando no mundo, neste exato momento.  Se não usam gasolina, o combustível é óleo diesel.  Ambos derivados do petróleo, o que mostra a veracidade da afirmação corriqueira no mundo dos negócios.
            Até bem pouco tempo, a Petrobras, resistindo aos desmandos na sua condução e cabide de empregos muito bem remunerados, além de ser a maior empresa brasileira, era também da América Latina.  Não é mais.  Internamente, a cerveja é mais importante, leia-se AmBev, e no nosso continente o petróleo ainda é o melhor negócio do mundo, nas mãos da Ecopetrol, empresa colombiana. 
            Até aí nada demais.  No mundo empresarial não se conhece a palavra estática, que pode ser confundida com morte na competição.  É o que podemos ver, num futuro nada distante, com a estatal brasileira de petróleo.  Nas mãos de um atual governo fraco e antes um bastante duvidoso, a Petrobras foi-se diluindo aos poucos.
            Com a descoberta de lençóis bastante grandes, foi anunciado que em pouco tempo o Brasil seria um exportador de óleo cru, além de país com perspectiva de alcançar nível de riqueza considerável.  Veio a realidade e mostrou o que o governo não disse: explorar este petróleo em águas muito profundas é muito difícil e caro, além de não possuirmos tecnologia para a empreitada.  Hoje corremos o risco de importarmos gasolina em expressiva quantidade.
            Ou seja, cerveja e chope estão garantidos até não sabemos quando, mas gasolina está assustando.  Tudo é possível no país do Carnaval...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Decisão


     Não posso entender um escritor que não seja um ativista político.                                                                                                                              
          
            Desde bem antes do julgamento dos envolvidos no mensalão, tenho repetido que muitos réus sofreriam recolhimento em estabelecimentos penais, tal a gravidade dos fatos cometidos.
            Quase ninguém acreditava.  Que seriam condenados, o fato era aceito.  Que cumpririam pena duvidavam.
            Em 12 de novembro de 2012, o líder máximo de toda a trama, José Dirceu, foi condenado a dez anos e dez meses de reclusão.  Ou seja, vai cumprir pena, pois a legislação penal brasileira prevê que os sentenciados a oito ou mais anos de prisão cumpram pena em regime fechado.  Em penitenciárias.  Este é o destino de Dirceu, Delúbio e outros, ficando ausente o ex-chefe do Executivo, mas que ainda corre risco de ser apanhado.  Não viu nem mesmo a condenação do amigo, conforme declarou à imprensa.
            Por formação, não me alegro com desgraças alheias.  Nem mesmo com as destes traidores do povo.  Que ninguém se iluda.  Não estou rindo, muito menos festejando a futura ida destes condenados para presídios, situação que não desejo para mim e, portanto, para outrem.  Mas acho injusto Lula ficar fora.  Não acredito, como muitos, que ele tenha comandado tudo, e inventado a trama.  É burro demais para isto.  O chefe foi mesmo Dirceu, que insiste em protestar inocência.  Aqui não me conformo.  Todo o país sabe da sua culpa, e ele a nega?  São provas demais na ação penal 470, examinadas por quem fez da vida o ofício de julgar.  Mais.  O Supremo não erra.  Quando percebe que pode incidir em engano, para, analisa e toma a decisão certa, através dos seus ministros.
            Talvez o alcance da decisão chegue bem mais distante.  A capital paulista está sofrendo diariamente uma série de crimes que envolvem sangue, operação tipicamente orquestrada e dirigida.  Vai haver um basta, no meu entender.  O exemplo foi dado, e convém ser seguido.  Não só lá, mas em todos os lugares onde se cometem crimes na maior impunidade neste país.
            Chega!  O povo ordeiro não suporta mais tanta ofensa, descaramento e cinismo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Para onde vai o vento

       
            O vento... Sua definição é bem simplista.  É apenas o ar movimentando-se.
            Será?  Não é só isso não.  Mexe com folhas das árvores, ondas do mar e com a linguagem que era usada faz tempo: “bons ventos o tragam.” Ou pior, “que o vento o leve para o diabo que o carregue”, ou expressão mais pesada.
            Traz o perfume do café acabado fazer.  Enche e enfuna as velas que cruzam os oceanos até hoje.  Velejar, além de ser muito prazeroso, é uma arte.  Os veleiros não vão para onde vai o vento.  Podem mover-se contra ele, inclusive.
            Toca os moinhos, gera energia eólica, que não polui como a usina movida a carvão ou petróleo.
            Mas tem um sentido diferente.  O vento caminha na direção mais livre, que nem sempre quer dizer mais correta.  É o que acontece com o mundo atual.  Ventos que vêm se formando há muito estão causando estragos sucessivos.  A falta de compostura, de ética ou mesmo vergonha na cara comanda os dias atuais, enriquecendo moleques, dando fama a safados, ajudando vadias e vadios a se promoverem cada vez mais.
            Não importam tanto os alísios, as monções, o terral, mas o vento que cheira a dinheiro sujo, ao que enche as ruas com o odor da maconha queimada, o perfume famoso que se torna nojento de tão usado que é por tipos vulgares.
            “Cara mais chato, falando neste assunto!”.  Sei, sei.  O assunto não interessa, quem escreve é o ranzinza, a culpa nem é da idade, não está sozinho nesta pregação.  Mas é um inoportuno mesmo!  Certos estão os que aguardam as obras dos mundiais, para faturar quanto bem querem, dividindo com os que pagam.  Pagam com nosso dinheiro, sempre é bom lembrar.  Vão encher a burra, salve a conta no paraíso fiscal.
             Uma coisa que ninguém mais sabe, é para onde vai o vento...   

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Solidão


      
            Caminhava na longa calçada que acompanhava a areia e o mar.
            Dia claro, luminoso, céu transparente e o vento refrescante, vindo do oceano, tornava o passeio bem agradável.
            Muitos anos tinham se passado; estava velho e a idade traz um sentimento de solidão.  Já não sentia o vigor de tempos passados, nem seria normal que isto acontecesse.  Mas os passos eram firmes, a marcha desembaraçada e o olhar ainda atento para o que de belo existia naquele lugar.  A praia, as crianças brincando junto ao mar, baldes de areia sendo transportados para a construção de castelos e fortes, onde a pirralhada empregava toda sua arte.  Algumas mães, ainda bem jovens, chamavam a atenção pela beleza física, como negar?
            Calmo ele prosseguia seu exercício matinal, pensava na vida presente, que mesmo sem o entusiasmo da juventude, tinha o seu gosto saboroso.  Acordar, sentir-se vivo, tomar um café perfumado de prazer, respirar o ar ainda fresco e puro da manhã resplandecente.  Os pensamentos eram rápidos, não sabia se quando estivesse outra vez em casa iria ler, ouvir uma música agradável, talvez imponente, talvez relaxante.  Um banho gostoso, roupa fresca e limpa e os pensamentos fluindo sobre a existência.  Chegara à conclusão de que era bem melhor crer.  Acreditar em tudo desta curta longa Vida, seja fato bom, seja coisa desagradável.  Ambos caminham juntos, não há como evitar.
            Não refletir em cima da solidão é um erro.  Pode até mesmo ser desastroso.  O contrário, pensar sobre o que está nos cercando, é algo luminoso.  “Pronto”, pensou.  “Já sei o que vou fazer hoje.  Vou escrever sobre isto.”  Foi o que fez, despretensiosamente.  

sábado, 20 de outubro de 2012

O refúgio ficou pronto

                                     

            Querida, depois de pensar com seriedade no trato que fizemos, quero que saiba das novidades.
            Fiz em segredo, não anunciei a ninguém.  A casa é pequena, muito bem bolada, você circula com facilidade incrível.  Tem tudo, em apenas sessenta e quatro metros quadrados. 
            Paredes fortes, piso levantado de metro e meio, deixando lugar para um porão, que está isolado da parte principal, menos uma pequena parte, transformada num depósito que pode guardar qualquer coisa.  Pé direito alto, para os dias quentes.
            Cozinha e banheiro independentes, lógico, mas com o mesmo sistema d’água.  Não haverá problema; o encanamento é aparente, bem colado na parede e pintado de amarelo.  Fiz o mesmo com a fiação elétrica.  Por razão que me pareceu lógica, pintei de vermelho.  Não precisa temer.  O interior nada se parece com decoração da cidade no Carnaval.
            Sala muito espaçosa, mesa sólida, poltronas confortáveis.  A estante não é grande, cabe o essencial.  O espaço para o computador também não é grande, e fica junto do aparelho telefônico.  O quarto é pequeno e tem uma grande janela, vemos toda a paisagem.
            Quando ficou pronto, passei um fim de semana, para experimentar.  Toalha xadrez vermelha na mesa, você sabe que gosto.  Dois quadros.  O meu, a abstração azul intensa, e o seu “Chegada de Outono”.  Não levei nada para ler, tinha uma revisão e aproveitei a calma do lugar. 
            Dias comuns, mas muito gostosos, especialmente por causa da temperatura, vinte graus.  Acordava e comia uma pera, uma laranja, um pedaço que queijo branco com torrada e arrematava com um perfumado café quente.  Dava uma caminhada depois.  Não é preciso dizer que senti sua falta.
            Meu almoço favorito.  Bife enorme na chapa, sem nenhuma gordura que não fosse dele mesmo.  Salada de tomates e palmito, arroz integral, que fiz na sexta-feira, durante a noite e foi até o domingo, sem nenhum problema.
            Já falei muito.  A casa está esperando você.  Não demore.
            Beijo

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O inevitável


                                     

            O julgamento do mensalão pelo STF ainda não terminou, mas as consequências, diga o que quiser o PT, o estrago está feito.
            Com a condenação, ainda sem pena aplicada aos principais dirigentes do partido, houve um racha inevitável, todos estão fugindo da banda podre, e a primeira foi a Presidente da República, que não duvido nada funde com outros membros descontentes outra agremiação política.  Afinal, pertencer a um partido que era e ainda sofre grande influência de homens que estão sendo chamados de marginais, o que eles são na verdade, pois traíram a confiança de um povo que os elegeu, é ato muito desconfortável.
            Não interessa o resultado das eleições municipais.  O povo ainda não compreendeu o esfacelamento do PT.  Como dizem, ainda não ‘caiu a ficha’.
            Houve sim uma corrupção desmedida no governo Lula, que é hoje um dos 1.200 homens mais ricos do mundo, segundo a revista Forbes, especialista nas ‘fofocas’ desta área.  Seu filho e irmão fazem parte da lista, e são mais ricos.  Não me perguntem como, não sou policial, nem membro do Tribunal de Contas da União ou mesmo Fiscal do Imposto de Renda.
      O trabalhador ainda não teve como saber com detalhes o que foi decidido no Supremo, não pode acompanhar o julgamento, está praticando ato do seu ofício, garantindo o sustento da família.  Não está alienado, como Lula afirmou taxativamente que o povo não está preocupado com o julgamento do mensalão, mas com o rebaixamento do Corinthians.  É a sua eterna tática, tentar imbecilizar o operário brasileiro, o que fez com sucesso muito tempo, mas não se ilude o povo eternamente.

Alguns querem fazer acreditar que a eleição para prefeito de São Paulo vai mostrar a força do estraçalhado PT.  Esquecem que Serra é um eterno perdedor e que Dilma já acenou com mudança no partido, passando para a ‘banda boa’ ou mesmo, com já se disse, fundando outro.  Salve-se quem puder...
     


domingo, 7 de outubro de 2012

O Velho e o Mar


                                     

            O homem sentado, bem vestido esportivamente, aparentava ter passado dos cinquenta e cinco anos.  Eram onze horas e poucos minutos, céu claro, mar limpo, céu transparente.
            Bebia um gim-tônica, lentamente, enquanto escrevia num caderno de boa aparência.  Via-se que não tinha medo, fato incomum nos dias atuais.  A caneta era uma Parker 51, com a tampa em ouro.  São poucos os que se atrevem a cometer atos assim.  Qualquer desocupado com intenções menos honestas poderia com facilidade roubar seu precioso objeto.
            Atento ao que escrevia, pouca importância dava ao fato.  A caneta corria firme, com pequenas observações de quem estava redigindo à beira-mar.
            Misteriosa figura.  Corpulento, de bermudas e camisa polo impecáveis, sapatos tipo mocassim leves e confortáveis, só prestava atenção ao que escrevia, ninguém sabe o quê, além dele.  O gim-tônica descia vagarosamente, embora tomado em doses significativas.  Acendeu um cigarro, fato que hoje é bastante incomum, mas tempo era passado.  O garçom serviu outro copo, limpo, quando percebeu que já havia chegado a pouco menos da metade o que estava na mesa.  Recebeu um leve aceno de cabeça, como aprovação.
            A caneta corria, cada vez mais.  As leituras de revisão eram poucas.  Tudo fluía como um verdadeiro rio correndo nas suas margens.  Pela expressão de quem escrevia, o resultado era bom.
            Outro cigarro, e mudança de copo.  Bebia quatro, antes do almoço, segundo os locais, que apreciavam o trabalho solitário e constante daquele homem de barba branca, vezes aparada, vezes não.
            O bar ainda existe.  A cidade é Havana, Cuba.
            O homem, todos dizem, era Ernest Hemingway, quando escreveu “O Velho e o Mar”, talvez o melhor livro de alguns séculos passados.  Santiago continuava lutando contra o espadarte, sozinho e sangrando nas águas do Golfo.  Falando consigo mesmo. A falta de Manolín, o menino que o acompanhava, era grande.  O Sol queimava-lhe os olhos.  Tudo era contra, mas Santiago desafiava o combate.  O peixe era um lutador.  Sente-se a Vida, o drama humano.
            É história; todos falam.

sábado, 29 de setembro de 2012

Vamos mal


                                            

            Vejo em reportagem no site UOL de hoje, 29 de setembro de 2012, a notícia de que o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal não abala o eleitor paulista.
            Os paulistanos não mudam – oitenta e um por cento - seus votos por causa do julgamento. 
            Verdade que o candidato petista, naturalmente o mais prejudicado em razão das consequências dos trabalhos que estão sendo desenvolvidos pelos ministros do STF seria Haddad, e sua perda é grande, mas acompanhada também por Serra.  Ou seja, não faz sentido, já que nem o tucano, nem Haddad foram mencionados na Corte.  Seria, no caso, uma grande perda de prestígio do PT em virtude das provas que vão se acumulando contra o partido, mostrando a sua desonestidade.  É uma associação perigosa, capaz de matar, inclusive.  Prova a morte de Celso Daniel, assassinado a mando da direção petista.  Não só lavagem de dinheiro e corrupção, ativa e passiva, praticam seus filiados.  O braço armado existe, tem mando e organização.  Parece remontar o tempo em que o PT sonhava em governar o Brasil ditatorialmente, após subir ao poder pelo voto, como fez Hugo Chávez na Venezuela.
            A educação política do brasileiro não existe, nunca existiu e dificilmente existirá em menos de cinquenta anos.  Cálculo aleatório, pois pode piorar a qualidade de conhecimento que temos hoje.  Corremos o risco.  É evidente que a deficiência não é política, mas básica, fundamental.  Vem dos bancos da escola primária.  Maus governantes adotam este sistema reiteradamente, como está sendo feito no nosso país, a cada dia composto por mais incapazes intelectualmente.  Como se diz sempre, povo ignorante é povo submisso, mais lacaio ainda quando é desarmado, o sonho dos prepotentes governantes.
            Problema das baixas latitudes, como querem alguns?  Talvez, mas não com certeza.  A Austrália, com posição geográfica semelhante à nossa, tem um bom desenvolvimento social e econômico.  Verdade que nosso clima não ajuda o trabalho com requintes e apuros.  Quem passa qualquer dia da semana em frente às praias brasileiras, excetuando alguns dias de inverno, pensa que estamos numa grande colônia de férias.
            O julgamento do Supremo está sendo acompanhado por dezenove por cento dos paulistanos.  O número nacional não deve ser muito diferente.  Enquanto isto, Lula a cada dia despeja mais violência verbal e agressões contra todos, a ponto do senador Aécio Neves ter afirmado que ele mais se parece com um “líder de facção”, ao invés de ex-presidente. 
            Tendo em vista o afirmado, gostaria de avisar, a quem interessar possa, que qualquer ato praticado contra a minha pessoa ou de qualquer dos meus familiares vai ser respondido pelo Sr. Luiz Ignácio Lula da Silva, conforme documentos em poder de dois advogados e um Procurador da Justiça.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Conto e crônica



Esta tarefa de distinguir o que é um conto ou uma crônica costuma confundir escritores, críticos e professores.
Alguém termina de escrever um texto e quer publicá-lo. Vem a dúvida. É crônica ou conto?
A maioria das pessoas acha que a distinção é fácil, quando de fácil não tem nada. Depende do autor, se o texto é nitidamente uma história, com muitos diálogos e envolvendo um grau de poesia, tudo faz crer que seja um conto. Já é um bom início de distinção da crônica, que é sempre mais direta.
Há quem afirme que a crônica não comporta diálogos. Mas esta regra não está escrita em nenhum livro de teoria literária, pelo que sei. Se os diálogos caracterizam a peça, então podemos ter um conto.
É interessante notar como quase todos os professores escrevem sobre o assunto, mas quem vai dizer com segurança se o texto é conto ou crônica é o autor. Se quando ele escreveu tinha intenção de informar sem ser repórter, é crônica.
Caso esteja com o objetivo de criar um fato, uma situação e usa personagens para atingir o seu objetivo, é um conto. Eu penso assim, embora possa estar completamente equivocado – coisa que não acredito. Diria que quando escrevo, tenho um objetivo certo. Ou informar, sem ser jornalista, ou ser um pouco mais poeta dentro da prosa, embelezando o texto e conduzindo o leitor a um final determinado. A primeira hipótese seria uma crônica; a segunda, um conto.
Muitos teóricos são adeptos desta maneira de pensar. Se tiver alguma poesia na escrita, é conto, e não se fala mais no assunto. Mas quantos são os autores que escrevem belas crônicas cheias de poesias! Quem já leu uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna sabe disso, embora o autor seja mais poeta e suas crônicas não andam soltas em jornais, revistas ou sites literários. Por ser poeta por excelência, quando escreve algo o traço vai ser notado, é impossível ser de outra forma.
Já Nelson Rodrigues, embora teatrólogo e acostumado com as paixões humanas, escreveu no fim de sua produtiva atividade muitas crônicas impregnadas de um falso sarcasmo, mas que na verdade era um lirismo. Daí, quem afirmar que escreveu contos, não está apartado da realidade.
Guimarães Rosa, em “Sagarana”, publicou contos e assim os classificou, sendo a obra-prima o “A hora e a vez de Augusto Matraga.”
O assunto não é nada tranquilo quanto parece. Já houve quem dissesse (Fernando Sabino) que se o autor colocar como crônica passou a ser, mesmo que se trate de belo conto.
Complicado… Acho que acabei de escrever uma crônica, aliás, não acho. Tenho certeza. Mas haverá quem diga que foi um artigo didático, ou uma lição.
E estão enganados, por que não estou a fim de dar lição a ninguém…


http://www.literal.com.br/acervodoportal/conto-e-cronica-6066/

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Casarão: a questão do dualismo



             Por mais que queiramos evitar, o dualismo é uma realidade que acompanha nossa existência.
            O conceito dele é explicado pelas formas como aparece.  Trata-se de antagonismo de valores ou mesmo situações.  Bem, mal; bom, mau; belo, feio e assim sucessivamente.  O dualismo incomoda, mas não nos livramos dele.  É regra estabelecida pelo homem ou pela realidade, como no caso saúde, doença.
            Não atende ao meio termo; não se conhece um homem relativamente bom, ou mau.  Ou ele é uma coisa ou outra.  Talvez esta seja a forma que mais incomoda nesta realidade, que não é fictícia, como alguns poucos querem fazer acreditar.  A situação intermediária, quase sempre denotando equilíbrio na balança, é cantada como sendo ideal para o ser humano, os grupos e a coletividade.  Mas nem sempre ela pode ser desta forma, no meio, no ponto de equilíbrio de forças ou estados.  Ninguém é meio doente, por exemplo.  Ou meio sério na conduta social.
            Talvez esta forma de só ser aceito nos extremos faça do dualismo uma realidade intolerável.  O assunto é delicado, realmente.  Por isso, incomoda.  Por outro lado, não pode ser colocado à margem da vida social.  As exigências da vida não permitem a prática dos crimes.  Não permitem a conduta suspeita dos governantes, ou as incertezas dos juízes.
            Foi esta realidade incontestável que me levou a escrever “Casarão”, onde procurei mostrar apenas alguns lados do dualismo que nos acompanha.
            Não possuindo formação filosófica, evitei todas as maneiras de abordar o romance curto desta forma.  Deixa-se o leitor pensar como bem entenda; não está sendo dada aula, neste caso, inoportuna e chata.
            Da mesma forma, como o dualismo apresenta lados inesgotáveis, apenas poucas formas do mesmo aparecem no texto, algumas vezes disfarçadas, se é que consegui realizar o feito.
            “Casarão” não é livro de filosofia, é um romance comum, sem linguagem acadêmica ou mesmo disposto a levantar polêmica.
            Quando o escrevi, quis apenas mostrar os dois lados diferentes de uma mesma moeda.  Mais nada.    

imagem:    Museu do Café, capa do livro ainda em avaliação.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Recanto 500



                                             Recanto 500

            Trabalhava com atenção absoluta, em cima de texto grande, era a revisão de um romance.  Não cabem erros.
            Escrever, como toda arte, exige estudo preliminar, dedicação, criatividade e respeito ao leitor.  Caso fique faltando um só destes elementos fundamentais, a cantiga vai ficar desafinada.  Pare e veja: estudo preliminar é sobre o vernáculo.  Quem não domina razoavelmente a língua vai produzir obra defeituosa.  Dedicação é questão de amor pelo que se faz.  Sem ela, os frutos do trabalho ficam sem sentido, ou devendo explicações.
            Criatividade – quem não sabe disso? – dá alma ao que foi escrito, pintado, esculpido, musicado.  É a única qualidade e preliminar que não se aprende estudando.  É pessoal e desconheço como funciona no ser humano. Talvez a leitura constante de bons autores ajude muito, mas sozinha não resolve.  Há que ter atenção: criativo não é quem inventa com facilidade, mas sim quem o faz com arte.
            E afinal, o respeito ao leitor.  Não acredite que a sua verdade seja a dele, de quem lê um texto ou admira um quadro.  Dizem haver uma forte tendência humana neste sentido.  O que é real para um, deve ser para outro, o que absolutamente não é certo, muito menos verdadeiro.  Além disto, existe a regra de sempre ser deixada uma interpretação pessoal do leitor, ou espectador.  Ele também participa da obra, que não é uma peça isolada.
            Trabalhava com atenção absoluta.  Era seu texto postado de número quinhentos. 

imagem:  "O absinto", Edgar Degas, óleo sobre tela, Museu D'Orsay 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Faz frio



                                                Faz frio

            Os dias têm andados nebulosos, com chuva fina, o que os tornam frios.
            Fins de agosto, o último mês sem ‘r’.  Com a entrada de setembro vem a série dos incômodos meses que antecedem o verão, e passado este, astronomicamente quase sempre no dia 21 de março, no hemisfério sul, o calor continua a atazanar nossa baixa latitude.
            Acabam uns prazeres, começam outros.  O chá quente das tardes, o conhaque fino, tomado com moderação, as sopas perfumadas, o calor da cama – melhor quando estamos acompanhados pela pessoa certa.  A velha blusa de lã, já um pouco apertada pelo acúmulo de alguns quilos a mais, as meias esportivas que usamos com o tênis, nas caminhadas.  Talvez, deu vontade, um cigarro.  Um no fim da tarde e outro na metade da noite, fumo de qualidade que não deixe o ambiente empesteado.
            A esteira ergométrica para os preguiçosos, sou um deles, o banho bem temperado logo depois.  O filme lançado recentemente no aparelho que reproduz DVD.  O livro marcado, com anotações feitas a lápis, a procura de ideias para uma nova crônica, ou tela abstrata impregnada de técnica e conhecimento.  Tudo isto livremente, mas sem gratuidades.
            A primavera está próxima, começam os dias mais quentes, vem o cretino horário de verão, os dias passando a procura das festas de fim de ano.
            Tempos novos.  Agora, só ano que vem.

          imagem: "Chegada do outono", E.B. Krass, óleo sobre tela 

sábado, 25 de agosto de 2012

Jogo feito


                                                   Jogo feito

            Chovia fino naquela madrugada fria de meados de julho.
            Interessante.  A gente nunca sabe o que pode acontecer numa hora desta.  O homem já com alguma idade, uns trinta e pouco, talvez, ajeitava sua japona grossa, da marinha mesmo, comprada numa loja de uniformes perto do Primeiro-Distrito Naval.  Não passava frio nem no gelo, se estivesse por cima de camisa de malha com mangas compridas, como o mal-encarado estava usando.  Moreno, boa altura, sapatos mocassim pretos, calça de veludo cotelê, preta também.
            O conhaque espanhol estava em cima da mesa, com um copo próprio pela metade, ele já havia tomado um pouco.  Acariciava uma Colt, calibre quarenta e cinco, sua arma de predileção.  Estas pistolas atuais, que dão mais de quinze tiros, não são eficazes como a velha Government Model.  Pesadona, boa de empunhar, sem apresentar nenhum defeito se a munição for nova ou dentro do prazo de validade.  Especialmente naquela noite a arma não poderia falhar.
            Goteiras pingavam a água da chuva, no velho galpão onde fora residência de um caseiro do sítio, e guardava velhas tralhas de jardinagem.  Alheio a tudo isto, o homem magro continuava a beber seu conhaque com café, enquanto fumava e mexia na pistola, engatilhando, levando o cão até a frente, tirando o carregador e a bala da câmara.  Como uma brincadeira, repetia os movimentos incessantemente.  Viu quando os faróis da caminhoneta moderna varreram o quintal.  “Chegou a hora”, falou consigo mesmo.  Experimentado, colocou a garrafa de conhaque e dois tocos de cigarros fumados numa mochila que carregava.  No bule de café e no copo não tinham suas digitais.  Havia usado uma luva fina, as impressões eram de outra pessoa.

            Meses antes, uma conhecida e belíssima artista de teatro e novelas de televisão, havia se passado de armas e bagagens para o lado do conhecido financista Affonso, no momento negociando uma casa de venda de pedras preciosas.  Coisa grande, mas o antigo dono da maior joalheria do Rio tinha dinheiro, além de ser conhecedor de gemas de valor.  A última delas era a artista famosa.  Namorava o seu filho, um homem de trinta e dois anos, também metido com negócios, com a vantagem de possuir sólida formação matemática, ciência em que havia se bacharelado.  Apresentara a namorada ao pai e jantaram juntos, num conhecido e elegante lugar da moda, em Ipanema.  Foi o bastante para o velho ter virado a cabeça.  Conhecia os casos do filho, sempre envolvido com beldades por causa de dois atributos fortes e muito favoráveis: era bonito e rico, além de jovem.
            Dois meses depois, a guria já estava casada, casadíssima com o velho Affonso, que não se cansava de admirar a beleza da esposa e consumir muitos comprimidos contra a famosa disfunção erétil.  Dava sempre certo.
            Célio, o filho, ficou puto da vida, mas não tinha como alterar as coisas.  A sacana da guria tinha trapaceado, e com o pai! 
            Primeiro ele pensou em encher a gaúcha de porrada.  Mas quem já foi treinado para matar sempre prefere esta opção.  Havia cursado a escola de formação de oficiais da reserva do exército, e gostou muito do núcleo das forças especiais, onde saiu habilitado com louvor.

            Os faróis continuavam a varrer a mata do sítio, e já não havia mais chuva, apenas a relva molhada, na qual a jovem caiu para não mais levantar, com o vestido molhado de sangue.

sábado, 18 de agosto de 2012

Pizza indigesta


                                              Pizza indigesta

            Acostumados que estamos a ver processos sucessivos que visam punir acusados de crimes contra o patrimônio do estado, principalmente, não surtirem nenhum efeito contra os réus, surgiu o apelido ‘pizza’.
            O julgamento do mensalão, pelo Supremo Tribunal Federal, tomou rumo diverso.  Após uma longa defesa que só negava o acontecimento de vários crimes perpetrados contra a administração pública, o sistema financeiro e outros, começou a votação pelo plenário daquele Tribunal.
            O relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, experimentado com os julgamentos no STF, adotou critério que apressa os trabalhos.  Ele analisa o fato, condena, mas não fixa a pena, deixando para o final do julgamento entre os seus pares.  Ou seja, a esperada ‘pizza’ ficou bastante indigesta e todos os conhecedores dos julgamentos no Tribunal Maior já sabem que as condenações serão sucessivas.
            A pena de prisão, descartada no início, começa a ser ameaçadora, quando são reconhecidos crimes como lavagem de dinheiro e bando, além de peculato, que é o crime cometido por funcionário público contra a administração, subtraindo valores a ela pertencentes.  Pode sim, haver pena privativa de liberdade, em vários casos.  Dirceu é um dos ameaçados.
            Muitos gostariam de ver o mandante julgado, mas Lula não foi denunciado pelo Ministério Público, e ao Supremo não cabe denunciar ninguém, tarefa de competência única e exclusiva do Ministério Público.  É difícil, mas talvez com o andar do processo surjam fatos que o MP julgue conveniente incluir o verdadeiro mandante no processo, ou em outro.  São questões técnicas de Direito que não convém discutir aqui.
            A matéria diz respeito sim, a todos nós escritores e poetas.  Os intelectuais de um povo não se escondem desta realidade, no mundo e aqui na nossa terra, onde grandes problemas sociais e de direito foram bandeiras de literatos famosos.
            Não podemos conviver num país sujo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sexagenário


                                                    Sexagenário




            Sempre fui fumante convicto e inveterado.  Acordava e já acendia logo o pequeno cilindro branco, que tem uma fumaça admirável para os que fazem uso, e detestável para o outro time.
            Minha mulher, por vezes, acordava antes de mim e eu tinha um delicioso café já preparado, que enchia a casa com seu perfume e aumentava minha vontade de tirar umas boas baforadas.  Caso eu acordasse antes, sabia e sei fazer um café bem gostoso.  Como dizem, modéstia à parte.
            Mas bem perto da minha casa existe até hoje uma padaria que descobri ter um café simplesmente delicioso.  Muitas manhãs, quando acordava, para lá me dirigia devidamente armado com meu maço de cigarros e isqueiro.
            Lembro-me até os dias atuais da frequência.  Homens de todos os tipos, desde os mais humildes operários, que invariavelmente tomavam meio copo de cachaça, destes copos comuns, para ficar determinada a quantidade ingererida acompanhada do delicioso café, xícara grande, e meia bisnaga de pão francês com mortadela.  Outros como eu e um homem magro, franzino, risonho e com ares matreiros, aguardavam o ritual do preparo do café.  Enquanto isto fumávamos, naturalmente.
            O rapaz que preparava o dito cujo café seguia um ritual perfeito.  Qual nada de pó moído!  Grãos eram retirados de um grande saco, colocados na máquina de moer e devidamente triturados finamente.  Só este fato já perfumava o quarteirão, acho.  A água já estava fervendo, e o saco de flanela recebia a quantidade certa do pó maravilhoso.  Em seguida, com uma longa colher de pau, o produto que se encontrava no coador era mexido com cautela e carinho.  Isto posto, era colocado na máquina, e aguardávamos ficar pronto.
            Não é preciso descrever as faces de quem observavam o ritual.  A do rapaz magro parecia estar vendo alguma coisa descida dos céus, e creio que esta era a cara de todos nós.
            O café era maravilhoso, eu tomava sempre duas xícaras pequenas, e atacava os pulmões com dois ou três cigarros.  O tipo franzino que estou me referindo fazia a mesma coisa.
            Com o passar do tempo, conversávamos alegremente, desfrutando daquele prazer matutino, e muitas vezes o dia ainda não estava totalmente claro.  Observei que todos se conheciam, e eu já fazia parte do grupo, sendo que sempre o meu companheiro de conversa era o mesmo magro e simpático frequentador.
            Certo dia, perguntei ao dono do lugar quem era aquele tipo.  Ele se espantou e disse que era um escritor conhecido, com o semblante orgulhoso em ter o mesmo por freguês de muito tempo.  Disse-me o nome e levei um susto, não esperava a resposta.
            - É o doutor José Cândido de Carvalho, não o conhece?  Fala com ele todos os dias e não sabe quem é? – foram as palavras do homem.
            No dia seguinte, dirigi-me ao acadêmico famoso com respeito.  Pedi desculpas em não ter reconhecido o autor do “O Coronel e o Lobisomem”.  Zé não se incomodou nem um pouco, e achou graça.  Disse que não era artista de televisão nem político, eu não tinha que pedir desculpa nenhuma.
            Assim passaram-se alguns anos, até que um dia ele me falou que havia gostado muito do meu pai, fato que me surpreendeu, sem dúvida.  Explicou-me que tinha um companheiro em outro lugar, onde também tomava café e incendiava os pulmões.  Ambos haviam-se tornado amigos.
            José Cândido escrevia num jornal de Niterói, “O Fluminense”.  Descobri um recorte do jornal, datado de 15 de fevereiro de 1985, uma sexta-feira.
            A coluna chamava-se “Recado”. Sob o título de “Ser chamado de sexagenário, nunca!”, vinha na íntegra o recado.
            “Jorge Sader, fluminense de cultura e talento, tão conhecido em Niterói como a Pedra do Índio ou a Igreja de São Lourenço, tem os seus caprichos.  Por exemplo: nunca vai ao Rio de Janeiro.  E diz de maneira altamente espirituosa os motivos desta não ida:
            - Não vou para não dar oportunidade de ver noticiado que o sexagenário Jorge Sader foi atropelado na Praça 15 com um embrulho de empadas debaixo do braço.  Ser sexagenário já não faz graça para ninguém rir, ainda mais desmoralizantemente esfrangalhado por um ônibus da linha Padre Miguel - Largo do Boticário. “
            Não fumo há anos, meu pai não morreu atropelado e, pelo que sei, Zé Cândido não morreu por causa do cigarro.
            Deus os guarde.

Homenagem ao meu pai Jorge Cortás Sader