sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Até que nem a morte os separe - reeditado
















Até que nem a morte os separe




Não eram mais jovens como antes. No entanto, felizes, caminhavam com desenvoltura, levando-se em consideração que a longa faixa de areia da praia estava molhada.
Não estavam abraçados nem de mãos dadas; descalços, sentindo a areia úmida sob os pés, respirando o ar fresco da tarde, fazendo um e outro comentário a respeito do lugar. Andando separados sentiam mais a grandeza da liberdade.
Um olhar desatento diria que eram amigos. Pessoa mais experimentada perceberia de imediato que amizade existia sim, e não era pouca. Mas havia mais, muito mais, algo muito superior que a compreensão comum não alcança. Se o olhar fosse realmente agudo, constataria no casal o mistério do fascínio consciente, ligado à grande força oculta que move os homens.
Vingavam-se da face malvada de Zeus, que vendo sua criação perfeita, capaz de desafiar os deuses, dividira com a espada o Um, para enfraquecê-lo, tornando duas as criaturas. Conseguiu seu intento, mas parcialmente.
Mas eles não pensavam nisso. Nem mesmo sequer pensavam; sentiam. Sentiam a calma e a beleza do lugar, sentiam o infinito do céu e do horizonte, sentiam a união do céu e da terra. Sentiam a união de um com o outro.
Sentiam o quanto era difícil determinar o ponto onde um começava e o outro findava. Sentiam, afinal, que de nada adiantava o mais elementar princípio aritmético, pois dois era igual a Um, e Um era indeterminado. A relatividade evidente também não era objeto do que sentiam.
Iniciava o crepúsculo vespertino e já as primeiras estrelas mostravam seu brilho. Castor e Polux, os valentes irmãos gregos que a guerra separou, mas Júpiter, por compaixão, lançou-os ao espaço onde permanecem eternamente juntos na constelação de Gemini, meditavam de longe, muito longe, se algum dia aqueles dois não teriam o mesmo destino.

9 comentários:

Caio Martins disse...

Excelente, Jorge Sader. A mão de Mestre afinou o violino preciosamente, nesta reedição.
De simplicidade magistral, tem profundidade pungente, somente alcançada por quem viveu e vive os fatos e foi agraciado pelas Musas para poder narrá-los. Abração!

Rita Lavoyer disse...

Não fosse o olhar do poeta esta eternidade do instante passaria como passam tantas histórias infinitas que Gemini espera registrar.
Que pena só os poetas terem penas no olhar.
Parabéns poeta.

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Bela marinha, pintada em tons precisos, a encher os olhos e a alma. Muito bom, poeta Jorge.

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Que bom se todos os seres humanos vivessem um sentimento desses! Jorge, este conto é simplesmente emocionante. Abrs. Mardilê

Petuninha disse...

Texto trabalhado com delicadeza e suavidade. Mostra a profundidade de alguns sentimentos humanos que se imortalizam na poesia e se fundem à mitologia.
Lindo! Parabéns da Petuninha.

Espelho disse...

listiEsta fala é para poucos - sentir o AMOR, um pelo outro - podem estar separados, mas o amor existe, é a força oculta governando as criaturas... Lindo Jorge! Esta vida somente vale apena quando há amor!

Andanhos disse...

Caro amigo, em minha humilde opinião esse é um dos mais belos textos de sua autoria que já li. As musas certamente o inspiraram!
Um grande abraço e parabéns.

marcia disse...

Bem aventurada a musa que te inspirou nessa reedição...bjus

Monica Pamplona disse...

Esse texto dispensou os arroubos da paixão. Gostei da forma como vc interpretou o sentimento do casal. Deu a impressão que estão acima de qualquer sentimento.
Bjssssss