domingo, 12 de outubro de 2014

Iludidos

        
— Pois eu digo que são todos uns iludidos.
— Ah! E você por acaso escapa desta?
— Claro que vou passar maus bocados, mas escapo.
A discussão ocorria entre muitos.  Poucos jornalistas, mas sobravam políticos profissionais, aquele maldito tipo que só pensa em poder, e o resto que se dane.  Cada um com sua bebida predileta.  A mais frequente era uísque.
            — Rapaz, aquele cara com o neoliberalismo dele não chega a lugar nenhum.
            — Como não chega?  Já chegou, com folga e sobras.  Só porque pensa que o estado deve estar afastado de negócios?
            — O mais afastado possível, produção não é ofício do governo.  Ele planeja, determina metas, mas deve deixar o trabalho nas mãos de particulares, iniciativa privada.
            — Você é do tipo que vê defeito onde o estado se mete...
            — Nada disso.  É claro que deve tomar conta e planificar tudo.  Mas sua função termina aí.  Funcionário público ou de paraestatal não deve ficar em campo plantando beterraba, ou estou dizendo besteira?
            — Besteira não, mas quero ver até onde vai esta liberdade nos negócios.
            — Em praticamente tudo.  Estado não é fábrica, granja ou plantação de cana-de-açúcar, por exemplo.  Estas funções acabam prejudicando muito sua existência, concorda?  Sempre pensei assim.  Calcula-se e planeja-se a necessidade da produção, distribui os elementos entre os empreendedores e estes que façam o serviço.
            — Concordo, mas acredito que isso enfraquece o estado.
            A esta altura não havia mais gelo, alguém foi buscar, os que preferiram sentar em cadeiras em torno da mesa pareciam os mais ativos, mas era apenas ilusão de quem estivesse assistindo. Na verdade, determinar com exatidão os limites do executivo é tarefa penosa.  Ele não pode ser omisso, nem executor do que se produz no país.  Mau administrador, servindo inclusive para empregar apaniguados, foge à sua função.  Não adianta tentar justificativa, o resultado é sempre igual, seja lá o lugar que for.  A moda agora é a China, entupiu o mercado mundial com todos os tipos de mercadorias, do tecido comum, ordinário, ao medidor de pressão arterial, que funciona bem, dependendo da marca.  Este país tornou-se um mistério.  Comunista por declaração dos seus líderes, e capitalista feroz, implacável e explorador do trabalho do seu povo.  É razoável que seja assim.  A população alcançou níveis alarmantes, feliz de quem consegue trabalhar lá.  Portanto, nada de reclamações, quem está empregado, que agradeça o seu pão de cada dia.
            — Deputado Silvério, ligação para o senhor.
            A bela moça, com idade para ser sua filha, preferiu não fazer a discagem para o celular.  Era bem mais seguro, uma provável escuta se tornava bem mais difícil.  Enquanto isso, muitos iludidos, teimavam em manter o estado como o senhor de tudo. 
Feudalistas...


10 comentários:

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Este é o Jorge. escreve com riqueza e precisão de detalhes.

Celso Felício Panza disse...

É isso aí,entendimentos...Abr.Celso

Caio Martins disse...

Na teoria vigente, o Estado é um cão insano descontrolado, escapado da coleira: eventualmente você até pode latir para ele, mas, com certeza sempre ele morderá você.
Gostei da imagem da moça: no cenário exótico traçado, é a única incógnita sem equação. Gostei!

Nadir D'Onofrio disse...

Grande verdade Jorge, quarta feira, necessitei comprar

uma agenda para bolsa, pequenina 10x10 cm,

um jogo de chaves Allen, uma peneirinha para o ralo do tanque

e, um mouse, pasme, isso tudo importado da China!

Nada mais estamos produzindo, onde estão as industrias?

Só pagamos, bolsa família, auxilio-reclusão?

Se no futuro o país não quiser mais importar produtos quero

saber como ficaremos. O dragão está produzindo para o mundo e aperfeiçoando sua tecnologia, enquanto o Brasil parou no tempo...

Iludidos... escolhestes bem o título!

Grata pelo convite.

Nadir D'Onofrio

Anderson Fabiano disse...

Iludidos... já somos tantos nesse País do Talvez que poderíamos pensar na criação de um partido. O que você acha?
Com certeza seríamos maioria na Câmara e poderíamos implantar um modelito revolucionário de governo: o comunismo neoliberal. Não te lembra alguma coisa de um certo país nos últimos 12 anos?
Meu carinho,
Anderson Fabiano

Vera Fracaroli disse...

Precisamos escapar de todos os desafios que um dia nos
deixou aflitos e iludidos...Será que a esperança veio para ficar?
Que brilhante escapada, não acha?
Um abraço amigo! Jorge!

werner disse...

A ilusão faz parte da vida dos favorecidos e do seus ideais:
Nos iludimos quando, amamos, abusamos do poder ou revindicamos
algo que achamos impossível.
Vai entender!
Acredito na escapatória de tudo isso.
Um abraço Jorge!

CristinaCintra@gmail.com disse...

Assim é a vida de todos os seres com quem convivemos, ou seja, cada um
com seus propósitos, propósitos estes de vida com suas ambições e situações de poder.
Desilusão? haverão de ter e logo virão outros sonhos até, sempre virão...
O importãnte é sair destas estratégias são e salvo.
Um abraço Jorge, belo tema!

Manuela Mourão e Silva disse...

Tema contraditório e difícil.
Mas para um bom entendedor um pingo é letra...
Sucesso sempre, parabéns pelo texto baseado em tudo que estamos vivendo neste mundo de meu Deus.
Mas sairemos ilesos, tenho fé que escaparemos todos...
Um beijo Jorge!

Carmem Velloso disse...

Gosto muito desta sua técnica de contar a história usando diálogos, Jorge.
Dá vida ao texto.
Beijos.
Carmem