terça-feira, 11 de agosto de 2015

Espreguiçadeira

          

            Uma oficina de carpintaria e marcenaria, sem muitas pretensões, embora os dois que trabalhavam ali fossem mestres dedicados.
            — Está ficando uma beleza, Barbosa!
            — Tem que ficar, a encomenda é da filha!
            — Não vamos dar uma pausa e tomar umazinha?
            — Nada de bebida agora.  Só quando começarmos a lixar.  Aí não tem mais precisão, podemos tomar nosso gole.
             Ritual antigo.  Capistrano, o mestre marceneiro, era esmerado.  Não bebia se estivesse usando instrumento de corte, ou montando um móvel acabado.  Findo o serviço, gostava de comemorar o mesmo com Gonçalo, um negro retinto, especialista como ninguém naquelas bandas de lugar pobre, em usar uma serra de fita com a maior delicadeza e precisão.
            Montavam com carinho e capricho, digno de quem ama o seu trabalho, uma espreguiçadeira comum, que não levaria forro tradicional, apenas almofadas.  Era para Dorinha, filha de Capistrano, menina que ainda iria completar seus quatorze anos, mas já com o corpo esbelto, formas definidas e muito bonita.  Gonçalo Barbosa, mestre em marcenaria por famosa escola técnica, estava exultante.  O pedido da filha querida do amigo estava saindo melhor do que ele pensava.  Tamanho e desenho de ninguém botar defeito, a espreguiçadeira que tanto poderia acomodar alguém para apanhar sol, como para descansar, dormir tanto na sombra, como durante a noite.
            — Bota os martelos aí.  Vamos na maldita, o trabalho ficou bom demais!
            — Ficou faltando a cera.
            — Dane-se a cera, qualquer idiota sabe encerar.
            Encheram os copos.  Experimentaram a obra, que tinha ficado uma beleza, só na madeira pura.  Confortável, e muito!  Com as almofadas, ficaria mais do que perfeita.  Era presente para a filha, que ele adorava, mas fazia cara feia por ter parado de estudar.  Estava no secundário, o segundo ciclo.  Tanto Capistrano reclamou com Dorinha, que ela voltou ao colégio.  Ele não tivera muitas chances na vida.  Deu sorte de fazer a escola técnica, mas queria ser doutor, engenheiro, o que não seria nada difícil, pois inteligência não lhe faltava.  Mas havia a necessidade do seu trabalho, a família era pobre.
            Beberam a cachaça, trazida de Minas de uma fazenda de parente próximo, capataz da mesma e homem respeitado.  Dois anos envelhecida no tonel de carvalho, a cor, cheiro e gosto mudavam tudo  das ordinárias, de chapinha, vendidas nos mercados.
            Durante a tarde, entregaram a espreguiçadeira na casa de praia, onde havia muita gente morando, mas não era como as favelas do Rio de Janeiro.  Lugar pouco importante, é verdade, mas praia limpa e bem frequentada.  A filha deu um beijo gostoso e agradeceu. Capistrano continuava a não entender como Dorinha tinha arranjado emprego tão bom, onde jardineiros, faxineiros e outros profissionais prestavam tanto respeito a menina que tinha um rosto bonito e corpo de mulher já desenvolvida. 
            Durante a noite, já com as almofadas colocadas, as medidas foram fornecidas com antecedência, Dorinha de camisola de seda, mais nada, deitou-se no presente e ficou esperando que Dido, traficante dos mais ricos e perigosos, chegasse sem demora, enquanto ela tomava vinho branco,  português, de melhor qualidade, acompanhado de camarões fritos que a empregada da mansão havia feito.








11 comentários:

Carmem Velloso disse...

Quantas Dorinhas existem no mundo, Jorge? Embora isto seja antigo, agora piorou muito. O exemplo vem de cima, sempre veio!
Beijo

Aida disse...

Muito perspicaz. Com riqueza de detalhes e finalizado com chave de ouro.

Célia Rangel disse...

Ah! Fui buscar solução no baú das marchinhas de carnaval... Tem pai que é cego, né... desde velhos tempos!

"Dorinha, Meu Amor"

Dorinha, meu amor
Por que me fazes, chorar ?
Eu sou um pecador
Eu sofro só, por te amar.


Celso Felício Panza disse...

Conto seu sem bebida e bandido, difícil. Seu pai gostava muito de contos policiais e similares,deve gostar de suas produções. Um abração Jorginho. Celso

Ana Bailune disse...

Vê-se que a moça deu sorte na vida. Isto é, enquanto ela estiver viva.
Gostei muito!

Nadir D'Onofrio disse...

Sempre prazeroso ler suas obras, Jorge!

Essa não poderia ser diferente, realmente essas transformações,

nos dias atuais, já não são tão incomuns.

Gostei, obrigada pelo convite.

Abraços.

Nadir

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

oloko! Não espera esse final. Muito bom, Jorge.

Caio Martins disse...

Grande Jorge Sader! Como sempre, a perspicácia sutil ao tratar da inocência cega e da sacanagem explícita. De passagem, o conhecimento do ofício de marceneiro: lidando com formões, serras e ferramentas afiadíssimos, umazinha pode causar baita estrago... Gostei! Muito!
Forte abraço, Mestre!

marcia disse...

Jorge,como todos os seus contos ótimo...Dorinha gosta de tra-ficar no balango...bjus

ॐ Shirley ॐ disse...

Ah! Que inocência a sua, Capistrano...
Belíssima e envolvente,
é a sua maneira de discorrer sobre qualquer tema, Jorge.
Beijos!

Tais Luso disse...

rsss, você é mestre em contos, e cabe bem a famosa frase: "tem pai que é cego..."
Abraços, Jorge!