segunda-feira, 9 de maio de 2016

A mulher de branco


                       
                   Não, ela não era a noiva. 
            Assistia ao casamento, e numa espécie de desafio às normas impostas pela sociedade, estava vestida de branco.  Linda, com decote generoso que deixava quem a olhasse encantado com sua beleza.  Pequenos adereços azuis, num disfarce que não convencia, ela se mostrava desejosa de estar diante do celebrante.  Qual a mulher que não quer ter o seu príncipe encantado?
            — Você está linda, mocinha.
            — Obrigada.  E você, como sempre, gentil.
            — Não estou sendo gentil, Gina.  Você está esplendorosamente bonita, apesar da maquilagem ter acrescentado alguns anos a mais.
            — Estou parecendo uma velha, Eduardo?
            — Velha não.  Mais madura, mais mulher.  E este seu tom de pele ajuda e compõe sua beleza, ressaltada pelo vestido branco.
            Gina com uma discrição absoluta deu-me um beijo no rosto.  Foi quando tive a mais absoluta certeza de que ela era uma entidade.  Quando eu digo entidade, não me refiro aos espíritos cultuados nas religiões estruturadas.
            Entidade é entidade; tipo difícil de ser descrito.  Entidade é quem mitiga o sofrimento dos próximos.  Ajuda aos que nada têm, com amor.  Estica sua mão sem pensar em nada que não seja ajudar a quem precisa, sem cogitar de recompensas terrestres ou celestes.  Difícil, é mesmo muito difícil falar neste assunto.  Mas é muito fácil sentir que Gina é uma entidade.
            — Cometi um absurdo, Gina.  Aliás, nem tão absurdo assim...
            — Posso saber qual foi?
            — Você pode tudo.  Sabe, por um feliz ou infeliz acaso, descobri uma moça que é quase você.  Quase porque não tem a sua alma, o seu jeito de ser, a sua vida.
            — Fiquei intrigada, Eduardo.  Está falando de quê?
            — Do acaso.  O acaso prega peças indecifráveis.  A moça é uma prostituta.  Mas não tem aspecto vulgar.  Aspecto, entende?
            — Creio que você manteve relação com uma prostituta parecida comigo.  Estou certa?
            — Não poderia ser mais exata, Gina.  Foi exatamente isto – disse segurando firme a sua mão.
            — E por que está me contando isso, Eduardo?  Quer que eu fique enciumada?
            — Acaso você tem ciúmes de mim?
            — Tenho e você sabe disso.
            — Não sabia não.  Seus sentimentos não são escondidos, mas este você tranca!
            — Jamais escondi nada, Eduardo.  Está sendo injusto comigo.
            — Vou contar tudo, mas, por favor, não me julgue.
            — Eduardo, você sabe muito bem que meus julgamentos só a mim dizem respeito.
            — É exatamente por isso que não tenho receio de contar.
            — Fala, homem!
            — Gina, por um acaso eu estava fazendo uma pesquisa.  Coisas vulgares, que todos conhecemos.
            — E...
            — E que descobri que existe uma casa, aliás, casa droga nenhuma, aquilo é uma organização muito bem feita, que entrega belas moças onde você quiser, basta indicar o lugar.
            — Esta é a minha sósia, parece.
            —Tirando o que sinto por você, praticamente não há diferença.
            — Foi o que bastou para marcar hora, local e outras coisas?
            — Foi, Gina.
            - Sentiu-se realizado com ela, Eduardo?
            — Nem um pouco.  Não era você!
            — Eduardo, eu quero casar, como a minha amiga!  Se não casar, sonho de toda moça, ao menos ter companhia ao meu lado.  Sempre...
            — Reconheço sua vontade, Gina. Você sempre soube disso.
            — Então continue o que estava me contando.
            — Sabe, era tão bonita quanto você.   E de corpo, querida, era melhor.
            — Querendo me fazer ciúmes?  Já fez.  Acabou de fazer.
            — Minha intenção não é esta, Gina.  Confio em você para contar uma experiência.  Foi muito marcante.
            — Mas além de falar que era uma prostituta, bonita e com o corpo mais bonito do que o meu, não contou nada!
            — Ela percebeu que estava sendo usada não como mulher paga, mas como substituta de outra.
            — Substituta como, se você nunca teve nada comigo?
            — É exatamente isto.  Eu devo ter transmitido um sentimento forte.  Estas mulheres são vividas, percebem tudo.
            — Sentiu o prazer que esperava?
            — Na hora, senti.  Passados uns minutos, olhei a moça. Bonita, mas não era você.
            — O que esperava, Eduardo?
            — Esperava que você se manifestasse.
            — Eu?  Está delirando...
            — Gina, você tem um aspecto estranho.  Acho que é capaz de se transpor.
            A cerimônia de casamento já havia terminado e nós dois permanecíamos diante da porta da igreja.  Não tinha muitas palavras.  Por um impulso que não deveria ter acontecido, contara tudo para a mulher com um incrível olhar de mistério, e que tinha o dom de ser honesta e ordinária, sincera e falsa, muito compreensiva e intolerante.  Reunia, como todos nós, os opostos dentro da sua alma, e os usava sempre que necessário.
            — Eu me transpor?  Desde quando tem esta idéia?
            — Desde que você escreveu que fatos não ocorrem por acaso.
            — Ficou apegado a estas palavras?
            — Um pouco.  Não negue que você é meio bruxa.
            — Talvez seja o meu sangue.  Desconfio que tenham ciganos nas minhas origens.          
            — Algo de estranho tem.  Ainda mais quando você está com este vestido branco.
            — Ele incomoda você?
            — Pode ter incomodado a muita gente que estava no casamento.  A mim só impressiona.
            — Eduardo, toda esta conversa é para termos certeza de que não seremos um do outro, e caso isto aconteça será uma coisa passageira?
            — Acho que sim.  A coisa vai por aí.
            — Posso morrer de vontade que isso aconteça, mas não vai ocorrer nunca.  Seria muito sofrimento para mim e para você.
            — Eu nem sei bem se suportaria uma relação, Gina.
            — Você ainda tem vontade de encontrar a moça?
            — Que moça?
            — A tal prostituta moça e bonita!  Bota a cabeça do lugar, homem!
            — Sim, é muito fácil encontrar a guria outra vez.
            — Faça o seguinte: procure-a. Seja carinhoso com ela. Delicado.  Trate-a como se fosse uma pessoa amada.
            — Que história é esta?
            — Você ouviu, Eduardo.  Faça isto.
            Deu-me um beijo suave e com amor; era impossível não sentir isto.  Afastou-se, entrou no carro e partiu.
            Como eu nunca havia duvidado de Gina, no dia seguinte procurei a bela Nina.  Este era o seu nome.
            Tudo aconteceu normalmente, mas a certa altura a presença de Gina ficou estranha e muito forte.  O rosto e o corpo eram dela.  Entidade?
            Até hoje fico me perguntando se devo acreditar nisto...




12 comentários:

Aida disse...

Nina era a própria Gina.

Célia Rangel disse...

Um capítulo da vida que pode nos acontecer... Basta que não viremos a página...
Conto envolvente!
Abraço.

Caio Martins disse...

Raramente as pessoas se transportam, em diferentes momentos. Quem já viveu o fato sabe disso. Belíssima história, sem estórias. Gostei, Jorge!

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Delírio, ma non tropo. Abraços, Jorge.

Carmem Velloso disse...

Envolvente, Jorge!
Um conto baseado em diálogos, não sei se por exercício seu, ou para dar mais ênfase na "história sem estórias".
Beijo
Carmem

ॐ Shirley ॐ disse...

Esse conto, mostra o universo de complexidades
que existe na vida do ser humano... Poderia ser trecho de um livro seu, Jorge.
Muito bonito.
Beijos!!!

Sueli Fajardo disse...

Encanto de história! Encantamentos e entidades existem. O mundo está cheio de mazelas e de encantamentos. Beijos.

Tais Luso disse...

Terminou como verdadeiro conto, Jorge!
Deixou o suspense final para nós ficarmos matutando: não seriam a mesma? Tão iguais...
Grande abraço!

Celso Panza disse...

Oi Jorginho, não conheço entidades, busco pela fé conhecê-las, difícil. Piranhas têm outra configuração, mesmo bonitas e pagas. Uma história da sua criatividade,é assim mesmo, bem disse Marcelo Pirajá: "Delírio, ma non tropo". Tenho o mesmo sentimento, já vivi bastante. Abração.Celso

Dolce Vita disse...

Argumento muito bem conduzido. Parabéns!

Anderson Fabiano disse...

A bela da tarde... mix de fantasia e realidade... a musa buscada. Lindo!
Meu carinho,
Anderson Fabiano

Mardilê Friedrich Fabre disse...

O que dizer que não repetição. Gosto dos teus contos, mas este me surpreendeu, dado o inusitado. Abrs. Mardilê