sábado, 4 de setembro de 2010

Erro quase fatal

Ela

















O médico, velho amigo, examinava cuidadosamente os resultados dos testes e radiografia. Sua aparência era cada vez mais sisuda e preocupada.
- Alguma coisa errada?
- Não é possível. Você não apresenta sintoma nenhum disso.
- Disso o quê?
- Calma. Deixa eu olhar outra vez.
- Coisa séria?
- Pelo que vi, sim.
E mergulhou nos exames do amigo. Conferiu, reconferiu. Um tumor grande no pulmão esquerdo. Sinais de metástase.
Eram amigos há longos anos.
- Ou seus exames estão errados, ou a coisa vai de mal a pior. Vamos repetir esta porcariada. Você não tem sintomas disso.
- Câncer?
- Tomado. Tem tumores demais. Deixa que eu ligo para o laboratório.
Deu um abraço no amigo, levou até a porta e tentou acalmar: “ou erraram feio, ou trocaram o exame.”
O condenado entrou num bar próximo, tomou dois uísques grandes e fumou, o que não fazia tinha tempo.
Era sozinho. Morava num excelente apartamento de dois quartos, um luxo para os que não têm família. Vera não aguentara as estranhas atitudes do seu companheiro. Aparentemente, ele não ligou. Gostava dela, mas sua paixão mesmo era pelo corpo perfeito e a entrega total.
Estava com fome e sem a mínima vontade de pedir a excelente comida do restaurante ao lado, pratos sempre apetitosos. Abriu a geladeira, com o copo de uísque na mão. Sem gelo. Gostava da bebida e tinha sempre duas garrafas no seu móvel da sala. Esta comida não agrada ninguém. Arroz gelado e carne assada idem. Foi o que comeu.
Era major do exército, foi para a reserva quando perdeu dois dedos pequenos do pé esquerdo ao tentar chutar para longe uma granada de efeito moral.
Procurou sua Colt, no lugar onde sempre guardava. No extremo da cama, quase embaixo. Era fácil de ser encontrada. Pegou e olhou.
O brilho azulado profundo confundia com o negro. Retirou o carregador. Não gostava de usar cartucho na câmara, a bala na agulha. Pesada, a quarenta e cinco.
Imaginou-se tomando morfina sintética para passar as dores. Colocou mais uísque no copo. Bebia bem, mas não abusava.
Dormiu sem saber como, e foi acordado pelo telefone do amigo médico.
- Callado, os exames não são seus. Acabo de receber a informação do patologista.
- Não são meus? Não tenho nada?
- Nadinha!
Pegou a Colt e outro carregador. Nas forças especiais, o capitão Callado tinha o apelido de “Coisa Ruim”. Na noite anterior, quase tinha usado sua arma. Contra si mesmo. Foi direto para o laboratório. Não iria usar a quarenta e cinco, mas um golpe que poucos, muito poucos legistas sabem diagnosticar a causa mortis. Levou um susto.
Verinha, com seu escultural corpo, era a assistente do médico. Foi uma noite de amor desesperado.

16 comentários:

Rita Lavoyer disse...

Então...
O tiro que você deseja acerta, acaso é no peito do seu leitor, não é?
Hum... Jorge, Jorge! Quase não me levanto da frente da tela.Ainda não bebo. Ainda...
Grande abraço, grande escritor de tirar o fôlego.

Gil Façanha disse...

Que maravilha de conto, Jorge!! Fiquei tão feliz pelo final..rsrs.. Parece até que era amigo meu também..rsr. É bem verdade que receber um "possível" diagnóstico desses faz qualquer um pensar na morte, e se pode ver a vida passando como a um filme, mas saber que foi engano, faz por merecer uma noite de amor desesperado... Antes que o médico ligue e descubra que o engano, estava na última informação...rsrs. Beijos de carinho e saiba que realmente ADOREI.

Chica disse...

Tu és genial...Que final,heim??Muiiiiiiiiito legal!E por pouco não teria tido essa chance,né?abração,chica

lino disse...

Grande recompensa depois de um grande susto!
Abraço

Caio Martins. disse...

Eita!!! O "Coisa Ruim" passou um mau pedaço... Está ótimo, prende a atenção da primeira à última linha, como é do feitio das suas crônicas. E, claro, o final feliz dá uma sensação de alívio. Talento, meu caro Sader, é coisa inata, para quem tem.

Parabéns!

Ana Maria Pupato disse...

Jorge, depois você diz que erro quando te chamo de grande cronista...rsss Modéstia, meu amigo!
Muito instigante!
Parabéns!
Beijos mil!!!

Sil.. disse...

Nossa, e que história rs.

Quase uma vida se acaba por não saber esperar (Me pergunto se a gente sabe mesmo isso).
Mas o que valeu, foi o final!

E tudo terminou numa noite de amor rs.

Beijooooo Jorge!

Tava com saudade de passar aqui, e te ver por lá!

Michelle Nazar disse...

Final surpreendente. Como cada vida deveria ser. Abraços e parabéns pela divina sabedoria amigo!!! ;)

Aline Capistrano disse...

Gostei do final caliente...

obrigada por suas palavras de insentivo sobre eu escrever um livro.

abraços

Cantinho da Cê disse...

Excelente conto, estupendo final...

Adorei sua visita ao meu blog e a inevitável chance de poder vir até aqui...

Bom feriado Jorge,

Beijos da Cê

Ira Buscacio disse...

Jorge,
Viver é minha maior paixão.

Adoro seus textos, sempre bem elaborados e criativos.
Vc bem que deu uma mãozinha pra esse personagem, heim!
Pra quem tava com o pé na cova... uma noite de amor, não é nada mal.

Bjocas e bom feriado

J Araújo disse...

É a primeira vez que venho aqui e confesso que fiquei encantado com o que vi. Um conto excelente.

Parabéns!!

abraço

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Bom demais, Jorge. Frases curtas, final desconcertante, precisão e domínio narrativo. Um tiro certo! abs

Luiz Alves disse...

A magia do conto bem contado é a capacidade de escrever uma história curta com começo, meio e fim. Muitos autores gostam de finalizar a historia de maneira inusitada, outros simplesmente terminam. Aqui voce soube explorar o assunto de maneira instigante e finalizar de maneira suave, sem morte, sangue ou atitudes chocantes.

Muito bom conto Jorge, parabéns!

Barbara disse...

Deu vontade de um gole com gelo.
E a Verinha - talvez nada "vera" - né não?
Escreve mais prá gente.

Tais Luso disse...

Gostei muito do conto. Quando estava lendo lembrei-me de uma pessoa que ao receber um diagnóstico assim, saiu do laboratório, alucinada e chorando muito. Desatinada. Repetiu o exame noutro laboratório e não tinha nada. Mas a marca ficou; o sofrimento nunca foi esquecido. Seu conto acabou muito bem, o que aliviou o leitor. Preferi assim... Sempre queremos um final feliz. Uf.
Beijo.
Tais luso