sexta-feira, 24 de junho de 2011

O Intelectual












O Intelectual

Gilberto Tainha. Pois é, com este nome de peixe, e metido a intelectual.
Escrevia prosa mal; poesia pior ainda. Estava sentado, papel velho na mesa, que ele lia atentamente. “Um célebre poeta polaco, descrevendo em magníficos versos uma floresta encantada do seu país, imaginou que as aves e animais ali nascidos, se, por acaso, longe se achavam, quando sentiam aproximar-se a hora da sua morte, voavam ou corriam e vinham todos expirar à sombra das árvores do bosque imenso onde tinham nascido.”
Ele leu com atenção e em voz alta. Não era grande a roda de amigos. Três, que bebericavam um saboroso uísque enquanto a conversa costumava se esticar até tarde da noite. Veio a patuscada.
- Escrevia muito bem, o Alencar.
- Quem?
- Está brincando, deixa disso estou lendo um trecho dele. Não sei de qual livro. É uma folha solta que encontrei.
- Mas isto nunca foi de José de Alencar, Tainha. É “O Torrão Natal”, de Joaquim Manuel de Macedo.
- Tem certeza? Aqui não está escrito o nome do autor.
- Certeza absoluta. Está no Rio do Quarto.
- Não conheço.
- Deveria conhecer. Um dos males de hoje é exatamente este. Prosadores que não conhecem nossos grandes antepassados, e poetas que não sabem quem foi Alberto de Oliveira, por exemplo.
- Ora, mas este eu conheço bem. Antônio Mariano Alberto de Oliveira, homenageado até por Bilac.
- Ora! Conhece o nome todo, de cor.
Neste momento, o barbudo que tocava um indolente barroco no piano, não se conteve.
- Tainha, porra! Explica isto. Sabe até que o homem foi homenageado por Bilac!
Tainha ficou calado. Não disse que Alberto de Oliveira era seu tio. Ninguém ali sabia do fato. Melhor assim. O idiota não havia herdado nada, absolutamente nada, da veia poética do parente famoso.

imagem: Alberto de Oliveira/Google

9 comentários:

Efigênia Coutinho disse...

Gosto de ler suas crônicas, essa está super especial,
meus cumprimentos a você Jorge!
Efigênia Coutinho

Rita Lavoyer disse...

Pois olhe, seu Jorge,meu bom intelectual, lhe digo que talento não se herda, não!
Pois cada qual tem o seu, inclusive para ser abestado. E olhe que para carregar esse título tem que ter muito talento, pois pois, ou não?

Mardilê Friedrich Fabre disse...

É, Jorge, como sempre um texto que me faz refletir. Não se herda "verve literária", mas Tainha poderia escrever razoavelmente se LESSE (não sabia nem quem era o autor do texto que lhe chamou a atenção). E sabemos que todo o bom escritor é um GRANDE leitor. Abrs. Mardilê

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Contrariando o ditado, filho de peixe, ou melhor, parente de Tainha... muito bom o texto,meu amigo. Abs, Jorge.

petuninha disse...

Querido Jorge!

Adorei o texto, meu amigo!
Muito interessante e de bela arquitetura narrativa.
Beijos da Petuninha.

Caio Martins disse...

Jorge tem o dom de nos colocar em meio da ação e da cena. Excelente, meu amigo!

lino disse...

A arte não se herda.
Abraço

Amanda Lemos disse...

Gostei bastante do Blog.
Muito interessante !

É bom ver a cada dia que passa mais originalidade nessa "blogosfera". :)

Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir..;
http://bolgdoano.blogspot.com/

Muito Obrigada, desde já !

chagoso disse...

Talento não se herda... mas uma forcinha no ácido desoxirribonucleico, acho que ajuda... Não no caso aí do "Intelectual". É por isso que minha vida de cronista morreu na primeira tentativa... rsr