terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Não escrevo poesias



                                          

                Muito poucas vezes arroguei-me postar poesias.
            Justifico-me.  Sinto minha pequenez diante de poetas que conheço e admiro, e não tenho a ousadia de como eles criar.  São maiores, não estão ao meu alcance, gigantes que o tempo consagrou, os professores louvam embevecidos, a crítica aplaude — ainda que nem toda concorde com os poetas e poemas, mas teme ser apedrejada caso discorde.
            Longe de mim julgar os corajosos literatos que não permitem ficar estacionada a poesia, repetindo os antigos mestres.  São corajosos!  Como não possuo tal desprendimento, admiro os poetas que não deixam fenecer a arte dos versos.
            A grandeza de tantos famosos amedronta o cronista, que dá como exemplo o seu poema favorito, uma redondilha maior onde Castro Alves mostrou todo o esplendor do canto.

 O Livro e a América

Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... co'os
firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
>
"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteon?...
Marchar co'a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

Castro Alves




14 comentários:

Ana Lucia Franco disse...

Tua humildade é grandiosa, Jorge, teus textos são ótimos, há uma cadência cativante neles. Se quisesses versejar, certamente farias muito bem. Mas, o verso é um vício e não sei até que ponto recomendável.

beijos.

Rita de Cássia Zuim Lavoyer disse...

A Poesia é um canal, também, para despejo de aflições, embora não tenha compromissos com isso ou com aquilo, apesar de haver vertentes.

A verdadeira já nasce bela.

Há um ditado popular que diz
"o que é bom já nasce feito"
são essas Poesias que permanecem, nasceram de grandes ventres.

Também há outro ditado popular no qual eu me apoio:

"Não custa tentar"
se o negócio vai vingar,
aí é outro caso.

Gostei da sua visão, mas já li grandiosidades em versos aqui neste espaço.

Célia Rangel disse...

Discordo plenamente, Jorge! Você é a poesia em pessoa. Quem o lê e incorpora seus textos, sente seus versos, sua poesia de vida e na vida... Brinca com as palavras metaforizando-as, de tal forma que, se isso não for versos, poemas e poesias... desisto! Na serenidade de sua sabedoria aflora-se o 'humilde poeta' que muito me ensina, em apenas ser!
Abraço amigo, Célia.

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Se há razão em dizer que Castro Alves foi grande, nem por isso Jorge Sader pode julgar-se tão pequeno. Até porque já vi coisas muito boas suas por aqui, em forma de poema. Um abraço, Jorge.

Marco Bastos disse...

Quer queira ou não, você é um poeta, Jorge. A poesia tem mil caras, e uma das que mais gosto, diz que ela é síntese, estranhamento e metáforas.`E são essas características que encontro na sua prosa (também já li boas poesias suas)sempre permeada por coisas belas, inusitadas, e obedientes à sua racionalidade exigente. Eu só não gosto da poesia vazia e melada. Essa que você publicou é rara, por ser de um gênio. Abraços.

marcia disse...

Jorge,tudo que escreve tem poesia,elegância,e mais que tudo...uma ternura infinda...bjus

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Pois é, Jorge, já eu não me aventuro muito na prosa, porque penso ser a prosa mais difícil que o poema. Porque, Amigo, poesia, eu posso escrever em prosa ou versos. Cito o exemplo de cronistas líricos excelentes, como Rubem Braga e Cecília Meireles. E tu, Jorge, és muito bom quando escreves prosa e também já li poemas teus ótimos. Abrs Mardilê

Nadir D'Onofrio disse...

Jorge cada qual, com suas características peculiares.
Tu gosta de crônicas eu gosto de lê-las, não fazes rodeios cansativos
vais direto ao que interessa. Contudo tive oportunidade de ler poemas escritos por você, que nada deixaram a desejar! Penso que nada tens a temer diante dos ditos, grandes poetas.
Cumprimentos pelo bom gosto, na escolha da redondilha de Olavo Bilac.
Abraços...Nadir

Graça Campos disse...


Amigo Jorge!
A tua poesia é toda prosa das mais realistas, e, em se tratando de sentimento, é monte em tua objetividade tão peculiar! Admiro a sensibilidade com que escreves crônicas, com a poesia da vida,embora sutil, mas total e sincera!Abraço.

Graça

Caio Martins disse...

Marujo, importa que tipo de navio; o importante é chegar lá.
Forte abraço.

cristinasiqueira disse...

Em pleno crepúsculo me enredei em redondilhas.
Deslumbrante o poema de Castro Alves.
Mas sabe amigo Jorge o que mais admiro na poesia é o singular de cada ser poeta.A alma viva palpitando em frêmito " escrevinhador " ,o trânsito pelo tempo fluindo em palavras.Gosto de seus textos,de sua abençoada verdade.Sua prosa por vezes é lírica e seus poemas por vezes sào prosa.Tá tudo ai...prontinho.

Beijos,

Cris

Jota Effe Esse disse...

Pra mim o importante é escrever o que pensa, poesia, prosa, ou o que seja, fica valendo o que está escrito! Meu abraço.

Anderson Fabiano disse...

Salve Jorge,

Postei recentemente lá no meu blog "Pensares", uma das minhas antigas: Quem escreve a poesia é a alma. O poeta apenas segura a caneta.

Cá entre nós, se um dia você resolver escrever poesias, apenas segure a caneta e fique tranquilo, sua alma escreve pra cacete!

Meu carinho,

Anderson Fabiano

Espelho disse...

Lindo Jorge! A simplicidade e a humildade é a riqueza de seres grandes! E VC É UM!

AMO TUDO QUE VC ESCREVE E APRENDO MUITO... SE VC É PEQUENO EM RELAÇÃO A ESCREVER POESIAS, EU ENTÃO, NEM EXISTO... EU NÃO SOU NADA, APENAS DE TANTO LER OS GRANDES, APRENDO A SER UM PEQUENINO... E POR MUITO AMAR A MANEIRA DE EXPRESSAR A ALMA - COMO DIZ MUITO BEM O NOSSO AMIGO ANDERSON FABIANO, QUE FALOU COM MUITA COMPETÊNCIA SOBRE: 'Quem escreve a poesia é a alma. O poeta apenas segura a caneta...' AMEI ISSO! PARABÉNS ANDERSON POR ESTA INTERPRETAÇÃO TÃO COERENTE!

FOI ENTÃO, QUE OUSEI UM DIA JUNTAR-ME AOS ENORMES E GRANDES ESCRITORES
PARA FALAR SOBRE O ESTADO NATURAL DE CADA SER,EM VERSOS E PROSAS... E VC COM A SUA SIMPLICIDADE ME APROVOU...

Hoje, APLAUDIREI ao COMENTÁRIO DE ANDERSON FABIANO! ELE FALOU DE ALMA PARA ALMA!