segunda-feira, 4 de março de 2013

Tempo cinza


            Já havia colocado a pesada japona usada na marinha, lã pura, azul fechado.  Antes de sair, esquentou o café ainda fresco que havia tomado antes de vestir roupa para o frio.  Colocou na caneca de cerâmica e bebeu em pequenos goles, estava delicioso.
            Saiu, desceu a escada, um só lance, pois estava no primeiro andar, abriu a porta do edifício velho, mas muito bem conservado, como todos do local.  Uma rajada de vento frio açoitou-lhe o rosto.
            “Diabos soltos, vento e neve fina”, pensou.  Meteu as mãos nos bolsos, estava sem luvas, não gostava de usar, incomodava, tirava o tato. Colocava quando não tinha jeito mesmo, o frio era selvagem.
            O relógio no poste mostrava dez e quinze, boa margem para chegar ao grande escritório da redação.  Duas quadras, não seria penoso aguentar aquele maldito vento gelado no rosto.  Lembrou-se de Sofia Irinova, sua pele macia e quente, seu corpo aconchegante.  Estaria esperando com as instruções e a papelada, formalidades indispensáveis para o encontro com o presidente.  Conseguira a entrevista, fato quase impossível, graças ao seu amigo Timothy Bancroft-Hinchey, diretor da edição em português do Pravda.  Não é qualquer jornalista, por mais conhecido e importante que seja que se aproxima do todo poderoso Vladimir Putin, o mais forte político da Federação Russa.  Forte e temido, havia sido o último chefe da KGB, o serviço secreto da Rússia comunista.  O assunto era a compra de aviões militares, principalmente caças, e interessava ao governo tanto a venda, como a divulgação da notícia, que poderia ser dada por um ministro ou militar que trabalhasse na área, mas não.  Desta feita o próprio Putin queria passar a informação, valendo-se dela para usufruir pessoalmente as vantagens do bem sucedido negócio russo com o governo brasileiro.
            Sofia Irinova resplandecia beleza no seu vestido cor terra de siena queimada.  A calefação transmitia uma intimidade naquele espaçoso escritório onde a fumaça dos cigarros era intensa.  “Mas como fumam, estes russos!  Fumam, bebem e comem.”  Alan acendeu também um cigarro, enquanto saboreava outro café, desta vez oferecido por Sofia, cujo corpo perfeito estava modelado pela roupa justa.   Guardou a papelada numa pasta pequena, que a bela jornalista russa havia lhe passado, junto com os documentos.
            O almoço não poderia ter sido melhor.  Batatas cozidas cobertas de creme de leite, salmão defumado guarnecido com aspargos, arroz e vinho branco.  Trocaram carícias e passariam o fim de semana juntos, no apartamento dela.   Havia mudado de roupa para o encontro.
            Putin, como sempre, estava num elegante terno cinza claro, gravata vermelha e fala solta.  Quem o imagina mudo ou reticente está enganado.  Quando interessa, o homem fala pelos cotovelos.  Era o caso, a notícia correria os jornais europeus e americanos.  Venda de armamento sempre é manchete destacada, os concorrentes que perderam o negócio amarguram a derrota, as fábricas perdem dinheiro e prestígio.
            Reunião terminada e rua novamente.  Parada obrigatória para tomar um conhaque da Armênia, mais café, e outro cigarro.  Quinta-feira, ele estava perto de ficar colado a Sofia, e semana seguinte, Rue du  Faubourg Poissonnière uma vez mais.  Paris, França.  Ouviu os passos próximos, olhou para trás e não gostou do que viu.  Rápido o chaveiro que era colocado num mosquetão de escalada e no rapel, tão em moda, serviu para ser usado como um soco-inglês.  O golpe desferido foi na têmpora esquerda do tipo.  Marginal, sem dúvida, a polícia não perderia tempo apurando quem havia feito tão bom trabalho.
            Alan fizera o serviço militar nas forças especiais francesas, treinadas contra o terrorismo urbano.  Sabia como se defender, e sabia também que quanto mais cedo fora da Rússia, melhor.  Sofia Irinova ficava para a próxima, e no dia seguinte estava outra vez bebendo um tinto num bistrô na esquina do Boulevard Poissonnière com a Faubourg Poissonnière, perto da estação do metrô Bonne Nouvelle.  Tão logo o verão carioca terminasse, voltaria para o pequeno, mas muito confortável apartamento na Rua Barão da Torre.  Os dias cinzentos ficariam luminosos e coloridos.     
                

13 comentários:

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Bela e concisa ficção, Jorge. Viajei duplamente no texto - voltei há alguns meses atrás quando conheci Paris e fiquei num hotel a poucos metros do metrô Poissonière, em Montmartre. Voilà! Um abraço.

Graça Campos disse...

Belo texto, amigo Jorge! Super bem elaborado, de uma criatividade admirável! Também viajei enquanto lia e apreciava. Parabéns! Abraços.

petuninha disse...

Olá, Jorge!

Parabéns pela bela narrativa, muito bem trabalhada!
Beijo.

Marco Bastos disse...

Prezado Jorge. Um conto muito bem estruturado que não se esgota na narrativa das cenas e não se prende a detalhes sem importância. Sobrevoa sobre os personagens, indica suas motivações e insinua os ambientes - os fatos são colocados de forma aberta para que o leitor construa o entendimento. Aplica sobre assuntos da atualidade os recursos que o autor conhece do classicismo literário. Uma leitura cativante. Obrigado por partilhar. grande abraço.

Célia Rangel disse...

Uma ficção que pode muito bem tornar-se realidade... ou vice-versa... Localização...Clima... Cardápio... Romantismo... Intimidade... apropriados!
Abraço, Célia.

Ana Bailune disse...

Olá! Gostei de ler. Adorei a caracterização dos personagens, e imaginei o frio gelado, sem as luvas... brrr...

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Sabe o que me delicia, Jorge? A tua familiaridade com a narração. É perfeita, é plástica. Daria para fazer um curta. Abrs. Mardilê

marcia disse...

Jorge,seu conto me prendeu do começo ao fim..bjus

Maria Flor✿ܓ disse...

Olá Jorge,
A saudade apertou e cá estou a me inspirar.
Tempo Cinza é magnifico, belíssimo!
Meus aplausos!
Muita Luz em seu caminhar!
Beijos

Caio Martins disse...

Excelente só para variar, Mestre Sader, com seu estilo inconfundível. Cada cena fala por si, sugere outros roteiros e dá trela à imaginação. Forte abraço!

Rita Lavoyer disse...

Ainda bem que não tinha câmera instalada naquela rua, permitindo que os dias cinzentos tornem-se luminosos e coloridos. Bem ao seu estilo, Jorge! Adorei!

Anderson Fabiano disse...

Jorjão,

Vou tentar manter esse ritmo na cabeça quando retomar meu novo romance "A lata de biscoitos". Tudo a ver.

Definitivamente, tenho que inventar um tempo praquele vinho em Niterói. Nós merecemos.

Meu carinho,

Anderson Fabiano

cristinasiqueira disse...

Problema sério!!!!!!!!!!!!!!!!
Quero mais...
Este clima noir,esta escrita em PB quase sépia,enfumaçada.
Beijos *

PS-obrigada pela presença no www.euamotrancoso.blogspot.com
Quem sabe um dia vc se recolhe por lá para escrever seus bem tocados contos !Mais beijos *