domingo, 9 de março de 2014

Violinista

            
 
            A sala ampla e iluminada pelos raios solares abrigava músicos e seus instrumentos, num ensaio comum.  Ninguém se atreve a dar concertos, ou fazer apresentações sem criteriosa preparação prévia.
            Sentado na segunda fileira da orquestra, sem roupa de praxe usada nos dias de teatros cheios, o violinista olhava seu instrumento brilhante e bem tratado.  Trajes simples, uma elegante camisa branca de mangas compridas, calça jeans já bastante macia pelo uso continuado e ainda cheirando a banho prolongado, frio e com sabonete de qualidade, o músico aguardava as batidas da batuta do maestro que indicam os preparativos para o início da execução.
            Moço ainda, ganhando experiência, ouviu as três batidas características e o gesto do maestro avisando o começo do ensaio.  A primeira peça a ser tocada era a “Barcarola”, de Offenbach.  Sempre agradável, alegre e conhecida, prestava-se bem para começar os trabalhos.  Ouviram-se os primeiros acordes.  Soavam como o ambiente, calmo, concentrado e harmonioso.
            “Segundo violino, você está desafinado.”  A voz do maestro veio dura!  Pegou completamente de surpresa o jovem músico, que não tivera o cuidado de fazer uma comparação com seus colegas.  Realmente, estava desafinado, fato imperceptível aos ouvidos comuns, mas não ao maestro experimentado, batuta apontada para o advertido.
            O “spalla”, primeiro-violinista de uma orquestra e o músico mais importante, facilmente identificado por sentar-se na extremidade esquerda da primeira fileira, sempre muito conhecedor da sua arte e pronto para substituir o maestro, se preciso for, também percebeu o fato.  Seu colega estava realmente desafinado.   Um pequeno aperto na cravelha e o instrumento ficou em ordem. Estes incidentes ocorrem com frequência, mas não agradou nada ao homem que pretendia falar com a jovem e bela flautista, olhos expressivos, lábios bem feitos. Ele desejava a convidar para um descompromissado lanche, talvez nem tão sem intenção assim, mas de toda forma era o que havia planejado dizer.
            Desafinado... Todos ouviram, inclusive ela, que não havia notado o pequeno senão.
            O ensaio terminou.  O violinista desafinado saiu rápido.  Não falou com a colega.  Dentro do bar elegante, tomava o segundo conhaque e fumava igualmente o segundo cigarro.  Afinal, o maestro apareceu, caminhando displicente na calçada, passando a mão nos cabelos.  Sentiu a pequena pontada na barriga, a faca de mola, tão usada pelos ciganos, como era o músico que havia sido chamado a atenção em voz alta, todos escutando, não foi usada para causar ferimento grave ou morte.

16 comentários:

Caio Martins disse...

Beleza, Sader! Quem já passou por um mico desses sabe quanto é ruim, inda mais se se na presença de objeto de desejo. E a vontade é mesmo espetar o causador do incômodo. senão coisa mais drástica... Gostei!

Célia Rangel disse...

Diante disso tudo... só mesmo "a revanche"... Afinal, arte é expressa segundo o artista (ou o arteiro...)
Abraço.

marcia disse...

Muito bom,Jorge!Como sempre com um final inusitado...bjus

Blogat disse...

A narrativa vai seguindo como sempre envolvente e, de repente, você nos "espeta" com um final desses!!! Totalmente seu estilo!
beijos afinados.

Marco Bastos disse...

Muito bem, Jorge. Um violino desafinado ou mal tocado é de arrepiar qualquer vizinho. A mulher do delegado, toda tarde, sol quente derretendo, me dava dor de dentes. rs. abrçs.

marcia lailin disse...

não pensei no violino mas no conhaque
Era Presidente?

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Bravo!!!
(para o violinista e seu compositor)
Abraços, Jorge.

petuninha disse...

Quando acontecem fatos de revanche na vida em geral,muitas vezes são fatos semelhantes a este que ocasionam. Simples na aparência, mas que deve ter ferido o íntimo do violinista. Não sabemos o que as pessoas guardam no íntimo, muitas vezes há vulcões borbulhando.
Mas, também ninguém quer ser humilhado na frente de outras pessoas.
Parabéns pela cronica. Beijo.

Maria Coelho disse...

Gosto do jeito descomplicado de narrar e, ao mesmo tempo, impecável. Abraço

Marineide Dan Ribeiro disse...

Nossa que final!!! Arrepiei...

Uma semana linda e de muita paz!

Bjusssss

Sueli Fajardo disse...

Reação muito comum hoje em dia, em que a humildade passa longe de muita gente. E pior: muita gente que ainda não tem desenvolvidos talento ou técnica, sente-se ofendida diante de alguém que já os tem e que está ali justamente para orientar. Os ensaios são para isso, ou não são? E os mestres também.Amei seu texto. Pontual sua observação sobre a arrogância. Parabéns, querido amigo. Abraços.

Ana Bailune disse...

Fiquei triste por ele...
Belo conto, Jorge!

Maria Carmem Velloso disse...

Como de costume, muito bem escrito. Como seus finais, surpreendente.
Bjs. Carmem

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Escrito co o conhecimento de quem sabe. Palavras todas bem apropriadas e do que mais gosta o final inesperado: próprio de quem sabe. Abrs Mardilê

Marineide Dan Ribeiro disse...

Passando pra deixar meus votos de um ótimo fim de semana!

Anderson Fabiano disse...

Jorjão,

Suas palavras foram desenhando um cenário de violino afinado e cada expressão, cada gesto, cada decepção ganharam vida no meu imaginário.

Definitivamente, você é o nosso maestro!

Meu carinho,
Anderson Fabiano