segunda-feira, 6 de julho de 2015

Maktub

   


            A casa arrebentada, com marcas de ataque de mísseis manuais, tiros de fuzis automáticos e sacos de areia que se amontoavam até o teto, estava ocupada por vários homens.  Alguns usavam capuzes, outros não.
            Fortemente armados com fuzis Kalashnikov AK-47, eles compunham a corte encarregada de efetuar os julgamentos que envolviam crimes praticados contra o povo.  Os juízes, escolhidos pelo Grande Conselho da Al-Qaeda, eram cinco.  Os seguranças, todos guerrilheiros com alto treino de combate, não se sabia o número.
            O calor do lugar não incomodava os homens de muitas roupas e nenhuma cara.  Nasceram ali, iriam morrer no mesmo lugar.  Estavam acostumados ao calor do dia e ao frio da noite.  Todos eram terroristas, e por Maomé ou Alá não hesitariam em dar suas vidas.
            Na improvisada mesa dos juízes, que nada mais era do que tábuas suportadas por cavaletes, tábuas grossas, que poderiam a qualquer instante se transformarem num excelente abrigo, os cinco homens olhavam com a mais absoluta frieza para os dois réus.  Haviam cometido um dos mais sérios crimes que o povo tem horror: estupro e posterior morte da vítima, mulher casada, de trinta e cinco anos, e três filhos.
            — Os dois.  Cometeram o pecado que falam nossos irmãos que os prenderam? – foi a primeira pergunta do presidente do julgamento.
            - Não senhor – respondeu o mais magro, com barba muito mal tratada e olhar para o chão.  Não podiam olhar seus inquisidores, a lei proibia, por terem cometido um crime nefando.
            — Não cometeu?  Então nossa guarda está mentindo?
            — Sei que foi cometido o pecado contra os mandamentos do Profeta.  Mas sou inocente.
            — E você, homem velho?
            — Meu grande senhor, eu não seria capaz de cometer isso!
            — Os dois negam a acusação.  Façam entrar as testemunhas. – A voz do presidente, rouca e cheia de suspeita, era realmente tenebrosa. Torquemada parecia um santo, perto dele.  O Santo Ofício torturava e matava, mas não era violento como este. 
            Entraram os milicianos, quatro ao total. Haviam feito a prisão em flagrante dos dois que se encontravam sendo julgados.  Normalmente, nos tribunais, uma testemunha não assiste o depoimento da outra.  Ali este princípio era completamente ignorado.
            Embora civis, perfilaram-se como soldados perante a corte.
            — Pelo Grande e Sábio Profeta, juram dizer a verdade?
            — Juramos, senhor nosso!
            — O mais velho que preste seu depoimento.
            O mais velho não era tão idoso assim.  Deveria ter trinta e cinco anos, mais ou menos.  Ocupou o lugar dos que prestam testemunho.
            — O senhor era o chefe da patrulha, no momento da prisão?
            — Sim senhor.
            — Faça o favor de nos contar o ocorrido, com toda a verdade que nossa lei nos obriga.
            O homem bebeu um grande gole d’água, aprumou-se mais ainda e começou a descrever o fato.  Estava patrulhando a área, quando viu dois cidadãos correndo.
            Interceptados pela patrulha, disseram que estavam indo às pressas para uma reunião palestina.  A desculpa costuma ser sempre esta. Pedida a senha do dia, não souberam responder.  Era “o Sol e a Lua não brigam.”  Foram presos imediatamente, pois se fossem do movimento, saberiam a senha.
            Os outros milicianos falaram exatamente a mesma coisa.  Acrescentaram que ouviram vozes de moradores.
            — Eram estes os homens que prenderam?
            — Sim, nosso julgador! – a voz, em conjunto soava como um raio que destrói a palmeira do deserto.
            — E os moradores diziam o quê?
            — Falavam sobre gritos de mulher.  Perguntamos aos presos o que significava isto.
            — Foi quando alguém achou o corpo da mulher atacada?
            — Sim, e fomos à direção que ele nos conduzia.  Uma mulher estava morta, e com sinais de violência.  Crueldade extrema, senhor juiz.
            — Foi examinada por médico?
            — Um dos moradores era médico e pediu a presença de miliciano para observar o corpo.
            — Prossiga, soldado.
            — Nós quatro fomos testemunhas.  Pedimos a identificação do homem, ele era médico mesmo, e autorizamos o exame.
            — Procederam com cautela.  Mandaram os curiosos afastarem-se?
            — Sim senhor.  E o médico verificou que a mulher morta tinha sido vítima do mais vil pecado que pode ser cometido contra nossas mulheres.  Morreu por esganadura, disse o doutor.
            — Temos o laudo dele aqui.  Vocês o levaram até a delegacia das milícias.
            — Sim senhor.  Tivemos este cuidado, e lá ficaram presos os dois acusados que aqui se encontram.
            Visivelmente irritado e colérico, o juiz dirigiu-se aos réus.
            — Como tem o cinismo de negar tal fato?
            — Ela não seguia nossos princípios, senhor.
            — Você é o mais velho e me diz isto.  Não seguia como?
            — Era tarde da noite, e ela não usava véu!
            — Verdade, senhor comandante? – perguntou ao miliciano.
            — Mentira, pelo Santo Profeta!  Estava de manto e tinha o véu, que se encontrava perto.
            O sentimento de justiça entre este povo não é compreendido pelos que se orientam segundo o direito romano.  Tão logo ouviu esta afirmação, que a vítima fora esganada e não era prostituta, o mais jovem oficial levantou-se e se encaminhou para o mais velho dos réus.  Tinha nas mãos um cano de ferro.
            — Não tinha véu, era uma prostituta?
            — Parecia, meu senhor.
            O golpe foi duro.  Aplicado no joelho esquerdo do acusado, fez com que um berro de dor fosse ouvido até por quem estivesse do lado de fora, protegido por muitos sacos de areia.
            — Alá é minha testemunha!  Era uma mulher do povo.
            Em muitas ocasiões, o melhor é permanecer calado.  O homem invocou o nome de Alá, quando era culpado.
            O segundo golpe foi no peito.  O homem começou a respirar com dificuldade.
            Fora de propósito, o julgador transformar-se em carrasco.  Mas todos olhavam com asco os malditos assassinos.
            — E você, o que diz? – perguntou o presidente ao mais novo.
            — Somos vítimas de um engano, meu nobre senhor!
            O senhor não era assim tão nobre.  Foi até junto aos réus e sacou a pistola.  Um tiro no peito de um, um tiro no peito de outro.  Gostava da Colt, calibre 45.  Tiveram morte instantânea, fato que não dispensou o disparo de misericórdia, dado pelo comandante da milícia.
            Pouco depois, todos os julgadores e milicianos, enquanto serviçais limpavam o lugar, tomavam áraque com queijo de leite de cabra.
            A lei tinha sido cumprida.


   

12 comentários:

Anderson Fabiano disse...

Infelizmente, Jorjão,
Conhecemos bem esses procedimentos.
Num tempo ainda não muito distante, jovens estudantes foram condenados sem julgamento e "executados" com requinte de crueldade apenas por pensarem diferentemente do status quo da época.
O tal do ser humano ainda tem muito o que aprender antes de poder ser chamado de racional.

Meu carinho, parceirinho querido,
Fabiano

Carmem Velloso disse...

"O Sol e a Lua não brigam." Participou do julgamento, Jorge? Até onde a ficção vai e começa a realidade? Posso dizer que vi o julgamento!
Beijo.
Carmem

Caio Martins disse...

Hehê! O "devido processo legal", na estória, foi pras cucuias... Mas, caro Mestre, não creio que usem canos, ou 45: hoje estão na fase do "fé cega, faca amolada". Forte abraço!

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Dura lex, sed lex. Abraços, Jorge.

Célia Rangel disse...

Bem, leio e assisto a isso na mídia em geral. E, me pergunto: - desde quando "véu" simboliza "isenção pacaminosa"? O "hábito, nem sempre faz o monge"...
Abraço.

Celso Felício Panza disse...

O Código de Hamurabi, conhecido como primeira codificação formal iniciadora do direito como norma,gravado em pedra de diorito visível e podendo ser tocado no Louvre em Paris, é de 1722 antes de Cristo. Na Babilônia se praticou então o talião. O homem não avançou, e creio que não avançará para melhorar, humanizar-se um pouco mais. Abomino qualquer violência como causa ou efeito, como razão de punição e como a própria punição. É a total falência do Estado - já bastante falido - a pena capital. Isto não quer dizer que não exista ao alcance de nossas mãos nos conhecidos autos de resistência,não é preciso ir muito longe.Significa o testemunho da derrota do Estado como instituição, Estado pelo homem criado para organizar o grupo.
O combate da pena capital não institucionalizada levou à morte uma magistrada que iniciou seus primeiros passos comigo, Patrcia Acioli. E a pena capital,institucionalizada ou não é uma verdade ocorrente e incidente em todo omundo.Um abraço.Celso

marcia disse...

Seu amigo Caio tem razão, hoje a fase é de 'fé sega e faca amolada'...bjus

Rita Lavoyer disse...

doeu-me do começo ao fim!

Marco Bastos disse...

Toda sociedade estabelece as suas leis, os símbolos e os comportamentos que permitem avaliar a obediência e o cumprimento das leis. A cada infração (ou crime) faz corresponder a pena ou a punição que será aplicada. Registra e divulga seu Código na intenção que esta sociedade se organize conforme essas mesmas leis. Mesmo nas sociedades deístas (como é o caso), os deuses não escrevem ou ditam leis. Os deuses são construídos pela sociedade em conformidade com seus próprios valores. E cria-se o arquétipo da divindade, que mesmo não existindo agirá sobre a sociedade e sobre os homens, pela ação dos homens que acreditam que na divindade se encerra o que é bom para a sociedade. Deísta ou não, toda sociedade constrói seus referenciais e estabelece as regras para os julgamentos (no caso sumaríssimo) e para aplicação das penas. Enquanto a Ética tende a ser mais universal, pois se fundamenta no Homem, a Moral é própria de cada sociedade. Como os indivíduos não são iguais entre si e a sociedade é plural, tudo se resume no conflito Social x Existencial. ///// O seu conto é ótimo. Permite conhecer os fatos com isenção de julgamentos, e não é tendencioso. À luz da nossa racionalidade, com base em valores e princípios éticos, poderíamos pensar tratar-se de uma sociedade bárbara, fanática, e primitiva. Mudam-se os paradigmas, muda-se a maneira de julgar e avaliar a realidade social que nunca é absoluta. Parabéns. abrç
..

TEMAS LIVRES disse...

Não sei qual a arma usada que para mim é indiferente. Se não é uma é outra, mas a pena é a mesma. A barbárie é que se manifesta como rotina. O que me chamou a atenção, sobretudo, foi o estilo preciso da narrativa, sem rodeios.

ॐ Shirley ॐ disse...

Olá, Jorge, admiro muitíssimo a objetividade dos temas que escolhe. Suas frases são precisas, contundentes,e meu coração bateu forte enquanto eu lia...
Muito bom, amigo!
Beijos!

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Muito bem escrito o conto, embora não seja o assunto que eu gosto de ler. Abrs
Mardilê