segunda-feira, 15 de junho de 2015

Liberdade de expressão


          

            O escritor Umberto Eco, autor de sucesso, acaba de fazer afirmação que pode comprometer seu prestígio como intelectual.  Ou não; nunca se tem certeza.
            Assegurou que as redes sociais deram a palavra a “uma legião de imbecis” que antes falavam “num bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.  E prossegue: “normalmente eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.  Continua: “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.
            É um linguajar preconceituoso, pesado, sujo, que não é digno de um autor importante, entre eles “O Nome da Rosa”, que já li quatro vezes.  Tenho este hábito.  Bons livros são sempre relidos, não importa o número de vezes.  Por esta razão, considero-me insuspeito para falar.
            Que a quantidade de pessoas absolutamente despreparadas é bastante grande, não se discute.  O Facebook, por exemplo, está tomado por elas, mas a grossa maioria quer apenas escrever fatos do cotidiano, e não ganhar notoriedade.  Eco generaliza sem dó nem piedade, quando ele mesmo pretendeu transmitir no livro citado, “O Nome da Rosa”, que a cultura e o saber devem ser ocultados da massa.  Com esperteza, não fez a afirmação diretamente; colocou-a num tempo passado.  Os livros da biblioteca famosa do mosteiro onde a história se passa, não são do conhecimento dos monges, inclusive dos que neles trabalhavam, copiando ou ilustrando.  Ou seja, não fez qualquer esforço para desmentir o fato de que o conhecimento e o saber devem estar afastados do homem comum.
            Diferentemente do homem medieval, o dos tempos de hoje ao expressar suas ideias desenvolve consciência política e social, fato só admitido em sociedades bastante desenvolvidas.  Assim mesmo, Eco manda a sociedade ficar calada.  É muita pretensão, vontade ditatorial. Ele mesmo não é nenhum sábio.  Escreveu livro que leva o nome de uma experiência física que estuda o movimento de rotação da Terra, “O Pêndulo de Foucault”, mas não conhece as equações que o engenheiro e físico francês, de mesmo nome, deduziu após o experimento.  Não tem esta obrigação, na verdade.  É filósofo e escritor, mas deveria ter um conhecimento probabilístico para imaginar a reação do povo, diante do que afirmou sobre “os imbecis”.
            Não é o primeiro a cair nesta esparrela.  O ‘divino Aristóteles’, sem mais nem menos, do alto da sua sabedoria, disse que os corpos de maior peso – o correto é massa – quando jogados da mesma altura, caem ao solo em menor tempo do que os mais leves.  Séculos se passaram e a verdade aristotélica ficou, até que Galileu, do alto da Torre de Pisa provou que caem todos ao mesmo tempo, pois sobre eles atua uma só força, a gravidade terrestre.
            Poderia ter ficado calado, professor Umberto.  

Publicado no Pravda http://port.pravda.ru/news/mundo/19-06-2015/38904-umberto_eco-0/
  

13 comentários:

Celso Felício Panza disse...

Jorginho, uma bela manifestação,com conteúdo. O que faz a idade com a gente, nos eleva porque nos enleva. O idiota não é portador da verdade, realmente isso é uma tolice, mas o idiota se expressa, e estamos imersos (quem quer) nesse universo mais desinformado do que informado de tudo, sobre o convívio e como se move a sociedade. É a tal da internet, ótima para a comunicação, mas como tudo com sua dupla face. Redes? Distancia delas, participa dessa mecânica quem quer OU NECESSITA(?), MELHOR DIZENDO. Os intelectuais como Umberto Eco tem parcial razão, mas subsiste o lado positivo dessa larga expressão. Mas que a idiotia grassa não é inverdade, o perigo é ser absorvida. Exemplo, o que vc acha de ter um exército na mídia, faces etc, militando a favor da corrupção, de desvios confessados, de desmandos, de inserir na educação das escolas que não há mais gênero, meninas e meninos? NÃO É UMA IDIOTIA? Acho que é esquizofrenia. Abraço amigo e irmão Jorginho, e parabéns pela abordagem de tema importante, lembrando que sexta tem almoço na confraria. Contamos com sua presença. Celso

Marcelo Sguassábia disse...

Fico no meio do caminho, nesse caso. Acho que em parte ele tem razão, mas por outro lado o seu pensamento revela também um certo preconceito... Me dá um tempo pra pensar, Jorge! Abraços.

Aida disse...

Grande Jorge!!
Creio que tuas postagens anteriores foram um ensaio para nos brindar com essa pérola.
Humberto Eco não deixa de ter razão, mas acho esse um assunto banal demais para ele se ocupar, deixe-o para os mortais.

Rita Lavoyer disse...

Jorge, sua postagem é um tanto provocativa. Tomo conhecimento desta afirmação do Eco por teu intermédio, aqui, agora.
Em parte ele tem razão, há muitas inverdades na rede circulando como verdades absolutas - então aumenta a legião mesmo - como e fosse na nossa época do telefone sem fio -


De repente lembrei-me de Ivã Lins:
"
Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo...

Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores..."

ॐ Shirley ॐ disse...

Jorge, quer saber mesmo?
Pois, eu acho que o Humberto tem razão.Ele disse "uma legião de imbecis", então, muitos se salvaram, mas, que é uma legião, isso é.
Ah! Jorge, essa crônica não está boa...está ótima!!!
Beijos!

Caio Martins disse...

Jorge, pelo que sei, quando se morre não sobra nada, só cinzas ou pó... Depois que se vai para o esquife ou urna, somos todos iguais. Cada um de nós é imbecil ao seu modo, não importando se falante ou escrevente.
A condição humana, enquanto vivos, é via de regra paradoxal e, mesmo, deprimente na medida em que estamos sujeitos aos mesmos ditames naturais dos bichos. Quiçá por isso inventemos tantos deuses e ídolos, em busca de impossível e etérea imortalidade. Entre o Eco e a turba, fico mais com "Os miseráveis", de Vitor Hugo. Nessa obra, todos são mortais. Forte abraço!

Carmem Velloso disse...

Jorge, você em primeiro lugar mandou a cacetada num intelectual que faz parte da comunidade dos poderosos. Não satisfeito, pegou Aristóteles, revelando um segredo que que a Filosofia guarda escondido a sete chaves. Assusta qualquer um, meu caro. Bater contra o estabelecido, e você sabe disso, é pecado!
Mas que Eco foi preconceituoso, foi, sem dúvida. Fico a imaginar quem será o próximo da sua lista!
Beijo.
Carmem

Célia Rangel disse...

Na liberdade de expressão vejo duas mãos distintas: - a de quem produz e a de quem lê... Se foge dos padrões que nos agradam, há várias alternativas; uma delas é deletar, parar de produzir ou de ler. A escolha reflete o grau de permanência literária de autor ou leitor. Sem "pre-conceito" ou "elitismo", até os "maus textos" acrescentam-nos no "como não fazer".
Abraço.

Vera Fracaroli disse...

Preconceituoso sem dúvidas, que estamos rodeados de despreparados,
concordo Jorge, no mistério da vida conta quem tem a melhor bagagem a
oferecer. Eco com sua sapiencial e persicária que nos dá a suas historias filosóficas estudadas existentes, impressiona...
Seus livros mostram estudos dos humanos mais profundamente, em sendo um filósofo, grande observador estudioso da raça humana com suas fraquezas e proezas, onde ocupa seu tempo com coisas superficiais de pouco valore entendimento e com isso caiem na esparrela do pouco saber por não se aperfeiçoar em estudos e leituras de aprendizados que os livros e a vida lhe oferece neste caminho intelectual. e caiem na mesmice e desencanto.
Alguns seres humanos mortais que fizeram por onde a bem entende-o motivo da Liberdade de Expressão!
Outros? São a massa que desanda nossa sociedade de imbecis fatalmente ocasionando este caos de desintegração social gigantesco de raças e credos e muito mais...
Texto forte e desafiador, parabéns, um grande abraço com sucesso.

Anônimo disse...

Umberto Eco
Do grande escritor e, personalidade em questão, só li, o livro O Nome da Rosa, amei o conteúdo literário e, não poderia ter deixado de assistir ao filme.
Umberto, não está errado no que mencionou, contudo creio que, só o fez, por encontrar-se no topo da fama.
Caso fosse um escritor iniciante, jamais teria dito o que disse, até porque, as redes sociais servem de meios de divulgações para os que pretendem vender seus produtos.
Nesses casos, manter-se calado é de longe, a melhor alternativa.
Sobre a crônica você foi impecável, não poderia deixar de aplaudi-lo
desejando-lhe, mais e mais sucesso, Jorge!
Grata pelo convite.

Abraços.
Nadir D’Onofrio

marcia disse...

Jorge,concordo com cada palavra dita por seu amigo Caio...Completando: acho a arrogância um dos piores males do ser humano...Eco!pro Humberto mesmo em Nome da Rosa (amarela)...Os muitos letrados que me desculpem mas U.E pisou na bola... Bjus

Rosa Pena disse...

Grande the best! Aplausos e beijos... ( em tempo o Umberto com seus 83 já deveria ter parado...

Mardilê Friedrich Fabre disse...

É, nesta o Humberto se perdeu. Abrs. Mardilê