terça-feira, 9 de agosto de 2016

Errou

                        
 
            Um lugar perigoso, lá pelas bandas do cais do porto, mas afastado do Primeiro Distrito Naval, onde o policiamento, feito por fuzileiros treinados e competentes, não admite badernas.
            — Porra, seu idiota, não é o que está pensando.
            — Mas eu não disse nada!
            — Está pensando, não está dizendo!
            — Adivinha pensamentos, é?
            — Adivinho nada.  Está colocando esta pistola em posição de saque rápido por qual motivo?
            — Cara, nunca se sabe.  Muita gente já passou desta para melhor, ou pior, sei lá o raio que seja, por causa de bobeira.
            — E você está pensando que pode levar a pior por causa da trapaça que fez, claro.
            — Fizemos, cara, fizemos.
            O bar não era sujo, nem elegante.  Os tipos não eram comuns.  Ambos de tênis e jeans, camisas folgadas para esconder as armas, naturalmente.  Amigos de longa data, davam golpes juntos.  Mudavam de atividade, para não ficarem visados.  Gostavam do local.  Seguro, sem estes tipos vagabundos que perambulam pelas cidades e vão fazendo o que bem querem.  A bebida, chope gelado.  Algumas vezes vinha um destilado, para subir a pressão. Steinhaeger, de preferência.  O prato especial com amendoim e castanhas de caju ainda estava razoavelmente cheio.
            — Estão demorando.
            — Calma.  Este negócio é bem mais perigoso.  Lidar com traficante é foda.  São desconfiados e matam assim que percebem o perigo.
            — Estou com as mãos suadas.
            — Nervoso, é comum.  Eu também fico.
            — Mas nunca lidamos com estes tipos, Fernando.
            — Eu quero que eles se fodam.  Vendem pó e craque.  Defuntos baratos.
            — Baratos?  Os caras tem dinheiro, muito dinheiro.  Estão acostumados com altos negócios.
            — Um deles é o machão daquela que gosta de se exibir.
            — Todas gostam, ela apenas é mais atrevida.
            — Apenas?
           
            Perceberam que os compradores haviam chegado.  Dois tipos nada interessantes.  A grossa camisa de lã de um deles sugeria ou duas armas pesadas, ou doença mesmo.  Eram armas, conforme depois foi verificado.
            Não conversaram muito tempo.  Uma pequena mala foi passada aos visitantes, que se negaram a tomar o chope que estava sendo servido.  Um envelope grosso, contendo elevada quantia em dólares, foi trocado pela maleta.
            Não, não saíram tiros, socos ou facadas.  Os mastodontes do Corpo de Fuzileiros Navais agiram como relógios de alta precisão.  Os visitantes estavam errados.  Fizeram negócio com a inteligência de um órgão militar, que não interessa dizer qual.

10 comentários:

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Sim, errou. Mas a crônica policial foi certeira. Abraços, Jorge.

Carmem Velloso disse...

Escrita forte, que não é seu hábito, caríssimo Jorge. A impressão que tenho é que estou lendo Rubem Fonseca, sempre muito duro no cotidiano das cidades.
Abraço,
Carmem

Caio Martins disse...

Jorge, como se diz nas periferias vacilou, dançou! Parabéns!

Suzana Heemann disse...

Interessante tua história policial,Jorge.Tens muito talento para criar os ambientes
onde tuas histórias se passam.Parabens!
Saudações.

Ana Bailune disse...

Muito bom, Jorge.
Escrita forte sim, como disse Carmem Velloso. Mas acho que é seu hábito...

Rita Lavoyer disse...

Nossa, essa "inteligência" do órgão militar é mesmo muito inteligente. Silenciosa e certeira...
Eu, heim!

Tais Luso disse...

História forte, sim, mas esse tipo de texto, contar como?
Muito real e é preciso usar a linguagem deles...caso contrário fica descaracterizado.
Mais um episódio tipo... 'contando a vida como ela é'.
Abraços, amigo Jorge!

Gil Façanha disse...

Fui lendo e construindo todo o cenário. Fácil viajar na tua escrita. Cheguei a ficar apreensiva..rs.

marcia disse...

Errou, mas você acertou em cheio na crônica...

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Conto com tema atual. Personagens bem montados, verossímeis. Abrs