quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Não aborrece!

                     

            Lugar da moda.  Geralmente são chatos, salvo no verão, quando o chope é muito bem tirado.
            — Rapaz, deixa de implicância.  Olhe as panturrilhas dela.
            — Que tem?
            — Perfeitas, nenhuma mulher com panturrilha cheia e bem formada assim é feia.  Duvido!
            Canecas cheias, não eram de louça, mas vidro.  Os dois não aparentavam ser gente comum.  Artistas, talvez.  O que tinha feito a afirmação sobre as pernas de uma mulher que aparentava ter passado dos quarenta, usava uma bermuda para correr, estava de tênis e camisa de malha azul.  O outro, mesma coisa, só diferia a cor da camisa. Era branca e estava pouco suada.  Quem os visse, sabia de pronto que eram tipos que gostam de correr nas calçadas da praia, e depois bebem uma cerveja para hidratar, segundo eles.
            A moça, quer dizer, nem tanto assim, continuava seu caminhar.  Coxas escondidas pela roupa, mas que não impedia a visão da parte inferior das pernas.  Realmente, eram muito bem desenhadas.
            — Não trouxe o celular, vamos ficar sem fotografia.
            — Trazemos amanhã, e fotografamos de frente também.
            — Pastel ou óleo?
            — Primeiro pastel.  Se ficar bom vai no óleo também.
            Estava descoberta a profissão de um deles.  Pintor.  A gente nunca pode afirmar se era profissional ou não, no lugar quase só moram artistas.  O prato das finas rodelas de linguiça ainda estava com boa quantidade.  Os canecos foram cheios mais uma vez.  Mais esta caneca e casa, banho, e depois um aos pincéis, o outro na mesa grande do escritório.  Terminava um livro de contos.
            Bêbado costuma ser inconveniente, como aquele que entrou no bar sofisticado e se dirigiu ao pintor:
            — Salve!  Não era você que estava expondo no salão da Reitoria?  Não tem vergonha?  Você não pinta nada.
            — Não aborrece, cara.  Se manca, cai fora, deixe os que estão quietos em paz.
            — Não gosto de mentirosos.  Aquilo não é arte.
            — Vou acabar perdendo a paciência com você.  Não é arte é problema meu.  Vai comprar ou foi comprar alguma coisa e desistiu?
            — Mas nem pensar...
            — Então fora.  Está incomodando.
            A mulher das belas panturrilhas estava voltando.  Morena, muito bonita.  Os dois amigos, que já se preparavam para uma provável briga, ficaram espantados quando ela se dirigiu para onde estavam.  Bonita mesmo!
            — Clara, este é o tal pintor que vimos suas porcarias ontem.
            — Vamos embora.  Temos hora, esqueceu? 
            Era a mulher dele.  Pediu desculpas com muita delicadeza, para justificar os atos do marido, que nada percebeu, tão de fogo ele estava.


"Blue Poles", Jackson Pollock
             

10 comentários:

Luiza De Marillac Bessa Luna Michel disse...

Boa tarde Escritor Jorge: Uma leitura que apetece, enriquece e dá vontader reler reler e reler. Meus parabéns. Feliz feriado para você, Jorge, beijos da Luíza.

Luiza De Marillac Bessa Luna Michel disse...

Peço desculpa, digo: "dá vontade de reler, reler e reler."

Célia Rangel disse...

O que não faz uma manguaça, hein? Iludidos estavam e ficarão por um bom tempo...
Abraço.

Caio Martins disse...

Pois é... tem quem prefere a modelo que a obra dita de arte...

Carmem Velloso disse...

É ficção mesmo, Jorge? Parece que estou vendo.
Beijos. Carmem

Tais Luso disse...

rsss, papo realista, Jorge, mas falando de panturrilha... não são as coisas mais belas! A natureza precisa ser mais atenta! E quanto à obra, tudo tão real, já ouvi esse tipo de papo, linguagem conhecida dos apreciadores... Muito bom! Gostei.
Abraço, amigo.

Anderson Fabiano disse...

Jorjão,
Sei bem a importância de uma panturrilha. Afinal, nos meus tempos de guri, voltando da escola nos saudosos bondes cariocas, fazíamos a festa quando uma "normalista" descuidada, descortinava um simples joelho. Ah! Que maravilha...
Em tempos de saias pelo meio da canela, um joelho era como um manjar dos deuses.
Belíssimo texto! (comentário redundante, né?)
Meu carinho,
Anderson Fabiano (sem saber se peço mais um chope ou uma panturrilha fotogênica)

Rita Lavoyer disse...

Pensei que o "mulherão" fosse virar o jogo e dar um murro do cara inconveniente. Desculpas são sempre bem vindas! Boa, Jorge!

marcia disse...

Jorge,mais uma ótima leitura repleta de detalhes que me faz criar rostos e ambiente onde estão os personagens...bjus

petuninha disse...

UMA ÓTIMA CRÔNICA.

PARECE MUITO REALISTA. AS FRASES ESTÃO BEM CONCATENADAS. é AQUELA CRÔNICA OU CONTO QUE LEVA NO FINAL À SURPRESA! E, O LEITOR GOSTA DE SURPRESA! NOTA DEZ.

QUANTO À PANTURRILHA, COMPLETA UMA DAS PARTES BASTANTE COBIÇADAS DA MULHER!

BEIJOS.