domingo, 14 de junho de 2009

Verdade de todos nós

Leitor












A questão da identidade humana é fato do qual não podemos escapar. Afinal, não conhecendo o que vai dentro de nós, podemos cair a qualquer momento no buraco do desconhecido pessoal, como se fosse o misterioso e terrível “buraco negro” do universo, tão forte que mesmo a luz não consegue ultrapassá-lo. É absorvida pela energia do fenômeno celeste.
E quando caímos neste tombo, a recuperação é difícil. Vai dar muito trabalho.
Não pretendo ser hermético. Não faço o gênero, felizmente. O que pretendo dizer é que se não formos muito honestos conosco mesmo, na hora de escrever principalmente, não vamos ter leitores, seremos os eternos chatos e inconsequentes. Isto é horrível; perdemos nós e se irritam os que nos leem.
Escrever quase sempre envolve ficção, e por muitas vezes, aparentes mentiras bem contadas. Jorge Amado dizia-se um “contador de causus”, quando na verdade revelou segredos da alma humana em todos dos seus livros. O que significa no final: contava casos sim, quem conhece sua obra sabe disto. Acontece que os fatos narrados estavam todos lastreados em profunda veracidade.
O mesmo acontece com João Ubaldo. Numa das suas crônicas dominicais, li a interessante afirmação do talentoso escritor: “não sou um mero contador de casos. Trabalho com carinho meus textos, dou valor às palavras, a forma escrita, tenho cuidado com o idioma.” Repetiu o seu colega baiano...
É preciso orientar-se nestes homens. O segredo do seu sucesso está exatamente nisto, não escrever o que realmente é imponderável, não existe. O texto não convence, é logo abandonado.
Guimarães Rosa nunca falou nas suas obras. Ele as fez, simplesmente. Parece uma ficção exagerada, principalmente no “Grande Sertão: veredas.” Engano dos precipitados. A obra encerra muita verdade do interior mineiro e de fronteiras com o estado. “Viver é muito perigoso... travessia.” “Sagarana”, com o conto “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, era o prenúncio de que muitas obras viriam após. Não vieram muitas, mas o “Grande Sertão” vale por todas as esperadas e sobra...
A razão desta despretensiosa análise é uma só: todos eles conheciam os seus interiores, pelo menos a parte que é necessária para escrever, convencer e agradar. O verbo está no passado, mas Ubaldo está vivo, e bem vivo, para alegria de todos nós. Se ele dá alguma entrevista ao vivo, preparem-se para rir muito e sentir a autencidade do escritor. Ele e Mário Prata já me nocautearam com tanta doideira. Positivamente, não podem andar juntos. O país corre o risco de ir pelos ares!
Escrever sem saber esta parte essencial, o conhecimento do que se diz e passa para o papel, também é muito perigoso...

6 comentários:

Caio Martins disse...

Continuidade de "Escrever", dá o tom do cerne do autor: o respeito pelo que faz. Trabalha com amor, cada crônica é burilada como se fosse a última; ou a primeira.
Bem posto, Mestre Escriba.
O caminho das pedras é, via de regra, o mais difícil, porém o mais gratificante. O resto, é Ctrl+V e Ctrl+C. Abração.

Dilson Nobre disse...

Texto maduro e de entendedor do assunto. Escrever é ato de muita responsabilidade. Constrói ou destrói.
Parabéns.

Celso Panza disse...

Caro Jorginho, escrever é realidade(história, nossa, de outros ou ciência que estuda o curso dos tempos), ficção ou realidade-ficta, que se passa ou se passou com terceiros. A primeira não permite ausência de seriedade, as outras são frutos de imaginação e construção alterada de uma realidade, o que é legítimo. Perder a identidade é outra coisa, ao que se presta muito a internet, servindo como biombo para muitos que não são o que dizem ser ou se mostram interiormente como o que não são. Um texto para refletir, como faço. Um abraço. Celso Panza.

Márcia Sanchez Luz disse...

Jorge, concordo com você em gênero, número e grau.
Gosto muito de seus textos. Eles traduzem seu lado leitor, pois bem escreve quem muito e cuidadosamente lê.

Um beijo

Márcia

Anezinha disse...

Potencial texto e potenciais comentários, seus leitores que comentaram anteriormente são feras na área, eu apenas uma criatura curiosa ... Quero muito refletir sobre, para corrigir eventuais erros involuntários. Amei o texto! Adoro escrever! E muito, ler você!
abraços,
Rose

Anezinha disse...

Esqueci de falar da foto, do Filme O leitor, que assisti e adorei... emocionante, forte.. belo!
bjs
Rose