quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A caneta de Vargas

A arma












A última reunião no Palácio do Catete não é bem descrita por motivos políticos entre os jornalistas. Esqueceram do profissionalismo e noticiaram segundo suas convicções político-partidárias.
A morte do major da Aeronáutica, Rubens Florentino Vaz, que fazia a segurança do jornalista e político Carlos Lacerda, autor de pronunciamentos terríveis no seu jornal "Tribuna da Imprensa", maior inimigo do então presidente Getúlio Dorneles Vargas, colocou o oficialato jovem das três forças armadas contra o assassinato do colega. Decidiram não mais obedecer ordens dos oficiais-generais que fossem para defender o status quo.
Ora, o major manda na tropa. Major significa maior. Os generais traçam seus planos, mas quem os faz a tropa cumprir são os majores.
No Galeão, sob o comando do coronel João Adyl Oliveira, estava instaurado um inquérito rigoroso que prendia ou convocava quem bem quisesse, a despeito do Ministro da Aeronáutica, Nero Moura.
Vendo desesperadora a situação. Getúlio convoca os seus ministros. A idéia era pedir um afastamento do cargo, até que o impasse se definisse.
Não funcionou, os ministros não chegaram a acordo algum, naquela fria madrugada de 24 de agosto de 1954. Terminada a reunião, ele teria chamado o seu Ministro da Justiça, Tancredo Neves e conversado bom tempo. Entregou a sua caneta, uma Parker 21 de ouro dizendo “ao amigo certo das horas incertas.”
Fato complicado. Ou já teria escrito a “carta testamento”, ou usou outra caneta.
O Museu da República é farto. Mas tem presidente que na legará nada, vergonha para um país.
A imagem que ilustra a crônica não tem por objetivo chocar. De modo algum. Serve como advertência.

9 comentários:

Pedro Jorge disse...

Meu caro Jorge, é um excelente trabalho. Conheço os fatos e realmente, como você deixa entender, não foi golpe contra Vargas, mas apuração de crime praticado pela Guarda Negra.
Parece que Getúlio nada teve com o atentado da Rua Tonelero, mas generais que o cercavam convenceram Gregório a matal Lacerda. Deu nisso. Suicídio.
Parabéns,
Pedro.

Aúrea Bizotto disse...

Não vivi esta época, mas o assunto pare romance de livro.
Este crime, disseram-me foi bastante complicado, basta ver o defecho, o suicídio de um presidente.
Bom dia,
Aúrea

Blogat disse...

Sucinto e esclarecedor.Como sempre.
Abraço

Rita Lavoyer disse...

Bem, as imagens que ilustram a crônica são retiradas de cada palavra que você colocou nela. Sem pôr e nem tirar nadinha.
Mandou o recado, digo: os fatos da história.
Pessoas têm seus pontos finais. As histórias de cada um de nós, não!
Por mais simples que seja a história de alguém, em tempo nenhum será totalmente contada.
O homem tem o seu fim, mas a sua história... jamais!

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Além da aula de história, Jorge dá um show de caneta - a mais poderosa das armas. Muito bom, mestre.

Rita de Cássia disse...

Os fatos narrados pelo autor podem ser lidos em "Agosto", de Rubem Fonseca, mas parece que Jorge Sader tem mais paixão política.
Boa crônica.

Sílvia Frota disse...

Sader, você esqueceu de dizer que o Catete foi invadido pelo coronel Adyl, que arrombou todas as gavetas da guarda pessoal de Getúlio, levando documentos e dinheiro, como provas de corrupção. Vargas ainda era presidente, foi uma desmoralização completa.

Beijos.
Sílvia

Jacques Desmoulins disse...

Precisava um líder como Lacerda quando da vergonha do mensalão, para derrubar Lula. Depois de 64, os militares andam encolhidos.
Parabéns pelo artigo.
Jacques

Nadir disse...

Excelente crônica Jorge!
Regressei no tempo eu retornava da escola, quando soubemos, sobre a morte do então presidente, lembro-me que a tragédia ocasionou comoção na cidade. Depois de adulta li sobre o episódio, nunca me convenci de que tenha sido suicídio.
Nadir