quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Doçura mandou lembranças

Doce de abóbora













São seis bilhões de almas em cima do planeta. Só na China, um bilhão e trezentos milhões.
É muita gente vivendo neste cisco do Universo. Cada qual com sua mania, ou modo de ser. Muitas guerras, muitas lutas, fome, ódio. Tudo isso enquanto damos um passeio sideral pelo Cosmo.
Tem cabimento? Claro que não. Tudo neste mundo tem vida, e num dia ainda muito distante, o Sol vai findar, morrer. Acabam os países e quem quer que seja, basta estar ainda vivo, suportando um frio que não podemos imaginar. Dona Graça, ou Gracinha, como era chamada por todos, o que tinha de estranha, possuía de bondade.
Sabendo que não poderia resolver a alimentação dos que na pequena cidade onde habitavam, fazia doces diversos, para aquietar a fome e dar prazer aos que na sua cidade morava. Não era rica.
Tinha no quintal uma plantação de abóboras. A pensão que recebia do marido era curta, mas afinal o quilo de açúcar não é caro.
Começou sozinha. Conhecia uma receita de doce de abóbora de colocar o mais exigente gosto embevecido.
Acordava muito cedo, o Sol ainda estava descansando. O fogão e forno a lenha estavam disponíveis. Descascava a grande e vermelha nascida no seu quintal, fazia procedimentos que eram transmitidos de mãe para filha há longo tempo, e em breve tempo o doce descansava na pedra fria. Durinho e crocante por fora, um creme por dentro. O destino, ela mesma levava, era a escola municipal e a prisão. O falecido marido tinha sido um recluso, mas passemos por cima deste episódio.
A criançada adorava o doce, e os presos, com café mambembe e pão fresco, a única alimentação que agradava, eram servidos de um doce bem grande. Amavam a velha senhora, que viam pelas grades, levar tão delicioso quitute.
Com o passar do tempo, Gracinha tinha uma boa quantidade de ajudantes. Pessoalmente, todos colaboravam.
O doce de abóbora ganhou coco, ficou mais saboroso, e foi introduzido também o de batata. Sucesso! Apareceu um jovem padeiro. Também tinha o pai um ex-recluso. Sabia fazer pães recheados, com linguiça principalmente.
Existe até hoje, a cozinha de dona Gracinha. Morreu há alguns anos, mas seus anjos, além de continuarem a obra, levaram-na para o lugar devido.

11 comentários:

Chica disse...

Que linda hostória de D. Gracinha e distribuir doçura é muito legal! ADOREI LER!ABRAÇÃO,CHICA

Liège disse...

O que falta no mundo é exatamente isso: mais gente com vontade de levar alegria à vida dos que estiverem a seu redor.

Caio Martins disse...

Jorge,

beleza de história. Tem tanta coisa singela, boa e bonita, por aí, esperando escritor, de aí o valor da crônica.

Talento é para quem tem, seja para fazer doce de abóbora, seja para escrever sobre o milagre.

Abração, meu amigo.

Lianara **Lia** disse...

Belo texto!
Dona Gracinha ajudou a melhorar a vida dos que a conheceram.

Obrigada pela visita e comentário no meu blog!

Abraços

Lia

http://liaks25.blogspot.com/

Rita Lavoyer disse...

Jorge, há muitas formas de adoçarmos a vida dos que, aqui, de alguma forma, só provam do amargo dela. Quando conseguimos realizar alguma coisa boa, ainda que uma receita de doce, geralmente levamos um pouco aos 'escolhidos', aos 'melhores'...
Quem dá o melhor de si e se aperfeiçoa na lida para adoçar a sobrevivência dos "excluídos"? Hoje, isso é raro, meu amigo. Sinceramente, o seu doce-de-abóbora adocicou o meu dia. É o doce preferido na minha casa. Em sua homenagem, irei ao mercado agora comprar um pedaço da vermelhinha e fazer para os meus queridos, lembrando-me do seu texto.
Grande abraço.

Blogat disse...

Gracinha espalhava a doçura pelo mundo.E Sader é o seu porta voz.Perfeito!

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Literal e literariamente, uma delícia de texto. Grande Jorge.

Karinna* disse...

*Tua prosa magnetiza o leitor. Um conjunto perfeito de forma e sentimento.
Muito bom conhecer teu espaço, um belo espaço.
Confesso-te que fico até constrangida em comentar da tua escrita, pois te tenho como escritor formidável, desde que te conheci no ning da Poetisa Silvia.
Agradeço-te pela presença no meu humilde blog. Tu o deixas iluminado com teu olhar.
Beijos de carinho e admiração.
Karinna*

Nanci Laurino disse...

Adoro ler vc amigo querido.
bjinhos
Nan*

Marisa Mattos disse...

Acho que conheço dona Gracinha...tem às duzias nesse mundão de meu Deus...Ainda bem...que seria de nós mortais sem esses anjos adocidadores?Adorei seus escritos tão sensíveis!

Márcia Sanchez Luz disse...

Seria tão bom se o mundo fosse feito de pessoas como Dona Graça, não é mesmo, Jorge?
Parabéns pelo belíssimo texto. E que venham mais, sempre!

Beijos

Márcia