sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Como se forma um advogado

Direito


















Estudava Direito e tive professores bons, regulares e ruins, como em qualquer escola. Pretendia ser criminalista, e realmente fiz diversos júris. O Tribunal do Júri realiza qualquer advogado honesto. O profissional é um misto de ator e advogado.
Mas não é o fato que desejo narrar, aconteceu comigo e é verdadeiro.
Tinha uma insuportável e bastante limitada professora de Direito Civil. Só estudava com afinco Direito Penal. Fiquei em segunda época no direito que mexe com o bolso dos outros, na maioria das vezes.
Costumava tirar férias no trabalho em fevereiro, e a prova estava marcada para o dia 17 daquele mês. A Vila Real da Praia Grande, como gosto de chamar Niterói, tem lindas praias oceânicas, acessíveis em vinte minutos de automóvel. Ficam literalmente lotadas hoje, mas naquela época a frequência era bem menor.
Itacoatiara é um pequeno paraíso. Praia pequena, de apenas seiscentos metros, areia branca de doer os olhos com o reflexo solar e toda cercada de montanhas.
Os pinheiros que estão plantados junto ao início da restinga muito bem conservada, como em todas as praias estão vergados em direção à terra, como é costumeiro; a ação constante dos ventos marítimos leva a esta inevitável posição.
Era a minha segunda casa. Chegava às dez da manhã e voltava, quando voltava, por que um amigo nosso tinha casa lá, ao entardecer. O quiosque que vendia sanduíches, ovos cozidos, cerveja e pratos simples, servia de nosso requintado restaurante.
Estava moreno que só os dentes apareciam, durante a noite. A maldita prova aproximando-se e eu sem abrir o livro. Até hoje não suporto Direito Civil, mas felizmente a carreira de advogado está encerrada.
Chegou o dia da prova. Olhei-me no espelho, depois do banho. Com muitas picadas de mosquito, que infestavam Itacoatiara durante a noite, pele enegrecida, não enganava ninguém: malandro de praia, o que eu era realmente durante um mês.
Na hora certa, estava fazendo a prova escrita, uma lástima. Logo em seguida seria a vez da prova oral. E assim foi.
A professora não tirava os olhos de mim. Sem dúvida, iria prosseguir meu curso, mas faltando quitar o Direito Civil, que eu contava com outro professor, este um jurista, para ser aprovado. A catedrática estava admirada com um aluno de segunda época todo picado de mosquitos e bem tostadinho. Vagabundo, na certa.
Vi com um colega de turma um jornal que estampava uma manchete “Guerrilha no...” e mais não se via. O jornal, naturalmente, estava dobrado. Pedi ao colega que me dissesse do que se tratava, e ele mostrou a notícia. Era “Guerrilha no Caparaó é sufocada.”
Foi o que bastou. Quando fui chamado, sabedor do extremo reacionarismo da examinadora e admiração pelas forças armadas subi o pequeno degrau do tablado e como se militar fosse, cumprimentei ereto, quase em continência, a mulherzinha intragável. Não tive a menor dificuldade em pedir desculpas pelo meu desempenho na prova escrita, falando com todo o respeito. Por causa do calor, cortava o cabelo como os militares; não esquenta a cabeça. Continuei a minha fala, afirmando que era segundo-tenente do Exército, por ter feito o CPOR, e como era bom aluno e excelente com uma arma na mão, fui convocado a participar do combate, falando em voz baixa e afirmando que só estava confidenciando o fato por conhecer a posição política e a honestidade da mestra. O vilão transformou-se em mocinho como num passe de mágica. Seus olhos mudaram de expressão. Ela estava diante de um herói, queimado de Sol, magro, com pontos vermelhos na pele. Um valente soldado que estava a serviço da Pátria.
Disse que por este motivo, não havia estudado o suficiente, apenas alguns pontos. Imediatamente, ela me perguntou quais pontos. “Prescrição, decadência e perempção”, falei de imediato. São causas que impedem ou paralisam o processo, e muito usadas em Direito Penal. Pediu que falasse sobre o assunto. Fiz o discurso completo. Uma vez terminado, ela me cumprimentou solenemente, garantindo-me um dez que fez o mentiroso passar de ano.
Comentei o fato com um amigo juiz de Direito, velho conhecido e bem jovem.
Ele simplesmente disse “vais ser um excelente advogado, meu caro.”
Mas não. Cedo desisti da tribuna do Júri. Não fui um advogado brilhante, não gosto muito da profissão. Mas obtive uma vitória num Tribunal Militar, duro, duríssimo, que jamais será esquecida. Além de elogiado pelos colegas, foi notícia em todos os jornais do Rio de Janeiro e Niterói. Tinha, na época, vinte e quatro anos de idade.
Mas isto apenas foi uma fase...

17 comentários:

Gil Façanha disse...

Amigo, parei minha monografia pra ler teu texto e dei boas risadas com tua sagacidade...rsrsr. Achei o máximo isso! Leitura divertida. É como fazer um retrato de uma época só tua. Bjs

Chica disse...

Que legal tua crônica...

A vida no Direito não me agradou...

Fiz o curso com 4 filhos pequenos, me sai muito bem, meu trabalho de conclusão foi sobre o Tribunal do Juri e depois, vi que aquela justiça que na minha frente então se descortinava, nada tinha a ver comigo e com meus princípios.

Passei a não mais acreditar na nela e por isso, não podia fazer parte dela.

Optei e nunca me arrependi.

Lamento ter perdido meu tempo numa faculdade, com tantos sacifícios.

Mas valeu, como tudo na vida.Pelo menos pra me mostrar que temos que saber ter coragem de ver o que não nos agrada e nos afastar.


PuxA, FIZ UM JORNAL AQUI! abraços,chica

Mari Amorim disse...

Parabéns! Jorge,
belíssimo texto!
Boas energias sempre
Mari

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Meu amigo Jorge, esteja certo de que o raciocínio rápido e o jogo de cintura dos bons advogados são qualidades que você tem de sobra. Esse teu texto não me deixa mentir! Muito bom, gostei demais.

Liège disse...

Jorge, quanta criatividade e esperteza! Seu relato provocou em mim risadas e gargalhadas. Mas provavelmente essas duas características sejam fundamentais para um bom advogado.
Meu pai também era advogado, mas nos anos 80 abriu uma loja de produtos naturais (que ficava no Center V) e decidiu criar cabras. Inusitado, não?
Um abraço.

Rita Lavoyer disse...

retecCara!
estou começando a achar que escreve para o cinema também.
A Tropa de Elite 1 e 2 têm a sua participação? Acho que sim e já está ensaiando para escrever o de nº3, não é mesmo?
Parabéns mais uma vez.

lino disse...

Grande aldrabão! Parabéns pela causa dura ganha no tribunal militar.
Abraço grande

Aline Capistrano disse...

Muito bom esse texto cheio de humor, o melhor é que é verídico.

Abraços

Blogat disse...

malandro é malandro,e mané é mané...rs.

Ana Maria Pupato disse...

Sua crônica nos mostra o engessamento da educação em nosso país, que todos nós sobrevivemos a isso. Por outro lado, sua perspicácia e redirecionamento de seus objetivos, o que não é uma tarefa fácil. Tudo isso com a alegria que permeia seus trabalhos e que deixa claro ser uma pessoa feliz e realizada.
Adorei!!! Beijos mil!!!

Caio Martins. disse...

Grande Jorge Sader, caminhos diferentes em paisagens idênticas, a Teoria do Direito apaixonou-me muito cedo. Pouco tempo no estágio e desisti do ofício, a praia era outra. Ficou, todavia, o gosto pela espécie, deslindado do mérito.
Resumindo: vira-lata mordido de cobra arreda de linguiça, mas 'tá sempre de focinho alerta.
Abração, mano-véio!

Aline Patrícia disse...

Passei para comentar aqui ontem, mas acho que com a péssima conexão ele não foi publicado.
Me senti em Itacoatiara com a tua descrição. Certamente, num paraíso desse, até as picadas de mosquito são menos incômodas. A vida acadêmica exige de nós não só dedicação, por vezes, também um pouco de astúcia!
Enfim, fico no aguardo de mais histórias...

Beijo
Pati*

Michelle Nazar disse...

Amigo Jorge..que bela reflexão sobre a Academia, sobre escolhas, profissão, sobre a vida em si. É tão bom podermos olharmos a nossa vida através do olhar do próximo..excelente post! Abraços ;)

Celso Felício Panza disse...

Jorginho, velho amigo, seria Regina Gondin a "professora" de civil? Se positiva a resposta, nada sabia de direito, posso falar com segurança, era uma pragmátca, "ledora" de código sem conhecer a origem da norma.Sabia muito, sim, de ausência de simpatia no convívio com alunos. Muito boa a história "Tenente". Seria a casa de Itacoatiara que conheço? Abr. Celso

Rob Novak disse...

História exemplo de grande sagacidade. Quando não gostamos de algo, mesmo assim, sempre se dá um jeito de não deixar que esse algo nos prejudique.

Abraço!

Anônimo disse...

parabéns!!! é uma boa crõnica... voçe se mostra com muita garra... gostei muito!!! beijinhossss... (j)(o)(r)(g)(e)

bruno disse...

quando crecer que ser advogado tenho 15 anos mas ja estou chegando la
me deu mas inpiraçao