quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Encantada


 Mulher
                                                                                                             
Disse Guimarães Rosa que quando uma pessoa morre ela se encanta. Uma forma poética de ver a Vida e a Morte, o bem e o mal, preocupações do nosso fecundo e admirável escritor.
Mas esta não é uma história de morte; ao contrário. Trata-se de uma louvação à Vida, um agradecimento aos céus.
Diz o povo que nada acontece ao acaso. Dizem os ilustrados a mesma coisa.
O fato é que estes novos Romeu e Julieta se encontram por acaso. Este acaso, segundo o que já foi dito antes, parece estar escrito em todos os cantos. Na areia, onde o mar pode apagar, mas ele se projeta no céu, entre as estrelas, e de lá não pode sumir mais. É parte do firmamento, do universo grandioso e belo...
Quando aconteceu, foi um amor intenso, almas confundiram-se, sentimentos ficaram entrelaçados. Paixão verdadeira, paixão encantada.
Romeu, digamos que este seja o nome mesmo, duvidou da sua Julieta. Belíssima, angelical figura que carregava e ainda leva uma bagagem espiritual grande, rica, sadia, forte.
“É demais para mim”, pensou. E assim passaram-se anos. Poucas vezes se encontraram. Sempre que isto acontecia, ele era chamado medroso, por não assumir a situação confusa. Ele tinha medo sim. Muito medo.
Certas situações colocam o mais valente com o rabo entre as pernas, lembrando Machado.
Era exatamente assim que ele se encontrava. Parecia ter sido tomado por uma síndrome malsã toda vez que via a bela princesa. As palavras não fluíam, o sentimento estava sendo massacrado pela razão.
Longo tempo passou. Escondida no seu ser, ela estava viva, muito fortemente viva. Mas ele mantinha a sua posição. Primeiro a voz do pensamento, depois a do amor.
Um erro lastimável, um erro de muitos, um erro de quem tem medo de amar!
Súbito, leva um susto. A sua Bela faz uma declaração direta. O coração de Romeu é tomado pela alegria. Ele sabe que é amado! Fica confuso, mas as palavras são reais. Ela confessa seu amor, e diz esperar ouvir que a distância maltrata, que aguarda ainda, ansiosa, ouvir um “eu te amo”.
Quando ouve, cai o pano. Não há mortes. Apenas – apenas?, um esperar sufocante.
Encantada! A espera do final, só os deuses sabem...

12 comentários:

Caio Martins disse...

Meu caro Jorge,

já vamos por cinco anos nestas andanças pela Internet, jurássicos cibernéticos impretéritos. Deixo, em meio a mais uma madrugada de edição, um presente ao amigo, esperando que o novo modelo seja de seu agrado. Tão bela crônica mereceu melhor moldura, creio.
Abração, e parabéns pelo texto.

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Belo texto, Jorge. Estou aqui encantado ao lê-lo. Abraços e parabéns.

lino disse...

Mas o Romeu era veadinho, seu Jorge?
Abraço

Márcia Sanchez Luz disse...

Jorge, que texto delicioso! Gostei muito de ver seu lado romântico em prosa.

O blog, de visual novo, está um show. Ganhou uma identidade que tem tudo a ver com seu trabalho. Parabéns.

Beijos

Márcia

Carla Diacov disse...

A espera é uma puta travestida de esperança.

beijão.

Marcia disse...

Estou encantada...bjus

Liège disse...

Amigo Jorge, que texto encantador! Que outra palavra poderia descrevê-lo melhor?
Gostaria de convidá-lo a participar dos Caminhos Amigos de meu blog. Aceita?
Abraços e bom final de semana.

Ana Maria Pupato disse...

Para ser um grande escritor é preciso quebrar paradigmas e você traz isso em tudo o que escreve. Descortinar o homem que tem medo de entregar à mulher desejada e amada.
Magnífico!
Beijos mil!!!

Rita Lavoyer disse...

Agora que está repaginado, ficou atrevidamente mais encantador, senhor escritor Jorge!
Enredo belo, gosto de ver caindo o pano.

Aline Patrícia disse...

Ando um pouco desligada desse mundo virtual e, quando finalmente entro para ler-te, vejo que houve uma mudança no visual do blog. Adorei, principalmente o cabeçalho, as letras caprichosas, muito chique! [risos]
Sobre a crônica, está um encanto... Muitos são os Romeus nos dias de hoje e, como dissestes, a covardia é o motivo principal de muita espera, de muita infelicidade. O problema é que o tempo passa. O da tua crônica teve sorte, apesar de tanto tempo hesitando, a Julieta ainda manteve sentimento fiel, coisa rara, pois a falta de atitude sempre acaba por provocar o desencanto...
É, acabei de descobrir que não sirvo pra Julieta, sou impaciente demais, quero tudo no hoje e no já, só não sei se isso é bom ou ruim...

Cheiros :)

cristinasiqueira disse...

Oi Jorge,

Tomada pela vida em viravoltas extraordinárias me perdi das leituras.
Que texto docemente gostoso de sentir.
O novo look do blog ficou elegante ,gostei.

beijos,

Cris

Gil Façanha disse...

Meu amigo, li e me arrepiei. Muito bem escrito e cheio de emoção. O medo, é um sentimento que maltrata e cega as vezes. Especialmente em relação ao amor. Parabéns pelo texto. lindo. bjs