sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O concerto de Aranjuez

A fantasiosa alma do povo, que caracteriza os mais diversos grandes grupos existentes na Terra, além de interessante é contraditória: existem várias interpretações para um fato determinado.
Todas as artes são fruto da mais dignificante expressão humana, mas a música parece levar uma vantagem sobre todas as outras. Pelo menos para mim, parece.
Contam que Joaquim Rodrigo, o violonista flamengo admirado por todos, perdeu um filho moço, de muito pouca idade. Sua mulher ficou desesperada, não comia, não dormia direito, só fazia chorar. Na verdade, mãe nenhuma deveria perder um filho, especialmente quando ele é um menino que começa a dar os primeiros passos em direção ao seu estágio mais compreensivo da Vida. Ninguém duvida disso.
Joaquim, como pai e bom marido, preocupava-se com a esposa e sentia a dor da perda. Sofria duas vezes.
Procurou por várias formas consolar a mulher, e com este ato estava procurando alívio para si também. Quem disse que só as mães sofrem a perda de um filho? Não conseguia nem confortar a mãe desesperada, nem mitigar seu sofrimento.
Perdido, totalmente sem rumo e incapaz de enfrentar uma situação tão adversa, Rodrigo passou a meditar como seria possível sair desta situação triste, doída, sofrida, malvada e perversa. Sua mulher era a principal preocupação, poderia passar à insanidade a qualquer momento.
Os músicos são privilegiados. Costumam chorar suas dores e lamentos usando suas armas. Os instrumentos falam!
O pai desencantado já não tocava mais seu violão. Estavam mudos, naquela casa, Rodrigo, sua mulher e o violão guardado na sua caixa de madeira. Não era mexido. As idéias do seu dono, massacrado pela perda irreparável, não traziam nenhum incentivo a tocar, ou compor.
Desilusão...
Mostrava-se claramente, na casa do músico famoso, cuja mulher definhava a cada dia. O único filho, morto! De que adiantava ser o maior violonista de Espanha?
Os amigos procuravam confortar. Os amigos, que são o sal da Terra. Mas nada, nem mesmo os mais queridos conseguiam diminuir a tristeza da Rodrigo e da sua mulher.
Joaquim não era covarde. Procurava a cada momento dar algum destino ao sofrimento que passavam, mas na sua altivez, preocupa-se antes de tudo com a sua sofrida companheira.
Pensava, rezava como todo bom músico. Não chegava a nenhuma conclusão, o que fazia aumentar seu sofrimento.
Mas, dizem os entendidos, a dor não é permanente.
Faz parte da Vida. Não, o homem não nasceu para sofrer, embora muitos filósofos negativistas entendam desta maneira, que não conduz a lugar nenhum. Ajudam a piorar o estado dos que já padecem...
Rodrigo chegou à conclusão de que precisava se aproximar de Deus, de pedir que o sofrimento da mulher fosse consolado, que ele pudesse retornar ao seu violão, tocando, compondo, encantando. Pedia isso todos os dias às paredes, ao Sol, às estrelas, às flores do campo.
Determinada manhã, quando o dia estava iluminado, as árvores com suas folhas verdes, o céu transparente e mostrando o esplendor do que não acaba, o que não tem fim, Rodrigo tirou o violão da caixa de madeira limpa e bem cuidada.
Segurou o instrumento como se fora o uma parte sua, seu filho, talvez.
Estava um pouco desafinado, mas os dedos nas cordas, e os da mão esquerda nas cravelhas logo colocaram o violão com seu som distinto de todos os outros, o violão flamengo.
“Eu preciso rezar, eu preciso falar com Deus”, pensou o músico. Fez alguns acordes, notou que o som saía limpo, claro e afinado.
Ninguém jamais saberá explicar a causa. Rodrigo talvez rezasse mal, mas quando tocava, era uma bela prece que estava fazendo.
Tangia as cordas com facilidade, a música tomou conta de toda a casa. Para seu espanto, sua mulher chorava de maneira diferente. Não era mais o choro sofrido, doído, amargurado. Mostrava felicidade, e sorria para o marido que continuava seu improviso, o improviso que rogava a Deus que o escutasse, que fizesse parar a tortura a que estavam submetidos.
A cada toque na corda, o ambiente alegrava-se. Tudo estava mudando como num grande passe de mágica, não havia mais tristeza, as dores foram-se embora, a mulher sorria, e o violonista continuava tocando o que hoje conhecemos como o Concerto de Aranjuez.
Esta é a mais bela lenda que envolve a peça flamenga, que fez os corações pararem de chorar de dor, tristeza e melancolia.


14 comentários:

Rede Sócio-Cultural Poetas e Escritores do Amor e da Paz disse...

Jorge, se o Concerto de Aranjuez fez a tristeza e a melancolia cessarem no coração dos pais amorosos - personagens da lenda que expões de forma magistral, esta mesma bela canção embala-me a leitura e faz-me verter lágrimas de emoção e saudades.

Por reais e imaginárias (ao mesmo tempo), sensíveis e belas, tuas palavras fogem da tela do computador para encontrar ninho no meu coração, que neste momento busca no passado a jovem menina que empunhava seu acordeon com galhardia e ao enlevo das orientações rigorosas do seu pai executava Concerto de Aranjuez. Relembro ainda o nosso "Conjunto Esperança" - papai, eu e meus irmãos - nós, ainda crianças, pequenos artistas de Piquete, cidadezinha do interior de São Paulo, na qual nascemos. Éramos somente amor e ternura, protegidos pelos sorrisos de aprovação da nossa mamãe! A este enlevo, uma dor aguda atravessa meu peito ao trazer no rol destas lembranças meu irmãozinho caçula que se foi... sem que nos fosse oferecida a possibilidade de esvaziar o coração em dor, aos efeitos de uma bela canção...

Teu conto é essencialmente mágico, como mágica é a tua amizade, ao meu coração.

Caio Martins. disse...

Grande Jorge Sader...

Simplesmente brilhante, como jamais cansarei de afirmar.

Abraços, Mestre.

Mai disse...

O concerto, Um concerto e a maestria das palavras. Brilhante!

Reverências

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

O concerto de Aranjuez é lindo. Uma das obras mais inspiradas do repertório erudito. E este seu texto está à altura. Merecida a premiação. Abraços e parabéns, Jorge.

Liège disse...

Caro Jorge, essa obra sempre me emocionou profundamente, com seus maravilhosos acordes de guitarra flamenca! Como foi bom encontrar sua lenda aqui em seu encantador blog.
Um grande abraço e obrigada pelos parabéns e pelos confortantes versos (hehe).

Barbara disse...

Noooossa Jorge.
Ontem mesmo eu ouvia essa jóia sem saber de nada do que agora leio aqui.
Isso só dá mais valia ao concerto.
Obrigada pela informação.
Sabes dividir.

Gil Façanha disse...

O poder da música é e sempre será indescritível. Como incrível, é o teu talento para a escrita. Um prazer enorme ler esse texto. Como sempre. Parabéns e um grande abraço.

lino disse...

Lenda ou não é um concerto imortal.
Abraço

Rodrigo Passos disse...

muito bom seu texto!

Anônimo disse...

Seu conto Jorge é mágico e belo..bjus

Rita Lavoyer disse...

Nossa, Jorge! Estou admirada com as suas ideias, seus textos. Eles transmitem conhecimento de causa. Que lenda! Que lenda...
o Jorge não é lenda. É realidade.
Adoro passar por aqui, sabia?

Ana Maria Pupato disse...

O prêmio só referendou toda a beleza do texto e a emoção que nos dá ao ler.
Parabéns, amigo! Lindo demais!!!

Aline Capistrano disse...

Olá Jorge!

Gostei muito do texto foi uma valiosa informação com muita emoção.

Abraços.



ps
Estou com outro blog em outro formato o antigo fechei
http://a-capistrano-letras.blogspot.com

Pedro Jorge disse...

É um dos mais apurados contos do autor, que concorreu e teve publicado no Delicatta V, onde figura no livro Cronistas, Contistas e Poetas Contemporâneos, editora Scortecci.
Rara e incomum beleza, colocando Jorge Sader como um dos expoentes do conto atual brasileiro.