segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Minha resposta

Solidão














               Yuri, não seja injusto comigo, por favor.
            Você distorce os fatos; quem lê me diz culpada, embora não seja e isto ficou bem claro.  Estou de acordo que a esta altura não cabe este tipo de discussão que não leva a nada, também como você disse.  Mas pode levar sim.  Além de íntimos, fomos e somos amigos acima de qualquer coisa.
            Acredito que a insistência em falar em feridas que ainda cicatrizam, e se tocadas vão sangrar novamente, trazendo discórdia entre nós, absurdo que não tem cabimento.
            Eu fui repudiada sim, André é seu filho, você tem certeza.  Não precisava exame.  Minha lealdade com você, Yuri, sempre foi espécie de coisa sagrada.  Outra coisa que não entendi foi a nossa separação.  O motivo alegado é sem valor, e agora sou eu quem digo ‘e você sabe disso muito bem’.
            Londres é muito longe?  Que tem isso?  E eu não casei, o que fiz foi amparar minha dor ao lado de amigo que me compreende.  Ficar esperando que viesse para Cascais, na casa que é do meu avô, Deus o tenha, não estragaria a sua carreira.  Não me iluda.
            Estou longe sim.  Numa cidade civilizada, mas muito diferente da minha, onde estudei, fiz amizades, comecei meu trabalho e aproveitei a praia que só neste lugar tem.  Mas vou no fim do ano passar pelo menos vinte dias aí.
            André vai ficar contente em ver o pai, adora olhar seu retrato com ele no colo.  Tenho sim, medo, muito medo de olhar você e correr para os seus braços, sempre fui assim, mas não quero sofrer com outro ‘não’.
            Beijos, querido.  Du

14 comentários:

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

O bacana é que nesta troca de missivas existe toda uma história não dita explicitamente, porém contada nas entrelinhas. Que desperta a imaginação de quem lê e revela a imaginação de quem escreveu o texto. Aliás, com a maestria de costume. Parabéns, Jorge.

Marcia disse...

Uma história que atiça nossa imaginação e que com certeza ainda não acabou..bjus...Marcia

Liège disse...

Jorge, gosto de ler o que você escreve!
Ver os dois lados geralmente nos faz descartar vítimas e culpados absolutos. A vida tem pouco de maniqueísmo, mas os pontos de vista individuais insistem em dividir as pessoas entre as muito boas do lado de cá e as muito más do lado de lá.
Um abraço.

Caio Martins disse...

Alguém, ou ambos, esqueceu o I-Pod no metrô... Nos tempos antigos, dizia-se que fora o guarda-chuva no bonde quando ex-qualquer-coisa mantinha não a cobrança via judicial, mas, a tentativa de manutenção do vínculo via cartinhas. Lembra Saia Rodada:
Quanto mais a gente briga
mais o nosso amor aumenta
É que a gente é sem vergonha.


Abração, Jorge.

Rita Lavoyer disse...

Yuri!? Bentinho? Sei não! Quem pede exame para saber de filho vai querer pedir exame de salivas pós beijos e pós outras coisas mais.
Recaída é para quem já caiu e se
levantou, mas quer cair novamente.
Vejamos... Ambos se merecem.
Jorge, você está mais machadiano do que nunca.
Grande Jorge.

Lu disse...

Eu já havia dito que o post anterior era ficção pura.
Vem o segundo e confirma o que havia assegurado. Ficção, acompanho este autor no Recanto.
Como a Rita afirmou, concordo. Grande Jorge! Mas de machadiano ele não tem nada não.
Bjs, Lu

Marcos Ferraz disse...

Literatura fina. Cheguei aqui recomendado por amigo.
De costume, blogues não costumam ter autores tão preocupados com o resultado final do que escrevem.
O autor, Jorge Sader Filho, reúne qualidades indispensáveis para o bom desenvolvimento do epistolar.
Felicitações.

Marcos

Anônimo disse...

Sabe, Yúri, quando vocês estavam sentados nesse banco no parque, no último encontro, tentando ver se ainda poderiam se entender, fiquei de longe, observando-os. Mas, por mais que tentasse afastar a visão, só via o banco vazio, apesar de vocês estarem lá. Ouvia suas vozes baixas, os silêncios. E no final, não ouvia mais nada. Ficou só o banco, onde hoje me sento, melancólico como o vento.

Maurélio disse...

Belíssimos contos poéticos em seu blog.
Sou novo seguidor.
Voltarei com tempo para ler os textos
Abraços

Márcia Sanchez Luz disse...

Jorge, concordo com o que o Marcelo Pirajá disse...há um conteúdo implícito nas cartas, o que torna o enredo ainda mais instigante.
Espero a próxima. Virá?

Beijos

Márcia

Ana Maria Pupato disse...

Comparando as duas crônicas, percebe-se nitidamente o lado masculino e o feminino delineados pelas emoções expostas com muita perspicácia e requinte. Quando li, me veio a mente o símbolo do Tao, o yin e o yang se completando.
Adorei! Parabéns, amigo!

Pedro Jorge disse...

O autor esbanja talento. Não quero entrar nesta discussão se o texto é ficção ou não.
Mas vejo agora que a outra carta, a que deu origem a esta, foi publicada no Pravda, um dos maiores jornais do mundo.
Quando publica um livro, Jorge?
Está na hora.
Abraço. Pedro

Hilton Valeriano disse...

Vim retribuir a visita. Se tiver artigos sobre Jazz pode envia-los para meu email que publico no Poesia Diversa. Um abraço!

Simplesmente Malu! disse...

Que troca romântica!...Ai ai...rsrs