domingo, 12 de dezembro de 2010

Sabedoria

Albert Einstein















            É comum entre todos nós a busca da cultura.
            Ela distingue os homens; muitos gostam disto.  Falam mais de uma língua, conhecem artes, são educados e polidos.
            Sabedoria não.  Ninguém se transforma em sábio através de livros, pinturas e semelhantes.  Geralmente vem com a idade e a reflexão criteriosa e de contundente lógica matemática, expressão usada para definir o rigor da tão comentada lógica.
            Escutei interessante relato verdadeiro.  Um velho desembargador, conhecido quando ainda estava na ativa pelas decisões acertadas, viúvo e já bastante idoso, foi morar com a filha.
            São contingências das quais não escapamos, se estamos com idade avançada.  O velho magistrado, absolutamente íntegro das faculdades mentais e com boa saúde, não era de dar trabalho.
            Tinha os seus hábitos, como todos nós.  Gostava e gosta ainda, não morreu, de acordar bem cedo, beber meio copo de água pura apanhada numa fonte, pegar o jornal já entregue e ficar lendo as notícias.
            Judiciosamente estava limpo, barba feita, e roupa caseira bem apresentável.  Até hoje assim é.  Mas morre de amores por uma velha camisa de malha de algodão, que não se encontra mais em boas condições.  A filha já havia tentado transformar a velha camisa em pano de limpar chão azulejado.
            Determinada manhã, sem estar como comumente andava pela casa, mas ainda de chinelos, bermuda velha, a camisa de malha com os furinhos e de barba ainda não feita, deu uma corrida na quitanda próxima e escolheu um bonito cacho de bananas-prata.  Havia um jovem comprando algo, que ao ver o velho juiz foi até ele e anunciou que a banana estava paga.  Ele agradeceu e zarpou para casa.
            Contou a história.  A horrorizada filha, mas dócil com o pai chamou a atenção.
            - Mas pai, você não devia ter aceitado, você tem dinheiro, não é mendigo.
            - Pois é, filha.  E tiraria dele o prazer de ter ajudado um velho.
            Sabedoria é assim.
           

15 comentários:

Rob Novak disse...

Ótima crônica.
Se o castigo do tempo, por assim dizer, é inevitável no corpo, sabedoria é valorizar quem de boa índole percebe isso.

Abraço e um ótimo domingo.

lino disse...

Que grande sabedoria!
Abraço

cristinasiqueira disse...

Oi Jorge,

Excelente abordagem.
Sabedoria é o que abençoa a alguns com a visão da vida em sua totalidade.Sabedoria é transcendência ,e no caso do amigo juiz, humilde generosidade.

Adoro ler-te.

Com carinho,

Cris

Marcia disse...

Ótima crônica.
O Mestre em sua sabedoria disse.. Ajuda e passa...bjus

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Puxa, que texto... parece uma fábula. E seu estilo, Jorge, é sempre leve e prazeroso. Definitivamente, você tem o dom de ser lido - esteja certo disso. Abraços e parabéns.

Simplesmente Malu! disse...

A beleza física com o tempo se desfaz, mas a sapiência é um legado que carregaremos até o fim de nossos dias.
Bjs

Ana Maria Pupato disse...

Você colocou muito bem a sabedoria! Quem já conseguiu adquirir esse tesouro sabe que chegou a esse mundo sem nada e vai voltar sem nada; então, melindres são grandes bobagens que só roubam a alegria de viver.
Como sempre lindo demais!
Beijos mil!!!

Liège disse...

Adorei, Jorge!
É impossível não sorrir ao chegar ao final dessa crônica.
Beijos.

Rita Lavoyer disse...

Pois vejamos.
Totalmente desprendido do orgulho, aceitou ser ajudado sabendo que na sua humilde ação estava ele prestando a ajuda.

Inteligência é uma coisa; cultura, outra.
A sabedoria está adiante, bem mais adiante. Crônica curta, mas profunda.
Abração , Jorge!

Maria Eduarda disse...

Boa passagem. Esta é a mostra da sabedoria, que o velho desembargador mostrou que existe.
Cada crônica melhor do que a outra.

Beijo, meu querido Jorge.
Du

Miranda disse...

Raras vezes encontro tanta fertilidade de criação como neste blog, que acompanho há tempo. Nunca comentei nada, mas quero deixar escrito o que penso.
Não é apenas um blog bonito, elegante. O dono é de um talento ímpar. "Sabedoria" prova o que estou afirmando.
Parabéns, Jorge.

Miranda

Gil Façanha disse...

Ah, querido Jorge, adoro ler tuas crônicas. São tão repletas de vida real, cheias de mensagens que sempre me tocam. Parabéns por mais uma bela crônica e muito obrigada por tuas visitas. Elas me alegram. bjs no coração e muita saúde e paz, hoje e sempre.

Caio Martins disse...

Grande Jorge,

gostei muito. Numa época em que o conhecimento pasteurizado é de acesso amplo, geral e irrestrito(o que é bom), a questão é como empregá-lo com as correspondentes atitudes. Primará sempre, todavia, o que vem dos genes e de berço.

Abração.

Márcia Sanchez Luz disse...

Jorge, esta sua crônica possui um conteúdo riquíssimo! Falta ao mundo um tantão da sabedoria do juiz em questão...
Belíssimo texto, amigo.

Beijos

Márcia

Parole disse...

Seu blog foi um achado.Gostei por demais daqui.

Já desconfiava que a sabedoria é matemática... Acho que com o passar dos anos, pouca coisa nos surpreende.

Bjs