quinta-feira, 17 de março de 2011

Um susto

                                             

           














             Entrou no elevador e apertou o botão do oitavo andar.
            Não, não era sua casa.  Era seu escritório impecável, livros todos no lugar, sala e banheiro cuidadosamente limpos, computador, um grande bloco em cima da mesa larga, o copo de cerâmica pintada pela mulher, artista de primeira linha.
            Ligou o ar refrigerado, mas só na ventilação; não havia calor, era maio.  Fins de maio.
            Abriu a porta do banheiro.  Caído, com leve filete de sangue na boca, seu sócio estava ao chão.  Um homem já gasto pela idade.  Trabalhava na advocacia por não saber parar.  Era um dos melhores, e acreditava que se parasse, morreria por falta do que fazer.  Ainda comparecia às audiências e outros procedimentos judiciais, mas o seu forte, terrivelmente forte, eram os arrazoados, perfeitos, os juízes fossem de qual instância, comuns, desembargadores ou ministros tinham gosto de ler sem aborrecimento as razões do velho advogado.
            Apavorado, ligou para a polícia.  Em pouco tempo estavam presentes dois policiais e a perícia.  Não havia sinal de violência.
            Removeram o corpo.  Ninguém se opôs à autópsia.  Afinal, a causa era desconhecida, mas não pelos policiais.  O peito arroxeado demonstrava claro enfarte.  Cabia aos legistas a palavra final.
            Certo.  Enfarte mesmo.  Mas o advogado jovem estava desconfiado.  O colega e amigo havia falado numa mulher que estava de olho comprido no seu dinheiro.  Coisas de alcova.
            Não resistiu.
            - Doutor, e aquela marca de sangue nos lábios?
            - Não é muito comum, mas acontece quando o infarto se complica.  Pode acontecer um sangramento.
            - Infarto mesmo?
            - Sem a menor dúvida.  O tórax estava muito tomado pelo sangue.
            Foi-se embora, compareceu quieto ao enterro, e nada mais falou sobre o assunto.  Grazinska era enfermeira diplomada na Rússia, com tese defendida.
            Sabia que existem muitas maneiras de matar-se alguém sem vestígios?
            Pois saiba!  Não é o primeiro caso.  

10 comentários:

Rita Lavoyer disse...

Então... se fosse uma enfermeira brasileira era cela antes mesmo da autópsia. Mas... em se tratando de uma russa, melhor mesmo é o advogado, mais jovem, ficar com o bico fechado.
Mas... como eu sou advogada do biado, acho que esse advogado novinho ai, vai fugir com a enfermeira. Não é o primeiro caso, nem o fim do conto.

Parabéns, Jorge!

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Bacana o ritmo da narrativa, que embora curta deixa a respiração suspensa até o final. Acho que a Rita sugeriu um bom desfecho para a coisa! Parabéns por mais uma ótima lavra, Jorge.

Marcia disse...

Elementar meu caro Watson, ele foi envenenado pela sonsa...bjus

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Excelente conto: conciso, com uma só trama, que se passa em um só lugar, em curto espaço de tempo, com pouquíssimos personagens e o principal: final inesperado. Meu amigo, como é gostoso ler-te! Abrs. Mardilê

lino disse...

Bela e triste história.
Abraço

petuninha disse...

Jorge!

Do ponto de vista literário, concordo totalmente com a Mardilê.

E, se quiseres continuar este conto, dá um belo dum romance policial. Boa trama, ótimo enredo.

Adoro tuas abordagens porquê levam-nos, se quisermos, para bem longe.

Este conto fez com que eu completasse melhor algumas fichas que me tinham caído. Como: - Quem não lembra de políticos que desapareceram da vida em condições misteriosas?
- Quem lembra do papa de Roma que ficou poucos meses no poder?

É para pensar, porquê há muitas coisas escondidas por trás do palco!

Parabéns e beijos ao Jorge!

Rosana disse...

Nossa, Jorge...Isso me arrepiou...Com certeza não queria ver nem viver esta cena. Muito bem escrito...Nossa!!! Muito bom...Gostei!!!

Caio Martins disse...

Bem engendrado, Jorge. Vem linear, quebra o roteiro com uma dúvida. Coisa de mestre! Gostei, e muito.
Abraços.

Teresinha Oliveira disse...

Gostei. A dúvida se infiltra no leitor,mesmo que toda a perícia confirme a morte natural. Muito bom.

Ana Maria Pupato disse...

Adorei e acho que este conto daria um romance. Flui de forma cinematográfica!
Beijos mil!!!!