terça-feira, 10 de abril de 2012

Caminhando


















Caminhando

As folhas das tílias amontoavam pelo chão. Ventava fraco, na praça grande e arborizada, um vento refrescante, mas não frio.
O velho banco, ainda bem conservado, servia de assento para o homem de meia idade, boa aparência, jeans, camiseta azul e um moletom como agasalho. Seus olhos pareciam procurar alguma coisa, sabe-se lá o quê.
Mães com seus pirralhos brincavam aproveitando a tranquilidade do lugar. Muitas conheciam de vista o homem, que tinha o hábito de passar algum tempo sentado no mesmo lugar onde agora se encontrava. Um “bom-dia” era sempre trocado. Só isto, mais nada.
“Ora, ela não está tão longe. Tenho o seu endereço, posso tentar um encontro. O máximo que posso levar é um não. Vou lá.” Era o que pensava diariamente. Jamais colocou a ideia em prática.
Tem fatos que ocorrem inevitavelmente. Como este, uma paixão inicial de ambos os lados, paixão perdida, seu rosto, seus cabelos, seu modo franco de falar... E o corpo? Perfeito, sem exageros. O problema era a idade. Poderia ser sua filha, era vinte e três anos mais jovem do que o homem sentado, pensando.
- Du, quero um filho seu.
- E eu de você.
- Mas tenho medo de não o ver um homem, ou mulher, ninguém sabe antes.
- Tanto faz. Não me importo com isso. Sei o que pensa. Vai morrer antes de mim, não verá o filho casar. Ou cursar uma faculdade. Já pensei nisto, eu cuido dele. Afinal, tenho bons clientes, e nós dois temos bom dinheiro.
- Mas eu quero participar de tudo!
- Sei, sei. Mas será que isto vai impedir que o nosso relacionamento termine? Não nos bastamos? Há muitos casamentos sem filhos.
O diálogo, quase sempre, era esse. Ela partiu, por causa da indecisão. Queria um companheiro, um amante, um amigo. Dava notícias, às vezes. Culpava-o da omissão que havia estragado a vida dos dois. Mas era visível seu amor pelo antigo companheiro.
Determinado dia, a correspondência cessou. Logo após Du ter comunicado que era mãe, o filho tinha o nome dele. Casada e distante.
Tremeu quando soube que havia sido assassinada por um amante, por ciúmes do marido.
O homem da praça continua, até hoje, caminhando em busca do amor que não se realizou, o pior de todos eles.

12 comentários:

Célia Rangel disse...

O amor é de uma fluidez incrível que, a qualquer preconceito, se esvai... e deixa sempre marcas indeléveis...
Bj. Célia.

Rita Lavoyer disse...

Vai entender!? Ou pior: Melhor não entender as injustificáveis ações que o amor promove.

O bom desses acontecimentos é que dão cada histórias boas...

Anderson Fabiano disse...

Jorjão,

Sei um pouco desses desencontros. O chão sob meus pés foi a senha pro entendimento. Mas, há os encontros também e a insistência leva, por vezes, aos bons resultados. E ai, vem o Vininha e fala da vida e arte dos (des)encontros...

Ah! Vininha...

... Hoje, já não sento no banco da praça e as pegadas que deixo para trás nas caminhadas são duplas...

Belíssimo, parceirinho, belíssimo!

Meu carinho,

Anderson Fabiano

Caio Martins disse...

Mestre Sader, conheço o roteiro. Magistral, como sempre. Forte abraço.

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Caramba, que sina... e quantas histórias reais se assemelham a esta. Que, presumo, seja ficção. Obra de mestre, Jorge.

petuninha disse...

Prefiro a outra versão; aquela em que o filho nasce, cresce, vai para longe
com a mãe e o marido desta.

Como sempre, uma bela narrativa.
Parabéns! Beijos da Petuninha.

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Inedecisão e omissão matam os relacionamentos. Neste conto, Jorge, escreves sobre o amor que não se realiza. Quantos neste mundão de meu Deus! Du bem no fundinho se sentiu culpado. Abrs. Mardilê

Sueli Fajardo disse...

Olá, amigo Jorge!
Sabendo ou não o que nos espera, fazemos as nossas escolhas, uma delas pode ser a de não escolher nenhum caminho. Não sabemos se escolhêssemos diferentemente, seríamos mais felizes. É clichê, mas é real: a vida é um mistério.
Lindo texto. Emocionante. Parabéns!

marcia disse...

Jorge,nossas escolhas nem sempre são as melhores...Belo e triste conto..bjus

Espelho disse...

Prestando mais atenção esta é a vida de todos nós... O dia a dia são de encontros e desencontros... E sempre estamos esperando o amor ideal!
Bravo, Jorge!

Jota Effe Esse disse...

Aquele amor tão sonhado, que nos leva à paixão, é justamente o que não prospera, é o que morre sem explicação e nos deixa sem chão. Meu abraço.

Maria Luzia Fronteira disse...

Bela crónica menino Jorge com um fim inesperado e triste.
Para não faltar à tradição suas crónicas continuam a brilhar.
Já tinha saudades de te ler.
Tá "um must".
Parabéns
manuela