quarta-feira, 18 de julho de 2012

Verdade suja



                                             Verdade suja

            Abriu o jornal com a calma dos vagabundos e preguiçosos.
            Não estava fazendo nada, era feriado comprido, daquele que o povo gosta, fica sem obrigação maior três dias.  Pro seu azar, o dia estava nebuloso e frio, mas suportável.  Queria pegar um Sol, mas nada.  Teria que esperar uns dias.
            Ajeitou-se na cadeira, havia trazido a mesinha da varanda para onde havia luz, tomou mais uma boa talagada de uísque e continuou virando displicentemente as páginas do jornal.  Levou um susto.
            - Essa não!
            - Que houve, Fagundes?
            - Olha aí.  Reconhece?
            - Mas é a Rita, homem!  Que aconteceu?  - E não esperou a resposta, apanhou o jornal das mãos do marido, que já havia retirado a camisa fina de lã e agora estava só com a de malha.  Ficar na luz, mesmo que o Sol não esteja aparecendo, sempre aquece mais do que dentro de casa.
            - Fagundes!  Você leu a notícia toda?
            - Li.  A fulana acabou mostrando quem é.  Sempre teve pinta de perigosa, mas esta foi de doer.  Uma professora, divorciada, é verdade, mas uma professora flagrada dentro do carro, rua pouco movimentada, com um guri de dezesseis anos.
            - Que vergonha para a filha!
            - Qual!  É outra putinha, anda com dois namorados, já vi os encontros, na cara de todo mundo.  São duas, Clarisse, são duas.  Mãe e filha.
            Tomou mais uma dose do scoth sem gelo.  Espanto por qual causa?  Só se a notícia suja tinha alterado um pouco o noticiário de todos os dias.  Políticos safados, empresário conhecido pagando para aparecer na mídia escrita, bundudas sempre presentes, querem parecer as maiores mulheres do mundo, maiores e melhores, quando são apenas mulheres em princípio do processo de obesidade.  Ah!  E os jogadores de futebol.  Daqui e estrangeiros.  Todos os dias nas manchetes, como as tais exibidas.
            Sabe?  A notícia da Rita com o garotão não era suja.  Eles só não estavam no lugar certo, deveria haver mais discrição.
            As notícias sujas são as outras mesmo...  



14 comentários:

Hadassa (EstherRogessi) disse...

Olá, Jorge.
Ótima postagem, parabéns!
Aliás..o que é sujo? ou, ainda,o que é limpo? Alguns pensam que o tom branco -não me refiro a pele-, denota pureza; algumas vezes é verdade, Penso, ser tudo questão de visão.
Cada pessoa dar o que tem e quem recebe, o faz, com o coração que tem.
Como descreve o seu texto: Há muito mais sujeira por aí... Acrescento:Amor, é limpeza!!

Mardilê Friedrich Fabre disse...

É este tipo de notícia que dá audiência. Não acredito que neste imenso Brasil não haja um cientista que tenha descoberto algo, um pesquisador que não tenha recebido um prêmio, um escritor que não tenha sido elogiado no exterior, mas não,a mídia só mostra o lado negativo. É uma pena! Abrs Mardilê

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

É triste, mesmo... perto da sujeirada dos poderosos, a notícia da Rita é quase uma notinha de batizado! Muito bom, Jorge.

IDERVAL TENÓRIO disse...

Professor a leitura ainda é um balsamo para aliviar as tristezas,a imagem quando linda é um balsamos para as vistas e a alma,agora a vida é uma incógnita. Escrever é uma arte.O tema é o mote e a mente do gênio as desenvolve.Ganhei mais um dia com mais uma pérola da literatura brasileira. Como disse um dia o Ferreira Gular sobre o Fernando Pessoa e os seus heterônimos- Deveria ser Fernando Pessoas(com S no fim, no plural), e o Prof.Jorge com a sua versatilidade consegue mergulhar no cotidiano desta plural sociedade.Estou guardando estes textos e sempre que posso comento na SOBRAMES. Abraços .Iderval.

lino disse...

Na é profissão de professora ensinar?
Estava só a "desmamar" o gurí!
Abraço

Sueli Fajardo disse...

O gosto pela infelicidade alheia é mesmo impressionante. Escândalos são, para algumas pessoas, a única forma de sentirem a felicidade. Que jeito mais estúpido de ser feliz. Todos têm telhado de vidro. Erros fazem parte da natureza humana. E quem somos nós para julgar? Reflexiva postagem, amigo.

marcia disse...

Concordo plenamente com o final.....bjus

Célia Rangel disse...

kkkkk... você já ouviu falar em "aula particular"? Então... tudo certo... nada de moralismo barato... afinal, amor tem idade?
[ ] Célia.

Carmem Velloso disse...

O que me impressiona é a sua ideia fertil, sempre com o assunto do cotidiano, e a maneira como constrói os excelentes diálogos. Desculpe as observações, mas para estudiosos, elas são inevitáveis, Jorge.
Bjs. Carmem

Rita Lavoyer disse...

O que eu acho mais gostoso, é que em cada ser humano há uma célula de Rita se desenvolvendo. Rita é isso mesmo! Melhor que qualquer furo de reportagem! kkkkkkkkkkkkkkk

Caio Martins disse...

:-) Certinho, Jorge... afinal, é delas... Já a pornografia institucional, é com o que é nosso, seja com areia, seja com vaselina... Abração!

Maria Luzia Fronteira disse...

Bonito o seu texto Jorge para não variar...o fim tá um must!
Abraços
Manuela

Jota Effe Esse disse...

Que sujo que nada. O que é uma coroa dando de mamar a um garotão, diante do que fazem nossos políticos com nosso dinheiro? Bota pra quebrar, madame! Meu abraço.

Malu Monte disse...

Essa notícia nos dias de hoje já virou "lugar comum" mas, por incrível que pareça, ainda continua a atrair a atenção de muitos.
Ótimo texto!