quinta-feira, 18 de julho de 2013

Assunto liquidado

 
         Um frio agonizante, o chão de pedras, um vento que não cessava e a rua deserta.  Uma lâmpada de luz branca, no poste, dava apenas para ver a parte dianteira do carro e um ocupante na direção.  A calefação estava desligada e o motor sem funcionamento.
         Magro e forte, o tal que ocupava o veículo.  Sobretudo curto, um gorro de lã, sapatos de sola grossa e calça de veludo.  O trinta e dois cano longo cuidadosamente ajeitado na cintura.  É ótimo para tiros precisos, por não ter recuo forte.  Esperava calmo, não adiantava ter pressa, o casal jantando no bistrô elegante tinha todo o tempo do mundo.  Medalhões de filé mignon, acompanhados de salada de tomate, rúcula e aspargos.  A elegante taça de vinho mostrava o líquido vermelho e brilhante.  Excelente qualidade, sem ser caro.  Qualquer conhecedor de vinhos honestos sabe que nada justifica o preço superior a cinquenta reais, pouco menos do que vinte e cinco dólares, uma garrafa.  Os produtores e os falsos entendidos teimam no mundo inteiro, e existem marcas e safras realmente com preços absurdos.  Pura idiotice, qualquer vinho produzido em Napa Valley, Califórnia, por mais simples que seja, não tem qualidade inferior.
         Assunto que não preocupava o homem que estava examinando com cuidado o trinta e dois, engatilhando e soltando o mecanismo com o percussor, observando o perfeito funcionamento do tambor que girava perfeito a cada movimento de armar.  Retirou um dos cartuchos.  Brilhante, cor de moeda dourada nova.  Na extremidade, o objeto que já tirou e vai continuar ceifando a vida de muitos.  Envolvido numa camada fina de metal branco, a ponta de chumbo tinha seu início perfurado.  Guardou a arma e esticou as pernas.  Já estava sentado há duas horas e meia.
         No restaurante pequeno, o casal já havia pago a conta, enfrentava o frio da noite e se acomodava no automóvel francês, mas montado aqui mesmo.
         O trânsito amanheceu confuso, no dia seguinte.  Ainda estacionado, um carro estava sendo fotografado por peritos criminais que tomavam cuidado para não mudarem, por algum acidente, a posição dos corpos.  Um homem e uma mulher, ambos mortos por certeiros tiros, dois em cada um.
         Os policiais cumpriam sua missão técnica.  Sabiam que o autor não seria apanhado, havia sido crime cometido por profissional.
         Num bar próximo, o homem que estava na noite anterior com o sobretudo cinza escuro, tomava uma xícara grande de café e fumava, esperando o seu cliente para ambos darem uma olhada no que estava acontecendo.         

13 comentários:

petuninha disse...

Olá, Jorge!
Interessante cronica policial, com muito suspense.
Trabalha na mente de quem o lê, perguntando quem eram estes personagens e por que agiram todos dessa forma.
Talvez os peritos criminais encontrem alguma pista. Ou nunca encontrarão, devido à frieza e a habilidade do matador.
A descrição dos que fizeram parte do ocorrido é muito bem feita.
Parabéns!

Tais Luso disse...

Olá, Jorge, texto tenso, nos leva com o mesmo fôlego, inquieto, do começo ao fim. Cheira ser um crime passional...
Gostei, também, da descrição dos vinhos, um 'aparte' bem bolado. E concordo com você.

Gostei muito.
Grande abraço!

Ana Bailune disse...

Boa tarde, Jorge. Alguns acham que matador de aluguel é uma profissão honesta... excelente conto!

Rita Lavoyer disse...

Liquida-se um assunto e inicia-se dezenas de outros. Nada como um problema mal resolvido para fazer histórias. Muito bom. Jorge!

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Daria um bom filme policial. Abrs. Mardilê

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Por esta e outras lavras lidas aqui no seu espaço, dá para perceber uma natural desenvoltura sua pelo gênero policial. Este último conto, ótimo, só confirma minha tese. Abraços, Jorge.

Caio Martins disse...

Meu caro amigo, uma única falha: faltou o molho madeira nos medalhões de filé... Compartilho sua opinião sobre vinhos, e quanto ao enredo, é partir para o abraço. Gostei muito! Forte abraço!

Marco Bastos disse...

Bem tramado, bem tecido. E um Taurus 32, bala dundum, faz seu estrago. Fico com Ana Bailune - matador de aluguel. Nos tempos idos, as cidades ficavam aterrorizadas quando aparecia um "vulto", de chapéu e capa longa, nos becos escuros, à espera da oportunidade e da hora da ação. A mágica dos contos é deixar para o leitor a finalização da história. Nisso você é mestre. abraços.

Célia Rangel disse...

É, Jorge... assunto liquidado para alguns com artifícios lucrativos para tantos outros! E, a vida não vale nada em comparação aos vinhos... já a morte... dependendo da estirpe humana, renderá muito ao portador do 'trinta e dois'!!
Abraço.
Célia.

Maria Coelho disse...

Jorge,

Conto intenso, que prende-nos até o final. O título é perfeito! abraço

marcia disse...

Querido Jorge,como sempre, um conto perfeito em todos os detalhes.. Edgar que se cuide...
bjus

Jota Effe Esse disse...

Um excelente conto/crônica, permeado de assuntos diversos, sempre com muita proprieade. Meu abraço, amigo Jorge.

Anderson Fabiano disse...

Menino do céu, simplesmente ótimo!

Meu carinho,
Anderson Fabiano