segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Farsantes

                  
 
            — É preciso cuidado.
            — Cuidado com o quê?
            — Estes caras estão vigiando tudo.
            — Qual!  Não tem gente para isso.
            Esta conversa, entre tipos bastante incomuns, estava sendo travada num conhecido e bem frequentado bar da região, onde o chope era conhecido como ponto alto.
            Clima ameno, temperatura agradável, não sendo necessário o uso de agasalhos.  O homem moreno de sol, cabelos brancos e camisa cinza, não parava de olhar os seus sapatos.  Havia comprado no dia anterior.  Bem feito, couro marrom claro, sola macia. 
            — Parece tudo tranquilo e calmo.
            — Mas cuidado não é demais.  São uns bisbilhoteiros de marca maior.
            — Mas é impossível escutar o que estamos conversando — arrematou o único que havia preferido uísque sem gelo ao chope que seus dois acompanhantes bebiam com cara de indisfarçável prazer.  O sol já havia desaparecido quase completamente, e as primeiras luzes dos postes, fotossensíveis, acendiam alternadamente.
            — Este preço pode chegar a quanto?
            — Talvez ao triplo combinado.  Muita chuva, a última causou estragos, o concreto ainda não havia curado totalmente.  Deu trabalho demais!
            — E eles aceitam o aumento?
            — Sempre aceitaram, porque seria a primeira recusa?
            O que bebia uísque pediu mais castanhas de caju.  Olhou para o alto, viu as luzes da favela, que teimam agora de chamar comunidade, serem acesas.  Numa mesa do bar modesto, onde o barulho do ventilador estava incomodando, uns tipos faziam o mesmo.  Estavam sentados, conversando sobre a distribuição do tóxico, enquanto acabavam com o estoque de cerveja.
            Não havia quase diferença entre eles.  Empreiteiros mancomunados em faturar bem mais nas obras contratadas, mediante o pagamento de gorda comissão, e homens de bermudas sentados em local mais alto e de construção ainda mais feia dos que estavam comemorando o final da sexta-feira, com a diferença de que lá encima não tinha nenhum homem admirando seu sapato novo, caro, confortável e muito bem feito...
 

13 comentários:

Efigênia Coutinho disse...

Tudo muito bem colocado, onde somos os marionetes nas mãos dos farsantes! Efigenia Coutinho

Rita Lavoyer disse...

É um conto bem realista, Jorge!

Caio Martins disse...

Fato! Verídico e constatável a qualquer momento. É a síntese mais realista de uma realidade que li até hoje. Parabéns, Jorge! Quem é bom, já nasce feito...

Vera Fracaroli disse...

Sabemos que não é de hoje, que os jornalistas, intelectuais, críticos etc..
Juntam-se em bares centrais, onde deixam escapar comentários sérios de
Políticas e coisa e tal...
Que ali estão descontraídos falando e sem perceber o perigo de suas opiniões e
Projetos... Juntos com olheiros alheios que tomando seus drinques como se nada
Houvesse... Todos se misturavam numa explosão de emoções sem perceber o perigo
Que estavam correndo em contar seus planos no momento de empolgação...
Belo texto caro Jorge, sempre nos abrindo os olhos com seus ensinamentos.
Aplausos!
Um abraço!

Célia Rangel disse...

Ainda que esses estavam publicamente gloriando-se de seus feitos "para levar vantagem em tudo"! O pior é a "corja intelectualizada" que, nos porões elitizados, fecham acordos de alcova, e depois com cara lavada, se acham "injustiçados"...
Abraço.

Rob Novak disse...

Todos esses tipos são crias do 'sistema'. Enquanto houver legislação, decisões e execuções que os alimente, haverá essas 'happy hours' para reunir a galera parceira.

Bom texto. Direto ao ponto.

CELSO FELÍCIO PANZA disse...

Está lacrada no breve conto sua indignação que criou um regime multifacetado. Jorginho, um "çabio" ignorante, descobriu no Brasil o que já era velho, mas antes um tanto intimidado pelas leis que se cumpriam, TODO MUNDO, RARAS EXCEÇÕES, TEM PREÇO. E ASSIM COMPROU-SE DOS MISERÁVEIS, ATRAVÉS DAS BOLSAS (não sou contra, a miséria principalmente a fome deve ser erradicada)PASSANDO PELOS EMPREITEIROS E DETENTORES DE GRANDES CAPITAIS A TODOS QUE COLOCAM NOS CARGOS PÚBLICOS NO MERCADO DAS TROCAS SUAS CONSCIÊNCIAS. Difícil mudar isso. O gueto tem cinquenta milhões de bolsas que são favorecidas sem ligação com a educação, pequenos municípios do interior norte vivem disso, um exército de cargos comissionados que reconduzem pelo voto seus padrinhos e mais dez por cento de grandes empreiteiras que estão no sistema eleitoral investindo para retorno em licitações. Desmonta isso meu caro. Os "bandidos" são todos iguais, bem calaçados ou descalços. Abraço. Fiquei cliente, não? Celso

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Retrato fiel da inacreditável realidade brasileira. Bom texto, Jorge.

Carmem Velloso disse...

Aqui, qualquer semelhança não é mera coincidência.
Um título bem real, Jorge. "Farsantes".
Bjs. Carmem

Marco Bastos disse...

Quando não existe Ética qualquer sociedade é podridão. O homem que não produz sobrevive apropriando-se da produção de quem produz - e toda a atividade consiste em planejar a usurpação. Caminho sem volta: quem perdeu o bonde da história foi alijado pelo desenvolvimento tecnológico e não tem mais espaço onde inserir-se.

Tais Luso disse...

Eu já ouvi histórias assim por aí, pelos cantos desse país... Onde terá sido?? Não lembro, foram muitas...
Ótima!

Abraços.

Mardilê Friedrich Fabre disse...

È impressionante a tua capacidade de criar imagens, Jorge. Ao ler o conto, criamos a imagem do local: um bar de favela, duas mesas: uma com traficantes e uma com empreiteiros corruptos. Qual a diferença entre eles? Abrs Mardilê

Sara disse...

Internet é melhor porque com este tipo de coisa sempre vai ter a oportunidade de aprender algo novo Espero continuar lendo isso enquanto eu estou esperando a minha comida no la caballeriza