segunda-feira, 25 de maio de 2015

Morte na ladeira


         

            A chuva fina que caía não incomodava o jovem que descia uma ladeira sombria, para encurtar seu caminho até a sua casa.
            Ouviu passos.  Não se virou de imediato; antes, sacou o revólver trinta e dois, cano de seis polegadas, sem ser visto por quem quer que seja.  A ladeira era mal iluminada, e os filetes d’água corriam junto aos meios-fios da calçada.
            Quando mexeu com a cabeça para ver o que se passava atrás dele, não gostou nada.  Dois vagabundos, destes mequetrefes que não valem o que comem, já estavam bem próximos.

            — Quer fazer o favor de repetir, tenente?
            — Já disse tudo.  O senhor pode perguntar o que quiser, doutor.
            A delegacia era um prédio relativamente novo, e o seu interior estava bem conservado.  Tolice pensar que toda repartição policial é uma baderna, móveis sujos, chão manchado, os poucos computadores não funcionando direito.  O lugar não era assim.  O delegado que inquiria o jovem oficial do exército era um sujeito paciente.
            — Tenente, foi coisa de profissional.  Dois tiros, um no peito e outro na cabeça.  O senhor tem instrução de combate com aprovação excelente.  Pode me dizer a sua especialidade?
            — Infantaria.  Sou primeiro-tenente de infantaria.
            — Serve onde, senhor?
            — Não posso revelar.  Já disse para o senhor chamar um superior meu, delegado Chaves.  É o seu nome, certo?  Ouvi um colega seu falando.
            — Certo, é Chaves sim.  Prefere ficar em silêncio, tenente?
            — Não senhor, respondo o que perguntar, mas nada sobre o meu serviço.  Só na presença de um superior.
            — Muito bem.  Não vou insistir.  Por que não veio acompanhado de advogado?
            — Não julguei necessário, mas posso chamar.  Afinal o senhor está me acusando de homicídio ou não?
            — Não posso acusar de nada, não tenho provas, testemunhas ou o diabo que seja.  O cara que levou os tiros tinha duas passagens por aqui.  Assaltante, mas também não tinha como incriminar o homem.  Uma das vítimas não o reconheceu.  Medo, claro.  A outra fez a ocorrência e nunca mais voltou.  O que não posso entender é o cara que estava com o que morreu não ter levado bala também.
            — Bem, doutor, se o senhor que é policial não vê sentido, quanto mais eu, que não entendo nada disso.
            — Não é do serviço de informações, tenente?
            — Não, e claro que se fosse não iria revelar a um civil, mesmo que autoridade policial.
            — Sei, sei.  Gosta de revólver de calibre médio, tenente?
            — Doutor, em se tratando de arma, gosto até do estilingue usado nas forças especiais.  Silencioso, forte demais e sempre mortal quando usam bilhas de aço retiradas de rolamentos.  Conhece?
            — Já ouvi falar, meu caro.  Mas nunca vi.  Está dispensado, terminamos, os tiros foram dados por um canhoto, pela direção das balas.  O senhor é destro.  Boa tarde, tenente.  Desculpe o incomodo.
           
            O homem foi embora.  Quando estava cursando a escola de inteligência, viu um colega canhoto que atirava muito bem.  Resolveu treinar com a pistola de pressão, deu mais de dois mil tiros e acabou atirando melhor com a esquerda do que com a direita.  Gostava do trinta e dois cano longo, é muito preciso e não dá o tranco das outras armas mais potentes.  Não atirou no assaltante mais baixo porque ele fugiu.  “Pelas costas, não”, pensou.  O que morreu, nem viu direito como foi.  Ventrículos estraçalhados, e como se fosse pouco, um tiro no lobo frontal direito.  A entrada do projétil tinha pequena inclinação que sugeria ter sido desfechado pela esquerda.


            

17 comentários:

Aida disse...

Excelente! Mantém o leitor preso até a última linha.
Com grande conhecimento de causa.

ॐ Shirley ॐ disse...

Muito boa crônica.
Quanto ao tenente, extrema segurança ao falar, ao agir e ao matar...
Jorge, beijo!

Valentina disse...

Beleza de crônica!!!Desperta tensão,expectativa,e demonstra segurança no que fala...Conseguu prender Minha atenção até o fim...coisa difícil,confesso!!!
Mais uma "tacada de mestre" !!!!!

Rosa Pena disse...

Um conto e tanto... um roteiro.
Você é the best mesmo.
beijos
Rosa

Anderson Fabiano disse...

Jorjão querido,
só posso dizer uma coisa: quando eu for grande quero produzir um livro de crônicas de um certo Jorge Sader. Mas, isso só quando eu for grande... e nem sei se ainda há tempo pra isso.

Simplesmente admirável, parceirinho!

Meu carinho (sempre)
Anderson Fabiano

Celso Felício Panza disse...

Os contos "Georgianos" com os ingredientes de gosto geral e bem apurados pelo autor. Valeu Jorginho, muito bom. Falta fazer um conto/crônica sobre o Pastor e o Cacahceiro.Abraço. Celso

Caio Martins disse...

Há muito capricho na sugestão das entrelinhas que é sua marca registrada, Jorge. Deixa, ao leitor, a sensação de reinventar a cena, e isso é coisa de Mestre! Forte abraço!

Carmem Velloso disse...

Tenho acompanhado com atenção seu trabalho, Jorge. Evolui muito rapidamente, este ficou um primor, pela condução rigorosa da história. Dá gosto ler, meu caro!
Beijo.
Carmem

Marcelo Sguassábia disse...

Thriller by Jorge. Cano curto e grosso, certeiro. Muito bom.

Rita Lavoyer disse...

À la Rubem Fonseca? Não, Jorge tem estilo próprio! Bom, muito bom!

Célia Rangel disse...

Muita ousadia e atrevimento da minha parte querer comentar seu conto, Jorge! Narrativa bem atual! A mídia nos mostra. Excelente contexto! Gostei.
Abraço.

Tais Luso disse...

Olá, Jorge, ótima construção no diálogo, muita coisa nas entrelinhas...ótimo nos tempos de hoje...
Gostei muito.
Abraços!

Vera Fracaroli disse...

Ficou perfeito nos mostrando os fatos
de uma realidade sem fim.
Total atenção voltada para o conto.
Parabéns e muito sucesso!
Um grande abraço Jorge.
Grata pelo convite.

Manuela Mourão e Silva disse...

Parabéns pelo o contexto impecável...
Convence e nos deixa atentos do principio ao fim.
Um conto, além de convincente, muito real
e atual nos dias de hoje.
Um abraço amigo Jorge!
Grata por compartilhar.

Mardilê Friedrich Fabre Mardi disse...

Um conto para ninguém colocar defeito. Está demais, Jorge. Parabéns. Personagens criados com perfeição. O conto prende a atenção do leitor até o fim. Final inusitado. Abrs Mardilê

ॐ Shirley ॐ disse...

Tudo bem?...
Um beijo!!!

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Maravilha de conto. Parabéns, Jorge. Abrs. Mardilê