quarta-feira, 27 de maio de 2009

Abandono: povo da rua

Abandono / Aluizio Freire










Existe um mundo misterioso, onde habitam seres das mais diversas raças, classes, procedência e comportamento.
São pessoas impenetráveis; poucos mostram o seu sentimento. Misturam-se neste mundo marginal por conta própria, sem serem criminosos, mas onde muitos destes se encondem quando a situação obriga. Não permanecem no meio onde não existe nada que não seja o código do sem teto, sem alimentos, sem documentos, sem nada.
O código é simples e só tem um mandamento: “não se meta comigo e eu não me meto com você.” Cumprida esta regra fundamental, nada mais existe que regule a vida estranha, confusa e incompreensível para muitos.


O frio cortante da madrugada fazia com que fossem puxadas as cobertas, insuficientes para proteger seus donos do ar que lhes causava desconforto. O frio do chão era evitado por folhas de caixas que servem para os mais diversos tipos de invólucros comerciais. Papelão, em camada única ou com mais de uma, dependia do dono. As cobertas, sujas como os seus donos, corroídas como eles e quase sempre pequenas, serviam para proteger o sono dos que estavam sob a marquise de um velho prédio, numa rua pouco movimentada.
De acordo com o ganho de cada um deles, as blusas de lã, os pelegos e a cama de papel, tinham melhor ou menor qualidade, se esta palavra pode existir neste mundo estranho.
Breve o Sol apareceria, o incômodo do frio seria amenizado, e cozinhas de tijolos, que usavam madeira de caixas recolhidas nas ruas, entrariam em funcionamento para preparar um café ordinário, sempre acompanhado de pão fresco, mendigado ou pago na padaria mais próxima, ou dormido e requentado no fogão primitivo.
A primeira refeição do dia era esta, mas para a maioria dos homens e mulheres que moravam nos mais diversos lugares da cidade, o café com pão era precedido de farta dose de cachaça. Apenas as crianças, frutos das uniões entre estes homens esquecidos pela sorte e pela vida, não bebiam aguardente.
Assim é o início do dia, na comunidade dos mendigos.
Esta palavra choca a todos que tem um teto, mesmo que favelados. O mendigo é olhado pela sociedade como sendo o resto dos restos, e ele é isto mesmo, na realidade. O que espanta a todos é que eles existem em países pobres, em desenvolvimento, e ricos. Nestes, os abrigos existem em maior quantidade, dorme-se numa cama onde o colchão não é macio, mas é muito melhor do que a folha de papelão. A coberta, nos dias frios, protege bem melhor, e sempre há calefação no lugar. O café da manhã, pago pelos órgãos assistenciais dos governos ricos, é quase o mesmo, embora haja sempre um mingau de aveia. Os que lá procuram acolhida têm noites mais tranqüilas, mas após a primeira refeição tratam de abandonar rápido o local que os acolheu durante a noite.
Ganham as ruas, alguns em busca de trocados do povo, outros catando objetos que a sociedade de consumo jogou fora, e muitas vezes não tinha alternativa. É lixo mesmo, garrafas, caixas, latas e não poucas vezes comida não tocada, ainda podendo ser consumida.
Este mundo não pode ser definido por falsos entendedores do comportamento e da alma humana. A garimpagem dos objetos deixados nas ruas, lugar onde este povo vive, garante muitas vezes um ganho mensal maior do que o de muitos trabalhadores. As carroças utilizadas para a cata e o transporte do material têm as mais diversas formas possíveis, de acordo com a engenhosidade do proprietário e do material que ele conseguiu para a construção da engenhoca. Uma vez cheia, o material é levado aos depósitos compradores desta sucata que vai ser reciclada.
Outros preferem mesmo é usar da caridade do povo, esmolando. Não trabalham como seus colegas catadores, mas ganham um razoável dinheiro. Há muitas lendas a respeito. Dizem que existem mendigos donos de verdadeira fortuna, afirmação que não tem procedência.
Vida tortuosa gastam o dinheiro em bebidas, principalmente. A grande maioria dos mendigos é de alcoólatras. A miséria não é a causa desta inexplicável maneira de viver, onde tudo é livre. A habitação não existe, ora é numa marquise, ora é na praia, o lugar nunca é certo e determinado, a comida sempre existe, pois a marmita de papel alumínio é barata, comprada em bares e botequins quase sempre tão estropiados quanto eles. O dinheiro arrecadado diariamente garante o sustento, quem não acredita nisto e pensa que o mendigo é um faminto se engana.
A loucura, este flagelo que ataca a humanidade sem o menor preconceito, quase sempre é fator determinante da mendicância, seja ela provocada pelo alcoolismo ou não. Segundo muitos reais conhecedores do assunto, o mendigo é um doente mental e não o fruto de uma sociedade seja ela capitalista ou socialista.
O que acontece neste mundo, ninguém sabe contar direito. Embora destituídos do espírito gregário, eles mantêm uma união, por força da necessidade.
Mas não é só isso que acontece neste meio.
Um homem de meia idade, barbado, vestindo um moletom visivelmente de terceira mão, tênis recolhido em algum lixo, com um hálito de cachaça que impregnava o ambiente, viu um colega passando mal, com falta de ar, tosse contínua e cor vermelha, no rosto, peito e costas.
- Chamem uma ambulância depressa. Geraldo está muito mal – foi o que disse tão logo deu uma rápida olhada no homem que sufocava.
Por incrível que pareça, em pouco tempo uma ambulância do Corpo de Bombeiros estava no local. O maltrapilho, dirigindo-se ao oficial médico, falou sem qualquer suspeita de dúvida: - edema agudo de pulmão. Tem que ser medicado já, senão morre em pouco tempo.
O jovem tenente médico estranhou muito o diagnóstico daquele tipo tão arrebentado. Sim, embora não fosse cardiologista, já tinha visto muitos casos semelhantes, e o diagnóstico estava certo.
- Quem lhe disse que ele está sofrendo um edema agudo?
- Ninguém, doutor.
Saiu do local, dirigindo-se ao botequim próximo e tomando um grande gole de cachaça, pensou consigo mesmo que a vida era estranha, o mundo era incompreensível, mas estava visivelmente satisfeito.
Há muito anos atrás, o competente e conhecido médico ainda tinha, em outra cidade, mulher e filha de quatro anos. Era chefe da equipe de cardiologia do mais confiável hospital da cidade. Sem razão alguma, não tinha problemas familiares, ao contrário, era muito querido, e profissional conhecido, foi aos poucos mudando de atitude, em virtude do consumo exagerado do álcool. Mudou-se e hoje faz parte desta multidão de anônimos, que a Vida esqueceu e eles pouco se importam com isso.

4 comentários:

Célia Borges Forte disse...

Cada dia melhor! Parabéns, Jorge.
Beijos

Caio Martins disse...

Retrato do possível, nas ruas. Já lhe relatei o caso de um engenheiro que, um dia, saiu de casa e virou andarilho.Contudo, a sensibilidade de contar a história é inigualável. Parabéns.

Anezinha disse...

Li atentamente, bela sua construção!
Aqui na minha cidadeé imensamente alto o número de moradores de Rua,doentes, em especial com Esquizofrenia, há pouca ou nenhuma assistência, dado o calor talvez, muitos homens e mulheres não aceitam roupas e andam nus em pelo pela rua...Minha filha que trabalhou nos hospitais públicos daqui os atendia muito..assim que saram ou amenizam o mal, voltam as ruas...
Tema e abordagem de grande valor e reflexivo!
abraços!
Paz!
Rose

Celso Panza disse...

Conheço de uma certa forma esse universo, e o pior é que não querem ajuda, é a total entrega ao nada, ao aniquilamento, fugir o quanto mais rápido da vida e da realidade, uns fazem-no nas ruas, outros até mesmo na proteção das paredes de suas habitações, alguns sabiamente, mas renunciando à vida, os monges, outros preservando a mesma, mas vendo a vida e suas cores passarem sem usufruir o que lhes é oferecido; opção.

Contudo, embora excelente como conto, desfecho, na realidade é improvável o fechamento da história, vale como criatividade. Celso Panza