quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ela, a bruxinha

Ela/Google


















Praia de águas claras e límpidas. Parece milagre, mas é verdade. Dois tipos aparentando não fazerem mal a ninguém, tomam cerveja na sombra da eficiente barraca.
- E você está triste com a perda?
- Triste não. Não haveria como ficar com aquele anjo.
- Anjo? Não anda lendo Nelson Rodrigues demais?
- É um anjo. De cara. A alma é vagabunda. Linda!
- Apaixona-se por prostitutas agora?
- Não é questão de agora. A paixão não tem tempo.
- Sei. E a traição também.
- Acompanha todos nós.
- Todos nós uma ova! Traição comigo é pancada e separação.
- Sempre pensei assim, até que veio esta.
- Vele a pena?
- “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena” – respondeu com uma frase do poeta português.
- Esse cara era doido!
- Acaso você não é também? Não somos todos nós? Fernando Pessoa nunca se disse são. Mas suas verdades são sublimes...
- Mas você está apaixonado pela bela Maria Eduarda. Não faz sentido. Ela casou com outro, foi-se embora.
- Embora? Não. Isto é coisa passageira, mais cedo, mais tarde, ela está de volta.
- Como tem tanta certeza?
- Fácil. Outra terra, outra gente, costumes diversos. Ela é daqui, e daqui não vai sair.
- Presunção sua! Já saiu...
- Mas volta. Cedo ou tarde ela volta.
- Como pode ter certeza disso?
- Conheço sua alma...
- Conhece como, se não é vidente ou coisa que o valha?
- Ela volta.
- Pode ter uma desagradável ilusão, meu caro!
- Engano seu. Seguiu porque não tinha alternativa.
- Casada?
- Casada. Está iludida, é muito nova. Quando abrir os olhos, vai ver a tolice que fez.
- Tolice? Vai com essa, amigo! Tolice por qual motivo?
- Simples. É e sempre foi muito livre. Quando sentir que a liberdade está restringida, abandona tudo e volta.
- Volta para os seus braços?
- Claro que não. Volta para as areias brancas, muito brancas, que fazem doer os olhos quando refletem a luz do Sol. Para o mar e a terra que ama e sempre amou.
- Você está excluído?
- Excluídos somos todos nós.
- E ela?
- Ela é um grande mistério, como são todas as mulheres.
Acabava de sumir o Sol. Com a chegada da noite, o mistério aumentaria, mas a conversa terminou.
Ninguém sabe como isto tudo vai acabar. Nem eu, nem ela, nem você...

5 comentários:

A. Regina disse...

Início, meio e fim prendendo o leitor com a forma que vem descrito o conto. Mas se esta mulher lindíssima é uma bruxa, quem é bonita nesta terra?

Anezinha disse...

ai ai.. adorei.. bruxinha somos todas nós....aparente igualdade,bolsas iguais,mas cada uma um mistério.... mil segredos...
Muito bom!
você sempre muito bom nesse estilo!
bjs
Rose

Caio Martins disse...

AS bruxas, Jorge, eram mulheres belíssimas, inteligentes, cultas, que dasafiavam o patriarcado milenar. Resultado? Fogueira nelas! Lauma, já apresentada numa crônica, as retrata. Nesta, você as transcreve. E todos "abobados, aplaudimos"... Abração, Mestre Escriba!

Dolce Vita disse...

Jorge,

Uma parte de mim reconhece, a outra se rebela.

Talvez por isso, mulheres permaneçam sem respostas.

Sem respostas lineares. :)

Belíssimo texto! Adorei!

Um abraço,
Dolce

Duda disse...

Ah...se ela tivesse uma boa razão para voltar,com certeza voltaria...e assim,a história teria um fim.
Lindo...parabéns,Jorge querido.
Bjs
Duda