sábado, 23 de maio de 2009

O "profeta" Gentileza

Gentileza / Paulo José, Globo

















Nascido e criado em Niterói, onde apareceu o totalmente insano Gentileza, por muitos dito “profeta”, gostaria de contar a sua história.
Sei que muitos o admiram, pois ele falava muito em amor. Conheci-o pessoalmente. Eu e todos os meus amigos, naquela época muitos.
Era totalmente inculto, nada sabia de religião e os psiquiatras não cuidaram dele porque era tido como louco manso. Era pacífico, mas não quando via alguma mulher, principalmente moça, usando minissaia. Gentileza partia para o mais feroz ataque, nunca se esquecendo de ofender a moça. Ameaçava com palavras dizendo que vestir-se desta forma era uma artimanha do diabo...
Sempre com roupas brancas, desenhadas com garranchos e cheias de flores, carregando uma tabuleta com escritos indecifráveis, Gentileza tornou-se figura conhecida. Morava num caminhão todo enfeitado, em frente a um grande largo que hoje abriga um supermercado e o DETRAN. Diziam que perdera toda a família no incêndio catastrófico do circo, fato que marcou a cidade. Morreram muitos, e entre eles, segundo diziam, toda a família do “profeta”. Deslavada mentira; os policiais conheciam Gentileza muito bem. Foi morar naquele caminhão porque o mesmo estava preso e abandonado. Se estava estacionado perto do local onde houve o incêndio é porque simplesmente ali era o depósito de veículos presos.
Gentileza nunca foi visto mendigando, mas todos sabiam que alguns comerciantes do centro da cidade, para se verem livre da estranha figura, o que atrapalhava seus negócios, garantiam a sua subsistência, especialmente uma lanchonete, hoje fechada, que era “ponto” do barbudo magro e de cabelos longos.
Não posso omitir que eu mesmo fui obrigado a ameaçar Gentileza de pancada. Ele estava atacando furiosamente mãe e filha, pois esta estava usando minissaia. Geralmente pacífico, ficou agressivo e as duas mulheres ficaram tomadas pelo pânico. Eu estava passando pelo lugar, na hora. Pedi ao “profeta” que parasse com o ataque que estava fazendo. Foi o que bastou para ele começar a me ofender e até mesmo ameaçar. Montanhista naquela época, acostumado a escalar picos conhecidos, naturalmente era forte, embora não corpulento. Não tirei o paletó. Parti firme e ia dar uma coça em Gentileza, apoiado moralmente por todos os presentes. O pobre coitado, como todo louco, tinha horror a apanhar. Todo doido é assim. Enfrenta um revólver ou faca, mas foge da pancada como o diabo da Cruz.
Esta fama que pegou, segundo dizem, foi graças a um trabalho de um estudante da UFF, que defendendo tese, escolheu o pobre infeliz e o classificou como profeta. A Rede Globo encarregou-se de espalhar aos quatro cantos a sabedoria e a bondade de Gentileza, que se mudou para o Rio e pintou grande parte dos pilares de um elevado, no centro da cidade. Não foi como Antônio Bispo do Rosário, que se vestia de modo mais extravagante ainda, mas apesar de ser um pintor conhecido, nunca se livrou dos muros de um manicômio. Este sim era um gênio, e dos mais produtivos. A Globo redimiu-se da invenção. Paulo José fez uma passagem em novela atual. A semelhança com Gentileza está perfeita.
Conheço muitas histórias da Vila Real da Praia Grande...

4 comentários:

Gustavo Medrado disse...

Gentileza nunca foi profeta. Como o autor mencionou, era um doente mental manso. A caracterização do ator Paulo José é a própria figura do perseguidor das minissaias.
Muito bom, Jorge. Você conhece Niterói mesmo. Excelente texto.
Abraços.

Venâncio disse...

Tá aí, Jorjão: todo doido que se arreveza com mini-saia certamente não gosta de pancada... Não era tão pinéu assim. Descrição esmerada, nos trinques.

Anezinha disse...

Muito bom Jorge! belo descrever! adorei ler! Paulo José está mui bem, embora não tenha conhecido o Verdadeiro Gentileza!
abraços!
Rose

Celso Panza disse...

Jorginho,escrevo em todas suas matérias como "convencionado". Gentileza, conheemos bem ele, um coitado, ter por ele e sua alma comiseração, deve ser nossa meta. Existem coisas piores, mascaradas e soltas no mundo, com insuficiência aparente e conseguindo enganar a muitos, sedimentados em insucessos e problemas pessoais inconfessáveis, alardeando falsidades e frustrações e proclamando conhecimentos e culturas que não têm, botos da razão. Esses são mais coitados que Gentileza que se mostrava inteiro, e merecem também nossa compreensão por suas derrotas e patologias, a internet está cheia deles. Oremos pelos "Gentilezas" da vida, o que foi nosso conhecido e os outros que perambulam em desencontros multiplicados. Celso Panza