sábado, 2 de maio de 2009

Nina

Nina/G1












Alberto Nadreau acabara de vestir-se com sua calma e esmero na escolha das peças. Tudo muito cuidadosamente escolhido. Elegante, o Alberto. Todos reconheciam este fato.
Não, apesar do sobrenome, não era parente do Comandante Georges Nadreau, imortalizado com Vasco Moscoso de Aragão no “Os Velhos Marinheiros”, do nosso romancista tão criativo e talentoso.
A história de Alberto, que era tão meticuloso quanto apegado aos mistérios da vida comum, que Jorge Amado tão bem escreveu, parecia mesmo saída de algum livro de ficção. Mas era real.
Passara do sessenta anos e ainda mantinha um aspecto atraente. Sempre muito bem barbeado, mantendo sua forma física com caminhadas e musculação, recomendados pelo seu cardiologista, o homem ainda fazia suspirar o coração das mulheres.
Estes lobos são os piores. Conhecedores da vida, dos hábitos e costumes dos seus semelhantes, são capazes de encantar qualquer mortal, seja homem ou mulher. Alberto encontrava-se neste tipo de homem cujos privilégios da educação esmerada tinham tornado o sagaz homem de negócios, negócios sérios e arriscados, como não deixar de um dia apenas frequentar uma forte corretora da Bolsa. Era um homem rico, tanto material como espiritualmente.
- Beto, será possível que você não é capaz de enxergar que esta situação é muito delicada?
- Por qual razão? Por Nina ser uma prostituta?
- Não é só esta, homem de Deus! Você tem família, é pai de uma bela moça, mais velha do que a Nina.
Armando, seu velho amigo, conhecia bem a história. Embora não afeito a conquistas amorosas há muito tempo, Alberto estava sendo dividido pelo seu amor e dedicação a Nina, uma prostituta de alta classe que conhecera numa festa de encerramento de fim de ano, na casa de amigo também investidor.
Nina, como tantas outras, fora contratada para fazer parte da comemoração, fato muito freqüente. O mais interessante é que este hábito se tornou comum, tanto na classe rica, como na pobre. O cidadão de classe média, tão comum e de numerosa presença na sociedade, não faz parte desta categoria de homens que estão nas extremidades das pessoas. Hoje, tanto nas suntuosas mansões, como nos bailes funk, o fato é normal. A contratação de mulheres bonitas e conhecidas faz parte do ritual festivo.
Foi assim que o muito bem sucedido Alberto conheceu Nina, uma linda jovem de vinte e quatro anos, que num vestido preto, elegante e de bom gosto, tomava uma taça de champanhe no salão de festas do edifício onde morava o sócio majoritário da corretora de valores encarregada de movimentar seus negócios.
Bela de rosto e corpo, com traje e comportamento que nenhum dos presentes poderia imaginar que Nina estava na festa para aparecer e se por acaso algum freqüentador ficasse deslumbrado com a sua presença ela estava disponível, seu olhar para o feliz Alberto, que também estava com uma taça cheia de champanhe na mão, e não demorou a perceber os olhares da jovem. Nada inexperiente, em pouco tempo Alberto conversava com Nina.
- É funcionária da corretora?
- Não. Fui convidada. Vejo que você está realmente feliz. Bons lucros neste ano?
- Só respondo depois de saber seu nome, e o que está fazendo aqui.
- Sou apenas uma espectadora. Paga para comparecer à festa, agradar os participantes e não fazer perguntas. Meu nome é Nina, e peço desculpas pela pergunta indiscreta.
- Nina? É o seu nome mesmo ou um apelido? Não ligue para perguntas deste tipo. Somos todos homens de negócio. Sim, tive bons lucros.
- É o meu nome mesmo. Fico satisfeita em não ficar zangado. Perdão.
- Só concedo perdão se quiser ser minha companhia, Nina.
- Com muito prazer, meu caro – e passou a mão delicadamente no rosto de Alberto.
Qualquer um pode imaginar o que se passou depois. Num apartamento pequeno, tipo flat, ambos sentiram um prazer imenso. Nina não fingiu, como é a praxe. Ficaram apaixonados, talvez como numa relação bastante comum no conhecimento da antiga Grécia; Electra era uma realidade. Duas pessoas ligadas a Alberto conheciam o fato. Armando, seu amigo de vinte anos, e Lúcia, sua filha de vinte e cinco anos, a caçula, que adorava o pai e trabalhava com Nina.

2 comentários:

feqalma disse...

Classe para tratar do assunto é que não faltou. Complicado, muito complicado. Mas você é ...oda, conhe o caminho das pedras. No fim é aquela história, só se aprende com quem sabe. e as mulheres sabem disso

Anezinha disse...

Super bacana, tratado com muita elegância mesmo. E um tema muito muito comum hoje, alguns pais "moralistas" vivenciam isso rotineiramente!
Adorei! muito inteligente sua criação!
abraços
Rose