domingo, 7 de outubro de 2012

O Velho e o Mar


                                     

            O homem sentado, bem vestido esportivamente, aparentava ter passado dos cinquenta e cinco anos.  Eram onze horas e poucos minutos, céu claro, mar limpo, céu transparente.
            Bebia um gim-tônica, lentamente, enquanto escrevia num caderno de boa aparência.  Via-se que não tinha medo, fato incomum nos dias atuais.  A caneta era uma Parker 51, com a tampa em ouro.  São poucos os que se atrevem a cometer atos assim.  Qualquer desocupado com intenções menos honestas poderia com facilidade roubar seu precioso objeto.
            Atento ao que escrevia, pouca importância dava ao fato.  A caneta corria firme, com pequenas observações de quem estava redigindo à beira-mar.
            Misteriosa figura.  Corpulento, de bermudas e camisa polo impecáveis, sapatos tipo mocassim leves e confortáveis, só prestava atenção ao que escrevia, ninguém sabe o quê, além dele.  O gim-tônica descia vagarosamente, embora tomado em doses significativas.  Acendeu um cigarro, fato que hoje é bastante incomum, mas tempo era passado.  O garçom serviu outro copo, limpo, quando percebeu que já havia chegado a pouco menos da metade o que estava na mesa.  Recebeu um leve aceno de cabeça, como aprovação.
            A caneta corria, cada vez mais.  As leituras de revisão eram poucas.  Tudo fluía como um verdadeiro rio correndo nas suas margens.  Pela expressão de quem escrevia, o resultado era bom.
            Outro cigarro, e mudança de copo.  Bebia quatro, antes do almoço, segundo os locais, que apreciavam o trabalho solitário e constante daquele homem de barba branca, vezes aparada, vezes não.
            O bar ainda existe.  A cidade é Havana, Cuba.
            O homem, todos dizem, era Ernest Hemingway, quando escreveu “O Velho e o Mar”, talvez o melhor livro de alguns séculos passados.  Santiago continuava lutando contra o espadarte, sozinho e sangrando nas águas do Golfo.  Falando consigo mesmo. A falta de Manolín, o menino que o acompanhava, era grande.  O Sol queimava-lhe os olhos.  Tudo era contra, mas Santiago desafiava o combate.  O peixe era um lutador.  Sente-se a Vida, o drama humano.
            É história; todos falam.

12 comentários:

Rita Lavoyer disse...

Dizem que a voz do povo é a voz de Deus. todos falam? Falam e é fato. Se não foi, torna-se real agora na ponta dos teus dedos, Jorge!
Grande abraço e bom domingo!

EstherRogessi A.Mendes disse...

Olá, Jorge...
Desejo a você uma tarde em paz.
Aqui, o céu parece de bronze – nuvens cinzas; como que um choro reprimido da natureza.
Confesso: Não difere do meu coração... Hoje, é dia de eleição; contenho o pranto. No país da democracia sou obrigada a votar. Fiz uma peneirada – dos péssimos, votarei no menos...
Alegremo-nos com a Literatura.
A sua crônica é ótima, parabéns! A cada escrito você se supera. Quanto ao maravilhoso Hemingway, fantástico! O Velho e o Mar – excelente obra que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer; esse magnífico escritor ainda ganhou o Nobel da Literatura em 1954. Vindo a cometer suicídio em 1961.
Fico perplexa! Quantos homens e, mulheres dedicaram-se à arte da escrita; alcançaram a glória, o reconhecimento, para no final... tirarem a própria vida. Não posso ficar indiferente; medito profundamente sobre fatos tão marcantes. Concluo que, ao pensador, escritor, faz bem usufruir de momentos em retirada, porém, isolar-se é fatal!

Célia Rangel disse...

Depois de obrigações cívicas (revoltadamente) cumpridas, fez-me muito bem ver que, mesmo sem a Parker 51, tampa de ouro(diga-se de passagem, excelente caneta...)seus dedos e mente trilharam em um "teclado de ouro" uma crônica, misto de homenagem e reverência, a ninguém menos que Hemingway, grande parceiro de Jorge!
Abraços, Célia.

Efigênia Coutinho disse...

Ler você sempre será um bom motivo, e hoje relembrar o grande
Ernest Hemingway na sua crônica, foi um momento de "luxo", do que tem de melhor ao Livro O Velho e o Mar, então rendo-me a sua pessoa, que num breve espaço sem cansar o leitor, deitou uma excelente crônica!Abraços,
Efigenia

IDERVAL TENÓRIO disse...

Tanta simplicidade para uma obra inesquecível,ali estava a natureza,o corpo na terra , a mente no ar a viajar pelo mar. Os grandes escrevem com simplicidade como corre a água no rio,Jorge meu mestre você foi feliz neste relato,nesta crônica.Um abraço Iderval.

Tenho lido e muito a Efgênia Coutinho.
http://www.iderval.blogspot.com

Mardilê Friedrich Fabre disse...

Uma crônica para ler e reler, como "O velho e o mar". Abrs. Mardilê

marcia disse...


Jorge,obrigada por lembrar Hemingway nessa tarde de domingo..bjus

petuninha disse...

JORGE! Desde a minha adolescência sou fâ da Literatura de E. Hemingway. O escritor, cortejou a morte durante os 62 anos de vida que se permitiu. O impulso á auto destruiçâo foi camuflado pela refulgente imagem pública que criou para si mesmo, enquanto produzia uma das mais vigorosas obras da literatura contemporânea. O sucesso o fez embarcar em uma verdadeira ego trip pontuada por bebedeiras, touradas na Espanha, safáris na Africa, caçadas, pescarias em alto-mar na corrente do Golfo, lutas de boxe, brigas de botequim, bate-boca literários.
A pós retornar ferido dos campos de batalha da primeira Guerra mundial, na Itália, onde foi motorista de ambulância, Ernest, que já atuava como repórter do Jornal Kansas City Star, resolveu largar tudo para se entregar á carreira de escritor. Instalou-se em Paris. Lá, o romancista, poeta e crítico inglês Ford Madox Ford, surpreendeu-se com aquela nova maneira de escrever prosa: "As palavras de Hemingway nos atingem, cada uma delas como se fossem seixos tirados de3 um riacho. Elas vivem e reluzem cada qual no seu lugar, pelo que suas páginas dâo o efeito de um fundo de riacho que enxergamos através da água límpida a correr.as palavras formam um mosaico, cada qual alinhada ao lado da outra. Mas foi Edmund Wilson, na época se afirmando como um dosw maiores e atentos críticos norte-americanos, que em outubro de 1925 fez com q1ue o jovem fosse levado a sério por seus contemporâneos.Segundo ele, os contos reunidos em In Our Time, continham "mais dignidade artística do que tudo o que tenha sido escrito até hoje sobre o período da guerra, por um americano" E comparou as cenas de touradas descritas por Hemingway a algumas das litografias de Goya.
Nenhum escritor teve sua obra tâo estudada e sua vida tâo esmiuçada quanto Hernest Hemingway.
Beijos, Petuninha.

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Excelente tributo ao grande Hemingway. Mandou muito bem, amigo Jorge!

Marco Bastos disse...

Excelentes as suas letras, Jorge. Sua escrita flui com grande facilidade e sensibilidade.
O Velho e o Mar foi um dos livros que nos anos 50 me marcou profundamente. O "monólogo" do homem com o peixe é muito bem escrito. Você, navegador, deve tê-lo sentido na pele.
Hoje ao ler sua crônica senti saudade da Parker 51 que tive, tampa prateada - meu pai me deu em um dos Natais daquele tempo. Depois veio a Sheaffers.
Hemingway têm um enorme carisma, sua figura e sua vida foram impressionantes, como bem a descreveu a Arlete. abraços.

Carmem Velloso disse...

Jorge, toda vez que vejo você falando de Hemingway lembro das suas confissões de ter lido mais de cinco vezes "O Velho e o Mar" e "Por quem os Sinos Dobram".
Fica explicada a sua maneira de prender o leitor, como nesta crônica curta.
Bjs. Carmem

Anderson Fabiano disse...

Oi, Jorjão,

... então, só nos resta curtir um mojito na Bodeguita e olhar uma certa cadeira pendurada no teto.

meu carinho,

Anderson Fabiano