quinta-feira, 13 de junho de 2013

Acontece



                                        
         O sol acariciava as peles dos que o apanhavam.  Mesa num jardim florido, o hibisco dominando com sua flor amarela.  Na mesa, uma garrafa de uísque, um maço de cigarros que trazia um anacronismo com o tempo atual.  Café, amendoim e castanha de caju.

         Ambos vestidos confortavelmente.  Jeans, camisas de algodão, sapatos mocassim.  Ele bem mais velho, talvez vinte e cinco anos, aspecto saudável.  Ela, esbelta e bonita.  Não bebia, nem fumava, como o companheiro na manhã de domingo.  Beber uísque e fumar, dava-se ao  hábito nos fins de semana, depois das onze horas.

         — Pois eu garanto que este cara é um safado.

         — Engano seu.

         — Engano meu como, se o moleque está se aproveitando da sua idade e inexperiência?

         — Não sou tão nova assim.  Nem inexperiente.

         — Ah!  Além de tudo, está agindo como cega!

         — E você, começando a me ofender.

         — Será que sempre é a mesma e eterna história?  Garota, mete isso na cabeça.  Mais velho, bem mais velho, casado, não vai abandonar a mulher nunca, fica nesta história manjada que não sabe viver sem você, iludindo, e a tola acredita.

         — Para de me ofender.

         — Mas não é ofensa!  Veja bem, a situação dele é muito cômoda, certo?  Cômoda e boa, afinal poderia ser seu pai, usa você como descartável, e se não é assim é pela facilidade, você gosta dele e nada tem em troca.  Amor é troca, sabia?

         — Amor virou produto?  É objeto encontrado em supermercados?

         — Não desconversa.  Sabe bem do que estou falando.  Troca sim, sempre foi, é reciprocidade, lealdade, camaradagem.

         — E?

         — E vocês não vivem isso.  Claro que ouve elogios, promessas.  E o tal não vai abandonar a moleza.  Olha bem para o seu corpo, seu jeito, seus modos.  Quem não quer?

         — Não me interessa quem quer ou deixa de querer.  Já disse, gosto dele.  É importante para mim.

         — Para você, para a mulher e para a família.  Procura você quando quer.  Se olha com jeito de tarado seu corpo nu, qual a vantagem disso?  Muito mais moça, educada, dona da sua vida.  Quem este cara está pensando que ele é?

         — Não está pensando.  Ele é importante.  E eu gosto dele.  Pode ser mesmo um safado como você está dizendo, mas não sei viver sem ele.

         É sempre assim.  Quantas vezes esta história se repete?  Mesma coisa, menores detalhes, não varia nada desde os antigos romances escritos que temos notícia.  Às vezes, o resultado não é nada agradável, pode acabar em sangue.  Mas nem por isso vai deixar de existir.   
 
imagem: índias do Xingu


10 comentários:

Maria Carmem Velloso disse...

Como sempre, uma história cotidiana e muito bem escrita.
Mas o que têm as índias do Xingu com isso, caro Jorge?
Bjos. Carmem

Jorge Sader Filho disse...

Realmente, nada Carmem!
Como atualmente no país nada tem a ver com nada, resolvi homenagear as xavantes, bem mais bonitas do que Dilma e suas ministras.
Beijo.

Jorge Sader Filho

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Pois é... as índias deram um toque surreal a este ótimo diálogo. Muito bom, Jorge!

Rita Lavoyer disse...

As índias?? Não consigo ver a imagem. Talvez vivem numa civilização onde o respeito com a mulher ainda impera.
Uai! Por que será que eu não vejo as índias?

Mardilê Friedrich Fabre disse...

E o pior que já vi isso acontecer com uma amiga minha.Na época, eu ficava pensando se era ingenuidade ou carência. Talvez os dois. Nunca descobri. Abrs Mardilê

Caio Martins disse...

Jorjão, belo texto, mas a foto errou de matéria... Botar foto de índia pelada em divagação de periguete, só se estiver se referindo a quando o Cabral descobriu esta josta.
Abraços, cumpadi!

Marco Bastos disse...

É Jorge, acontece, com frequência enorme, de as pessoas estarem se intrometendo na vida alheia. A sociedade desenvolve certo padrão, e a partir daí cria-se uma horda de defensores dele. Querem tudo igualzinho, como essa fila de de Ira_semas uniformizadas. Até as índias foram padronizadas. abrçs.

Célia Rangel disse...

A vida como ela é... Com certeza, as "índias" estejam vendo novelas demais, sabendo de leilões de virgindade, e achando 'outros caminhos para as índias (ou Índias)... e desistiram de troca-troca por espelhos! Modernizaram-se? [...]
Abraço, Célia.

marcia disse...

Jorge,Como sempre ótimo texto...As índias quase roubaram sua cena...
Bjus
Marcia

Anderson Fabiano disse...

Cenas do cotidiano. Cenas pinçadas por olhos atentos, questionadores. Cenas por vezes rodriguianas, por vezes fellinianas, mas, sempre mexendo com nossos imaginários.

É Jorjão, você consegue estar cada dia melhor...

Meu carinho,

Anderson Fabiano