quarta-feira, 25 de março de 2009

Compadre Emerenciano

Na trilha






Emererenciano era conhecido de todos. Não havia favor que não fizesse.
Na pequena vila, casas simples, interior do sertão mineiro, ruas de barro que viravam grandes filtros quando chovia forte. O barro era bastante misturado com finas camadas de areia, que faziam ser a água do lugar de uma pureza absoluta.
Sua viagem até a cidade próxima era mais do que necessária; além do soro antiofídico, outras coisas se faziam precisar.
Preparava a viagem, que iria fazer com seu sobrinho mais velho, Ricardo. O forte moleque, que já beirava seus vinte anos, era o braço direito do tio. Emerenciano vinha de ninguém sabe onde, fora casado por oito anos, mas a mulher, fraca, não sobreviveu ao ataques consecutivos da malária. Não, ela não morreu da malária não. Seu corpo enfraquecido não aguentou a pneumonia brava. Em quatro dias, levaram seu corpo ao pequeno cemitério do lugar. O marido gostava muito dela. Sofreu e penou, o coitado. Mas era considerado na vila como um sábio e santo. Tendo estudo na cidade, onde completara o ginásio, era juiz, advogado, médico, enfim, não havia morador do lugar de menos de duzentos habitantes que não precisasse dos seus serviços, sempre disponíveis.
Ele mais o sobrinho já haviam preparado tudo. Viagem curta: não passariam de dia inteiro. Arroz, carne seca, farinha, café, rapadura e cachaça faziam parte do farnel bem acomodado na capanga de couro, velha, mas ainda em perfeitas condições.
Manhã cedo partiram, cada um na sua mula, lenta, mas capaz de enfrentar a estrada ruim que tinham pela frente. Merê, este era o apelido do homem já envelhecendo, não descuidou de limpar bem a velha espingarda de cartuchos, tiro único, calibre vinte e oito. Dez cartuchos, para que mais, se três deles estavam carregados com chumbo T, especial para animais de grande porte? Ricardo também levava uma faça mateira, grande que parecia espada.
Seguir caminho de noite não valia a pena. Não tinham pressa e o caso era de acampar, fazer fogo, cozinhar o arroz com a carne seca, dessalgada num riacho de águas cristalinas. Deixasse a carne mais tempo naquela água fria era erro: precisaria mais sal. Enquanto preparavam o arroz com a carne, bebiam a velha cachaça destilada no alambique de barro do Dr. João, vulgo Janjão, um homem de melhor qualidade, como tudo que fazia, inclusive a cachaça. Cachaça de pote, sem resíduos do cobre e envelhecida em tonéis de carvalho que haviam sido usados para amadurecer vinho tinto.
O esturro que ouviram foi forte. Onça, e das grandes. Barulho intenso na mata, a bicha estava no ataque sem o menor cuidado de não se fazer notada. Os burros estavam em pânico. A vinte e oito é mais arma passarinheira, mas usando cartuchos T é muito perigosa, como todas as armas.
O tiro fez eco no lugar. Foram procurar a atingida. Nada de mata derrubada, nem chão marcado, nem bicho encontrado.
Como no sertão isto é comum, amanheceu o dia e tio e sobrinho seguiram viagem. Histórias da mata, histórias do sertão.

2 comentários:

Caio Martins disse...

Meu irmão,

acho que "tinha cachaça no meio" mesmo, se é de pote então nem se fala, em vez de pintada de pata torta. Causo bão, de lei.

Alan disse...

Interessante. Este conto me faz lembrar "Vila dos Confins", de Mário Palmério com uns toques de Guimarães Rosa. Muito bom, embora os autores citados sejam lendas.